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São Mateus: refletir o passado e agir para o futuro
EDITORIAL
São Mateus: refletir o passado e agir para o futuro
Para um distrito que segundo Censo oficial de 2000 tinha uma população de 381.605 habitantes e que segundo projeções de Sempla deverá ter aproximadamente 493.000 habitantes em 2010 quase nada de sua história tinha vindo ao conhecimento público antes da existência do jornal Gazeta de São Mateus. Foi com empenho, dedicação e esforço que parte dessa inesgotável história tem vindo a público através destas páginas nos últimos 14 anos; o mesmo período em que circulamos ininterruptamente. E quem sabe da lida em manter um jornal com esse perfil, sobrevivendo de seus próprios esforços sabe o valor que isso tem.
Não merecemos palmas por isso, apenas faz parte de nossa índole e missão: contribuir para a divulgação dos fatos e pelejar pelo desenvolvimento sustentável, diga-se de passagem, dessa imensa comunidade que aqui cria raízes, labuta e convive socialmente.
Achamos que tanto esforço tem valido a pena e que, mesmo em doses homeopáticas, deixaremos para o presente e para o futuro registros únicos, valiosos, fiéis do que tem sido essa história. Claro, sabemos que ela sempre estará incompleta e que visões distintas sobre os mesmo fatos ainda não foram totalmente registrados, entretanto, temos a compreensão que essa é uma tarefa para qual, historiadores, pesquisadores e porque não dizer, a própria comunidade poderia se debruçar.
Trata-se, mesmo pelo pouco que registramos, mas que é muito comparado ao que já se fez de uma história bonita, sensível e dizemos isso sem pieguice e sem desvios paroquianos. A nossa história é isso mesmo; cheio de lutas, de contradições; de pequenas e grandes obras; de pequenas e grandes participações. Na parte da história que estamos tendo o prazer de entregar nesta edição aos leitores e a toda comunidade, o nome da família Mateo Bei, de Nildo Gregório, de Tia Cida, por exemplo, são lembrados não em sua totalidade é claro, visto que essa seria uma tarefa a que teríamos que nos dedicar com a competência e a persistência de arqueólogos e de historiadores, mas com lealdade, com a realidade que pudemos observar e registrar. Para muitos as informações pouco vão acrescentar; outros poderão criticar que os dados estão incompletos, mas para a maioria será a primeira vez que poderão ler um pouco do que foi o passado longínquo e mais recente e fazer suas comparações e, oxalá, suas próprias pesquisas.
Para reunir essas informações, a diretora desse jornal correu trecho, pesquisou, ouviu pacientemente todos que tinham alguma coisa a declarar e o resultado, depois de editado e resumido você pode encontrar nesta edição. Da redação temos certeza que ainda faltava encontrar alguns elos perdidos, vasculhar algumas informações com mais profundidade, entretanto, esperamos contar com a compreensão dos leitores que não é esse necessariamente o papel do jornal.
Olhamos para o passado para agir no presente e construir o futuro e esta edição não estaria completa se não deixássemos algumas informações que apontam para o futuro, algumas explícitas, como por exemplo, um breve painel sobre o que o poder público reserva para esta comunidade em entrevista com o atual subprefeito de São Mateus e outras sutis para a reflexão de todos nos que em conhecendo o passado e vivenciado o presente possamos especular como pode ser o futuro.
Apenas uma certeza agregou-se ao nosso entendimento. São Mateus ainda tem muito trecho a percorrer e que essa empreitada ficará mais fácil se o povo se organizar, equacionar suas demandas; pressionar os poderes públicos, mas também fazer sua parte; operar no seu quintal, digamos assim. Como a história de alguns aqui nos mostra são também com pequenas e corretas ações que cada um de nós pode empreender que uma comunidade mais sadia, mais justa poderá ser construída.Portanto, nosso convite nesta edição é para que reflitamos sobre o passado e nos organizemos em ação para o futuro. São Mateus, pela sua rica história, merece essa atenção de nossa parte. – Publicado na Gazeta de São Mateus, ed251
Subprefeito fala sobre obras em andamento em São Mateus
Ao completar 59 anos de fundação, uma intensa história de lutas e mobilizações populares marca esse bairro da zona Leste que passou por diversas administrações e distintos prefeitos. Tivemos desde administradores regionais nascidos e criados nas próprias lutas da comunidade como indicados de políticos em distintos momentos.
Indicado e mantido pelo atual prefeito Gilberto Kassab, DEM, o atual subprefeito de São Mateus é Clóvis Luiz Chaves que embora não tinha tido contato com a realidade local antes de sua chegada, aprendeu com uma rapidez impressionante a entender a realidade sócio-econômica de São Mateus.
Para termos uma panorâmica da situação atual e das perspectivas do futuro imediato a Gazeta de São Mateus entrevistou o subprefeito de São Mateus. Acompanhe os principais destaques da entrevista dada a Lucy Mendonça, diretora do jornal.
GSM – Dr. Clóvis, bom dia, em função do período de comemoração de aniversário de fundação do bairro gostaríamos de saber do senhor em que pé se encontram algumas obras e realizações aqui em São Mateus e comecemos pelas obras do Parque Linear e do Expresso Tiradentes?
Clóvis: Com prazer Lucy. Sobre o parque linear eu Percorri o local com o presidente da Sabesp e considero que vai ser uma grande conquista para a região. Será um parque linear com toda estrutura e com os equipamentos escolhidos pela própria comunidade do entorno. Já foi iniciada a terraplanagem na Vila Prudente e está previsto para maio de 2008 a sua inauguração, quase junto com os 60 anos de São Mateus. Quanto ao Expresso Tiradentes grande parte já está concluída e em 2008 está previsto o término do trecho quatro aqui na Praça Felisberto – Largo de são Mateus e em 2009 até na Cidade Tiradentes.
GSM – Outra questão que a comunidade gostaria de saber, vamos ter um túnel no Largo de São Mateus e quando sai pra valer a revitalização da Mateo Bei?
Clóvis: O túnel ainda é objeto de estudos não concluídos, mas posso assegurar que haverá algumas desapropriações próximas do largo e as pistas serão alargadas. Segundo a CET e a SP Trans vai melhorar o trânsito e estão garantindo que vai melhorar o fluxo. Os estudos podem indicar a retirada do transito pesado da praça e, talvez, os trolebus talvez saiam para outro local. Quanto à revitalização da Mateo Bei é o velho problema da burocracia na coisa pública que vai num ritmo mais lento do que desejamos. Já recapeamos um quarteirão da avenida e acabamos de contratar a empresa que vai retirar e colocar os novos postes a partir do dia 01 de outubro.
GSM – E o que está sendo encaminhado para resolver nossos problemáticos córregos: do Machado e Cipoaba?
Clóvis: Lucy tenho certeza que o prefeito Kassab quer resolver isso. Os estudos estão concluídos e uma nova licitação está sendo feita. Com isso teremos uma empresa que em até 30 dias deve começar as obras. O Córrego Cipoaba, no Parque São Rafael foi um entre os 40 córregos da cidade escolhidos para revitalização e despoluição. A Sabesp está tomando providências e vai coletar o esgoto em todo o percurso do córrego Cipoaba e vai melhorar a qualidade de vida daqueles moradores do entorno, inclusive dos freqüentadores da escola pública local. O esgoto finalmente vai ser coletado.
GSM – Subprefeito tive oportunidade nesses dias de acompanhar um grande ato em protesto sobre uma eventual possibilidade de remoção de várias empresas, indústrias, inclusive na 3ª Divisão e no Jd. Palanque, por conta de estarem instaladas em áreas de mananciais, o que o senhor pode nos dizer sobre isso?
Clóvis: De fato, hoje as empresas estão proibidas de continuarem lá por ser área de manancial. Antigamente era permitido. Com a alteração de zoneamento ali passou a ser área de preservação ambiental. Estou lutando junto a Sempla e espero que os vereadores ajudem: dali sai o sustento de muitas famílias. Tem que ser feito um zoneamento de maneira que a empresa não poluidora permaneça e as poluidoras que se adaptem as novas exigências. Tratamos e defendemos isso na reunião da revisão do plano estratégico de São Mateus. No Jd. Palanque a mesma coisa. Na Rua Particular Timão são por volta de 20 empresas e no Jd. Palanque mais umas 40. A Sempla vai mandar para a Câmara o projeto de Lei com novo plano diretor, nossa proposta é que se permita a manutenção da empresa onde já está instalada.
GSM – São Mateus ao longo de todo esse tempo tem sido um local onde ocorrem com mais intensidade ocupações irregulares, em geral promovidos por pessoas de má fé e o Jardim São Francisco, como fica?
Clóvis: De fato, novamente, as ocupações são sempre irregulares, estão desmatando, ocupando e assoreando córregos. Já fizemos três retiradas e vários deles voltam ocupar em outro lugar. Depois que fixam moradia só podem ser retirados com ordem judicial. Além disso, você tem razão existem golpistas que vendem o que não lhes pertence: áreas da prefeitura e de preservação ambiental. É uma espécie de cultura que premia os invasores e os grileiros num primeiro momento, mas tem gente sendo processada e a justiça ainda vai pegar alguns deles. Fazemos o que é possível para evitar, entretanto, depois de ocupada passa a ser também uma questão que só se resolve com ajuda do Judiciário. Estamos atentos e quando podemos evitar o fazemos.
GSM – A Lei Cidade Limpa já completou um ano de sua vigência como esta Lei está sendo observada aqui em São Mateus?
Clóvis: Praticamente todos os comerciantes de São Mateus tiraram as propagandas, entretanto já informamos inclusive o CDL _ Câmara de Diretores Lojistas para avisá-los que precisam tirar também as armações que ficaram no local. Vamos fazer uma primeira fase avisando e orientando sobre a necessidade de promover a remoção das armações e depois se for o caso aplicar as multas que começam com R$ 10 Mil. Se algum comerciante está imaginando que as multas não vão ocorrer e que haverá jeitinhos ou que a lei eventualmente seja revogada pelo novo prefeito ou prefeita que vier assumir, acho melhor eles pensarem melhor, mesmo porque a lei tem apoio de mais de 80% da população, inclusive de comerciantes que reconhecem que ficou melhor e, não acredito que vão mexer em leis que deram certo. Primeiro avisamos, depois multamos.
GSM – Quem transita e observa a região percebe que algumas obras estão em andamento, entre elas a prefeitura mexendo no Rio Aricanduva, do que se trata?
Clóvis: Boa observação Lucy. Vários pontos do rio estão sendo afundados ou alargados para continuarmos evitando as enchentes que já diminuíram nos últimos anos devido à intensa manutenção de limpeza que mantemos no leito do rio. Depois de terminada as intervenções iremos plantar muitas árvores de um lote de mais de duas mil árvores que plantaremos na região. Também estamos construindo mais uma unidade do Céu na Terceira Divisão que vai atender a comunidade do entorno. Já é uma realidade e deverá estar pronto para março ou abril de 2008. Na divisa com a Vila Prudente outro Céu está com quase metade de sua obra pronta. A atual administração vai entregar 26 ceus na cidade, só na nossa região teremos cinco. E por falar em Terceira Divisão aquele canteiro de obra em uma de suas principais avenidas é para a coleta de esgotos no Parque das Flores. Atualmente 12% do esgoto de São Mateus somos tratados. A partir do ano que vem serão 78% o que vai dar um ganho enorme em termos de qualidade de vida para a população de São Mateus.
GSM – Essas são algumas que estamos vendo, entretanto continuam parados os pedidos para a instalação do Parque Santa Bárbara e do mercado municipal, o que o senhor tem a dizer sobre isso?
Clóvis: O que pretendemos para o Parque Santa Bárbara é conciliar a existência da praça com uma praça esportiva amadora com vestiários, pistas para caminhadas, etc. Já temos uma arquiteta finalizando um plano de paisagismo para o local e talvez comecemos a intervir com obras em janeiro próximo. Quanto ao mercado municipal não existe previsão para este ano e deveremos retomar esse assunto no ano que vem em respeito a essa demanda que foi expressa em abaixo assinado.
Para finalizar queria lembrar aos leitores que temos inúmeras pequenas reformas em escolas, postos de saúde e estamos asfaltando diversas ruas. Outra novidade é que 5700 famílias do Jardim da Conquista receberam recentemente seus títulos de propriedade o que é uma coisa muito importante para todos eles. – Publicado na Gazeta de São Mateus, ed251
Tia Cida: a Mãe do Samba de São Mateus
Conheça um pouco da trajetória de Maria Aparecida da Silva Tarjan, a “Mãe do Samba de São Mateus” que foi homenageada em show aberto no SESC Itaquera dia 16/09 no lançamento do CD São Mateus: o Berço do Samba com a presença da cantora e compositora Bete Carvalho.
Com 59 anos de residência em São Mateus, a assistente social aposentada Maria Aparecida da Silva Tarjan é conhecida no mundo do Samba como Tia Cida ou Cida Preta e essa história começou lá trás numa vida que é um exemplo de persistência e crescimento pessoal em vários aspectos, entre eles a relação com o samba que parece vem desde berço. Não foi sem motivo que ela foi a homenageada durante o lançamento do CD São Mateus: berço do samba no Sesc Itaquera, no dia 16, onde além de um enorme público teve a presença significativa da cantora e compositora Bete Carvalho.
Cida mora em São Mateus desde 1949, quando veio com a família da Vila Matilde ainda criança. São Mateus dava seus primeiros e incipientes passos e ela acompanhou como criança as lutas que as lideranças adultas tinham então. Eram tempos de muita dificuldade, mas de muita solidariedade e de confiança entre vizinhos registra buscando pela memória. Era tempo de olarias e os mais abastados moravam perto do Aricanduva. “Lembro bem de Waldemar do Santos; que para nós era considerado rico, mas que se relacionava com todos apertando e lembrando o nome das pessoas. Era um tempo de muita dignidade”, enfatiza. Tia Cida participou da primeira escola do bairro, então um galpão de madeira muito comum na época na Escola Estadual Pedro Machado Pedrosa e ainda se recorda das chamadas orais da tabuada. Aprendeu a ler e escrever no final da década de 40 parou de estudar para trabalhar e reencontrou os estudos anos depois.
Como a mãe era doméstica, Cida desde pequena foi se ocupar da mesma coisa. Iniciou com 13 em casa de família na Zona Norte de São Paulo; depois foi levada por uma tia para trabalhar em casa de família na vila Madalena e ainda em outras casas até se casar em 1963, ainda jovem e frustrada por não continuar os estudos. Com o marido do qual se separou não muito tempo depois teve três filhos e precisava voltar a trabalhar para sustentar as crianças até que certo dia, diz ela, bateu a sua parte dois padres recém chegados da Itália que a procuraram por recomendação. Um deles era o Padre Franco Torresi que muito ligado na política muitos anos depois largou o sacerdócio, casou-se e, inclusive foi o administrador regional durante a gestão da prefeita Luiza Erundina, então no PT.
Tia Cida registra que a pedido foi trabalhar na paróquia em trabalhos sociais e esse período mudou sua vida e sua compreensão do mundo. Foram anos de lutas e movimentos populares. “Período das comunidades de base e da visão progressista da Igreja a partir do encontro de Medellín, na Colômbia com a Teologia da Libertação”, explica. “O Franco era ativista e reviramos São Mateus de cabo a rabo, organizando as reivindicações que desembocaram em várias ações e que também deram origem ao movimento de saúde”, lembra. “Com todos esses trabalhos e com que aprendia, posso dizer que renasci”, conclui.
Para Tia Cida o seu envolvimento era tão intenso que ela desconfia até que os próprios movimentos não queriam o que poderia ser considerado a sua radical idade, reflete com humor. “Tinha muita gente que queria minha cabeça”, ri. Certo dia, o médico Zé Augusto que era do movimento de saúde e posteriormente foi inclusive prefeito da Cidade de Diadema sugeriu que ela se preparasse para um concurso na Prefeitura para ser uma visitadora sanitária. Tia Cida num primeiro momento não dava muita bola, trabalhava com a paróquia e com os movimentos enquanto criava seus filhos. O doutor Augusto não só insistiu como deu um curso preparatório da qual ela participou. Quando foi o concurso, ela se surpreendeu porque na classe estaria disputando vagas com farmacêuticos, biólogos, estudantes de medicina etc. “Aquilo de certa forma me tranqüilizou, fiquei relaxada pensando que não poderia competir e fiz a prova já com a certeza do fracasso. O resultado: fui informada que passei em primeiro lugar”, exclama. Mesmo assim não deu muita bola e até perdeu o prazo para assumir o cargo. Segundo Tia Cida, passado cinco dias do prazo ter terminado “Fui contatada pela supervisora de Saúde da Penha para eu assumir o cargo. Acho que foi o empenho do pessoal de Itaquera e São Mateus que não me queriam como radical por ali”, ri, novamente.
Depois de ter assumido o seu posto a pressão dos companheiros continuaram e a incentivaram a voltar a estudar. As crianças já estavam mais crescidas, portanto lá foi ela se formar em Serviço Social na Faculdade Zona Leste, que posteriormente tornou-se a Unicid. Tia Cida conta que a administração da escola se aborreceu com ela porque ela levava os alunos às sextas-feiras a faltarem nas últimas aulas para irem aos sambas. Sinal de que apesar de toda trajetória o vínculo com o samba nunca foi rompido.
Em 1985 depois de formada o seu nome estava sendo indicado para a direção das creches da prefeitura na administração Mário Covas. Ela foi para a creche Bárbara Heliodora e logo depois para uma creche na Cohab Juscelino e destacou-se pelas festas que fazia para arrecadar fundos extras para as despesas da creche. Novamente ligada ao samba, suas festas eram um sucesso com o encontro de gente do samba e da comunidade. A coisa dava tão certa que se repetiam duas vezes por ano envolvendo a comunidade. A própria coordenadora do serviço social na época registrava a autonomia que essas festas permitiam sob a direção da Tia Cida. Tia Cida aposentou-se como diretora da creche Jardim Vila Carrão em 2002, que agora é uma CEI.
E, eu com o samba
A sua ligação com o samba já vinha da parte da mãe e da avó que dançava lundo, da mesma forma que ela ainda hoje dança. Era coisa de família e com seus filhos crescendo e querendo curtir o samba restou a Tia Cida acompanha-los. Ela se preocupava por onde andavam e com quem se relacionavam os filhos, daí restou ir junto o que não era nenhum aborrecimento, pelo contrário, vinda do samba era uma tarefa prazerosa. “Descobríamos, por exemplo, que tinha um bom samba no Brás, lá íamos nós em turma, praticamente uma família. Era comum sairmos juntos”, explica.
Da própria relação que ela desenvolveu no trabalho comunitário e nas creches, as pessoas começaram a se agregar na sua casa para ensaios. “Vinha gente de várias partes, eles ensaiavam e eu já lembrava de determinada festa beneficente das quais eles participavam”, informa. Um de seus filhos, Marcelo, ganhou um cavaquinho preto da mãe, logo após o falecimento do pai para se distrair. Com o tempo tornou-se um exímio instrumentista e, segundo Tia Cida é considerado pela Bete Carvalho um dos melhores cavado do Brasil, o que não é pouca coisa.
Essa relação com a Bete, explica ela, vem do fato de Marcelo tocar em boate desde os 16 anos “ele tinha tamanho e responsabilidade, apesar da idade”, em boates. Em uma dessas ocasiões conheceu a Bete Carvalho em um outro local onde era muito comum o encontro de músicos chamado Boca da Noite. Daí nasceu uma amizade e formou-se com dois sambistas de Santo Amaro e os três de São Mateus o Quinteto Branco e Preto, apadrinhado pela Bete Carvalho que visitou São Mateus e a Tia Cida algumas vezes. Ela mesma estava presente no lançamento do CD, no Sesc, onde se homenageou a Tia Cida, considerada a Mãe do Samba.
“A rotina da minha casa era com gente chegando para ensaios, visitas e intercâmbios com outros grupos de samba e mais água no feijão para alimentar alguns deles”, ri, também lembrando quantas vezes acompanhou os filhos à fábrica de instrumentos situado na Avenida Celso Garcia. “Essas coisas todas foram acontecendo durante os últimos vinte anos. Talvez seja por isso que, essa moçada, gentilmente me considera dessa maneira”, diz humildemente. Apesar da maior divulgação que os bons grupos de samba hoje estão tendo, Tia Cida mantém a reflexão e alerta para o preconceito que ainda se mantém com o samba.“Fiquei feliz por eles me quererem no palco, embora eu goste mesmo é de ficar junto do povão”, explica tia Cida sobre o que ocorreu no Sesc que concretamente foi um belíssimo show com a sua participação logo no início em atendimento a um refrão que faze menção ao seu nome. Tia Cida entrou no palco e sob aplausos cantarolou e dançou o semba ou o lundo como sua vó dançava, mantendo acesa a chama da cultura como só uma verdadeira mãe do samba faria. – Publicado na Gazeta de São Mateus, ed251
Para alguns Nildo Gregório também deu mancadas
Percorrendo a história de São Mateus o nome de Nildo Gregório se destaca em vários momentos. Na maioria deles registraram-se depoimentos que o tomam como a primeira grande liderança do bairro, sendo um dos principais responsáveis pelo seu desenvolvimento inicial e isso literalmente. Foi Nildo Gregório que coordenou a abertura das primeiras ruas no loteamento com burros puxando monstruosos arados que sulcavam as terras.
Nildo também foi o responsável pelas primeiras ações organizativas da população para reivindicar as melhorias. Foi dele também a iniciativa para o primeiro serviço de comunicação na comunidade: um serviço de alto falante.
Mas como nem tudo são flores, José de Brito de 85 anos com 47 anos de São Mateus nos conta que em pelo menos um determinado momento o Nildo Gregório proporcionou uma grande decepção aos moradores que esperavam que ele fosse como prometera, pouco tempo antes ser o candidato a vereador na década de 60. “Esperávamos que o Nildo fosse o candidato a vereador e com o trabalho que ele desenvolvia seria eleitor facilmente com os votos dos moradores de São Mateus e do Aricanduva. Acho que ele ia ganhar estourado”, registra José de Brito.
No início da campanha eleitoral, segundo José de Brito, foi colocado um palanque em um descampado que reuniu praticamente toda a comunidade que esperava ouvir de sua mais significativa liderança que ele seria candidato. “A decepção foi grande, Nildo Gregório apareceu no palanque e falando aos presentes informou que não seria candidato e que estava apoiando certo Capitão Joaquim. Como desculpa, Nildo falou que não tinha conseguido legenda, mas a desconfiança nossa é que já naquele tempo correu grana. A nossa liderança deve ter recebido dinheiro para não concorrer e apoiar o referido capitão”, explica. Para fechar o assunto o capitão, apresentado pelo Nildo não foi eleito, mas ficou como suplente.Passada aquelas eleições as lutas continuaram e anos depois, talvez pegando gosto pela coisa, Nildo Gregório se candidatou, mas não foi eleito e, segundo José de Brito, entrou em depressão. “As coisas tinham mudado muito com São Mateus crescendo. Nildo ia de porta em porta com seu ‘santinho’, mas o seu tempo havia passado e muitos sequer sabiam o quanto ele tinha lutado pelo bairro”, concluiu. – Publicado na Gazeta de São Mateus, ed251
Breve história da Igreja Católica em São Mateus
Ao tomar conhecimento que a Gazeta de São Mateus estava reunindo material para contar uma pequena história do bairro, o senhor Vantuir de Melo, mesmo circunstancialmente debilitado em sua saúde numa iniciativa louvável fez questão de fazer chegar à redação algumas anotações organizadas sobre o desenvolvimento da Igreja Católica na região desde a sua fundação até praticamente os nossos dias.
Diante de tanto esforço, a redação já agradece a colaboração e compilou as informações prestadas pelo senhor Vantuir de Melo. Acompanhe um resumo.
Em todo mundo católico o dia 21 de setembro é lembrado como o dia de São Mateus que naturalmente também é considerado o padroeiro do bairro. Para efeito de emancipação política do bairro adotou-se o mesmo dia do padroeiro.
Até ser elevada a condição de paróquia que foi construída com a doação de material das olarias. É bom lembrar que São Mateus tinha muitas olarias na época e com a doação da mão-de-obra o futuro bairro já tinha sua capela, entretanto as celebrações eram feitas por um padre e seminaristas a cada quinze dias que vinham do Seminário Nossa Senhora do Sagrado Coração de Vila Formosa. Na mesma época, um senhor de nome Modesto vinha enviado pela Cúria Metropolitana fazer a catequese das crianças. Existia a capela e existiam os fiéis, entretanto não se tinha recursos para a manutenção de um pároco residente.
A catequese também era aproveitada por adultos e jovens para alguma aprendizagem religiosa. Neste período foram fundados na capela de São Mateus o Apostolado da Oração cuja presidente era Mariana de Souza Milani; a Pia União das Filhas de Maria presidida por Edinéia Milani e a Congregação Mariana cujo presidente era Manoel Nascimento Barros que na época namorava Ednéia Milani. Auxiliavam nos trabalhos ainda Delfim nascimento Barros e Eugênia Nascimento Barros
O próprio Vantuir, conhecido como Fine era o leiloeiro oficial durante as quermesses que eram realizadas com a colaboração do pequeno comércio que então existia, por exemplo, o Depósito Romeu Batalha, Empório Rocha e as olarias. Através de campanhas a Capela de São Mateus ganhou um órgão a pedal e tinha como responsáveis o casal Odilon e Antonia. Com o instrumento um primeiro coral foi formado pelos jovens José do Nascimento (Zé da Chácara); Waldomiro Eleutério da Silva (Miro); Delfim N. Barros; Manoel Barros; Eugênia N. Barros e o próprio Vantuir (Finé). A imagem do padroeiro foi doada pela família Mateo Bei, trazida por Dr. Fábio Bei quando foi celebrada uma missa em 21/09/1955.
Em 6/3/1958 o cardeal de São Paulo deu posse ao primeiro pároco na capela elevando-a a condição de paróquia passando a chamar-s Paróquia de São Matheus Apóstolo sob responsabilidade do padre Felix Jakubauskas, natural da lituânia que encontrou muitas dificuldades para manter-se na região por onde circulava com uma bicicleta enfrentando buracos. Padre Félix para se manter dava aulas de acordeom, entretanto, quem não podia pagar as aulas também participava. Quando o padre tomou posse já havia sido construída pela Cia. Irmãos Bei a casa paroquial, daí existir na igreja propagandas de imobiliária.
Na mesma época um altar de mármore foi doado a paróquia por Eugênia N. Barros num período em que apenas a Avenida Mateo Bei tinha nome oficial as demais ruas, por exemplo, a atual Antonio Previato era a rua 14; a Ângelo de Candia era a rua 15; a Luiz Botta era a 16; a Marechal Renato Paquet era a 18 e por assim em diante. Os posteamentos, segundo Vantuir eram todos de eucaliptos e apenas algumas ruas eram servidas de eletricidade pela então Cia. Light de Serviços de Eletricidade. Havia casas com energia elétricas emprestadas, mas não acintosos “gatos”, como vemos agora em alguns lugares.
A partir de então as missas todos os domingos encontrava o bairro ainda sem padaria própria e as poucas propagandas de então davam conta da existência de algumas poucas atividades. Tinha a farmácia do Moura ao lado do escritório da Cia. Irmãos Bei e ao lado de uma garagem administrada pelo Osvaldo Névola com caminhões e tratores que ainda trabalhavam na urbanização do bairro. Em 1960 ainda com a colaboração do incipiente comércio e das olarias foi construído mais um lance da paróquia ligando-a a igreja. A construção continuou dessa forma até 1992 já na gestão do Pe. Fernando Altimeyer Junior, atualmente professor universitário e casado. Foi na sua gestão que se iniciou uma nova construção para substituir a antiga igreja. Quando deixou à igreja as obras já estavam em fase de acabamento.
Após esse período novas paróquias foram fundadas na região: São Paulo Apóstolo no Jardim IV Centenário e J. Imperador; São Marcos Evangelista no Parque São Rafael; Santíssimo Sacramento na Cidade Satélite Santa Bárbara e Sagrada Face no Jardim Aricanduva entre outras espalhadas pelas comunidades.
Segundo Vantuir, foi o Nildo Gregório que fundou a primeira associaçãrio que fundou a primeira associaçespalhadas pelas comunidades.as algumas ruas eram servidas de eletricidade pela enta luta se o no bairro a União dos Moradores que tinha serviços de auto falantes onde os comerciantes faziam suas propagandas e onde todos os dias às 18h00 rezavam a hora da Ave Maria pela paróquia e a UMB. Com o tempo NIldo passou a União dos Moradores para a Associação Divulgadora A Voz da Colina, primeira experiência parcial de imprensa local e que posteriormente com o auxílio do Tenente Oscar outro ativista do bairro deu origem a Sociedade Amigos do Bairro que tinha como primeiro secretário o próprio Vantuir.
Vantuir ainda registra que em 1965 veio do Canadá o professor Jocelin Grenier Royer que com a ajuda do Padre Ary Joly, então pároco à época, que adquiriu dois terrenos na atual Rua Joaquim Gouveia Franco para a construção da sede própria da Sociedade Amigos da Cidade São Mateus onde se realizavam bailes, aulas de datilografia etc. O Padre Joly, hoje desligado da igreja e casado era muito amado pela comunidade e lutou incansavelmente pelo progresso do bairro tendo criado um serviço de atendimento médico com ambulância para o atendimento dos moradores independente dos credos religiosos. O Padre Ary também lecionou na EE Prof. Alfredo Machado Pedrosa. Ao lado da escola funcionava uma sub-delegacia de Polícia, mas não havia nenhum delegado e um sargento de nome Ferreira mais dois soldados faziam às vezes de autoridade e conciliadores em demandas familiares. Segundo Vantuir as ocorrências naquele período se resumiam as bebedeiras, brigas ou roubos de bombas de poço. NO mesmo período não havia os serviços da Sabesp e todas as residências que podiam eram servidas por poços individuais e fossas sépticas.
Por conta de escândalos com roubos de descargas em banheiros e de bombas e motores um salão próximo à igreja que era utilizado pelo Clube Atlético São Mateus foi fechado por causa de um abaixo-assinado por parte da maioria dos moradores católicos do local. Em 1965, após muita luta, iniciou-se a pavimentação da Avenida Mateo Bei e a colocação de luminárias de mercúrio e o desenvolvimento acelerou-se.
Em termos de cultura coube aos jovens ligados aos Congregados Marianos reunir as pessoas para assistirem filme no salão paroquial o que era praticamente a única diversão dominical existente no bairro, além dos jogos de várzea. Para o cinema eram trazidos os bancos da igreja para acomodar os presentes.
Seqüência dos párocos em São Mateus
Padre Félix Jakubauskas; Pe. Antonio Manoel de Castro; Pe. Ary Joly; Pe. José Moreira; Padres Luigi Valentini e Antony Sammult; Pe. Valeriano dos Santos Costa e Pe. Franco Torresi, este posteriormente administrador regional de São Mateus na gestão da prefeita Luiza Erundina; Pe. Pedro Luis Stringuini, atual bispo auxiliar de São Paulo; Pe. Fernando Altimeyer Júnior, desligado do ministério e professor universitário e o atual padre Lauro.
Sobre Vantuir de Mello (Filé):Iniciou os estudos no Colégio Arquiodicesano e foi um dos secretários do ex-cardeal de São Paulo, Dom Agnello Rossi e como estudante era atendente na Cúria Metropolitana e participou da campanha e ajuda do governo do Estado para o término das torres da Catedral da Sé, sempre ligado na fé e fiel a Igreja católica. Hoje se encontra enfermo, mas se desdobrou em nos ajudar a contar um pouco da história de São Mateus. – Publicado na Gazeta de São Mateus – ed251
O Movimento Popular de Saúde – São Mateus
O Movimento Popular de Saúde da Região de São Mateus teve início em 1979 e o mesmo ocorria em várias outras regiões da Zona Leste e a estratégia era a mesma. Em geral, iniciava-se com o estímulo dos padres progressistas da Igreja Católica, embalados pela Teologia da Libertação, que foi fruto de uma profunda reflexão da Igreja nos Encontros de Puebla, México e Medellín, Colômbia, diante das iniqüidades e injustiças sociais que perpassavam todo o continente americano e, em geral os paises do Terceiro Mundo.
No final dos anos 70 a ditadura militar agonizava e um novo alento era dado aos movimentos sociais populares. Forças de esquerda até então engessadas por tanta perseguição, tortura e mortes se reagrupava. Desta vez com menos vanguardismo queriam construir e emancipar a população mobilizando-as para que travassem suas próprias lutas. Era mais ou menos esse o pano de fundo onde atuaram valorosos militantes, principalmente médicos sanitaristas na Zona Leste.
A comunidade em geral era convidada pelos padres atuantes a participar em reuniões com os médicos sanitaristas onde se falava da saúde da mulher, de vacinação, nutrição, epidemias e naturalmente das péssimas condições do serviço de saúde do bairro e das desigualdades sociais. Em São Mateus, um dos médicos que fez esse percurso é o atual secretário do Verde e Meio Ambiente da Prefeitura de São Paulo, Eduardo Jorge que antes havia sido deputado federal por diversos mandatos pelo PT. Na época as mulheres de São Mateus tinham que recorrer ao Centro de Saúde de Itaquera, o Centro de Saúde de São Miguel Paulista, Vila Prudente e da Penha. Também havia alguns serviços de saúde em casas alugadas no Jardim Colonial.
O grupo que ser formou em São Mateus, a exemplo dos outros foi reivindicar junto a Secretaria Estadual de Saúde mais postos de saúde. O preparativo para a ida até a Secretaria demandava muita organização, arrecadação de recursos para as despesas com faixas e cartazes e aluguel de ônibus. Na época o secretário era o Adib Jatene que diante da força do movimento foi posteriormente até o bairro onde foi recebido por uma multidão aglomerada em frente à Capela de São Mateus. Uma carroceria de caminhão serviu de palco para a encenação do que era a vida dos moradores da Zona Leste quando precisavam de serviços de saúde. O mesmo expediente era utilizado em outros focos do movimento na Zona Leste. Para São Mateus ficou de a população localizar casas que pudessem ser alugadas para receber os postos de saúde. NO início da década de 80, enquanto não se construíam postos próprios algumas unidades foram alugadas.
Depois de conquistados os postos parcialmente o movimento em geral refluía um pouco, mas os que ficaram criaram os primeiros conselhos populares, em São Mateus, por exemplo, um deles era do Jardim Iguatemi. Os militantes iam de porta em porta pedindo para que a população exercesse seu direito de voto. Com a persistência muitos aprenderam a exercer um pouco de sua cidadania. As principais conquistas do movimento foram os cerca de 18 postos conseguidos no período. O intercâmbio com os outros movimentos de saúde espalhados pela zona leste resultou em um fortalecimento do movimento que hoje está mais envolvido em melhorar e manter a qualidade do atendimento dos postos de saúde e na criação de alguns movimentos e espaços mais amplos de organização popular.
O Conselho Popular de Saúde continua tanto quanto possível organizando a participação popular e promovendo o diálogo com as autoridades. Hoje são aproximadamente 100 militantes na Zona Leste, compondo 10 regiões. Desse grupo 80% se compõem de mulheres, que têm uma dedicação quase que diária ao MPS. “É difícil. Já houve dia de querer largar tudo, mas a Teologia da Libertação me ensinou que, quando se trata de igualdade e justiça, de grão em grão a galinha enche o papo. Tem valido a pena. Vai valer sempre”, testemunha uma das conselheiras de nome Luzinette.
“Eu topo”
Num fim de tarde do início de 1980, Luzinete dava os últimos retoques na casa para que o marido encontrasse tudo a seu gosto no retorno do trabalho — não lhe rendendo nenhuma reclamação ou suspeita sobre suas atividades clandestinas — quando aquele médico sanitarista que participava das reuniões das mulheres sobre saúde bateu no seu portão com um convite simultaneamente incompreensível e atraente. “Naquela época a gente não sabia de ditadura, democracia, eleição, partido. Era tudo meio nebuloso, mas, ao mesmo tempo, interessante. Então ele me contou que tinha um pessoal montando um partido com o nome de Partido dos Trabalhadores. Era gente interessada na luta, e para abrir o PT eles precisavam de filiados e explicou que, como eu estava envolvida com Movimento Popular de Saúde talvez, eu quisesse participar. E me fez o convite. Eu topei na hora e fui uma das primeiras filiadas do PT”, diz Luzinette. O médico sanitarista era o atual secretário da Saúde do Município de São Paulo, Eduardo Jorge. – Publicado na Gazeta de São Mateus, ed251
E tem quem ainda sonha com a emancipação do bairro
Sabe-se que desde o inicio dos anos 80 vários grupos de moradores sonham com emancipação do bairro imaginando com isso um desenvolvimento maior e mais intenso, entre estes, Benedito Carlos Ângelo da Silva que era presidente do que ficou denominado como Conselho de Emancipação. O conselho até criou uma bandeira para o eventual futuro município.
A bandeira de São Mateus, criada por Carlos Ângelo com arte e desenho de Edson Sebastião Pereira, é cheia de significados. Tem oito listras azuis, em homenagem ao ano nacional da mulher; oito listras brancas, simbolizando a paz; um triângulo, que com seus lados iguais e reflete a união entre instituições e população; verde da esperança; ouro da riqueza e uma corrente. A idéia da corrente foi inspirada no profeta Kalil Gibran, que escreveu: “a corrente não é mais forte que seu elo mais fraco”. Na adaptação de Carlos Ângelo, “a família não é mais forte que seu membro mais fraco”, ou seja, a luta é também para que São Mateus seja um lugar menos desigual. “É preciso criar condições para que todos cresçam”, defende. “Nós temos população e estabelecimentos comerciais em número suficiente”, garante Benedito. A Avenida Mateo Bei é o principal pólo de comércio e serviços.A esse respeito foi apresentando um projeto de emancipação na Assembléia Legislativa, entretanto não aprovado. Atualmente, segundo Carlos Ângelo, o Conselho tem se dedicado a estudos e aguarda o momento oportuno de fazer uma nova tentativa. – Publicado na Gazeta de São Mateus – ed251
Breve história de São Mateus
O bairro de São Mateus às vésperas de completar 59 anos de fundação ainda tem muita luta pela frente para alcançar a plenitude de seu desenvolvimento e, aparentemente, se considerarmos os avanços recentes e os planos previstos principalmente para as alterações urbanísticas previstas o tal do desenvolvimento poderá acontecer. Assim esperam as lideranças e a comunidade local.
Para se chegar até aqui, essa história toda começou lá pelos idos de 1840 quando toda a região era de fazendas de propriedade de João Francisco da Rocha que posteriormente foi vendida para Antônio Cardoso de Siqueira que posteriormente dividiu-a em cinco glebas já indicando as severas transformações porque vinha passando a economia que já não comportava grandes fazendas.
Até a década de 40 ainda era a Fazenda Rio das Pedras até que em 1946 uma gleba de 50 alqueires foi vendida à família Bei (Mateo e Salvador Bei) que vieram da Itália em pleno período da II Guerra Mundial e quando o Brasil definitivamente era o destino de muita migração européia dando origem a que foi chamado de fazenda São Mateus.
Os imigrantes aparentemente não tinham a intenção de tocar fazendas na periferia da cidade de Santo André e de São Paulo de então e em 1948, o seu patriarca Mateo Bei decide lotear a área vendendo os primeiro lotes já de olho no que se iniciava como área de desenvolvimento industrial do ABC nos anos seguintes. O patriarca provavelmente percebeu que São Paulo e o ABC durante o período já era o destino de milhares de migrantes que vinha para a região para tentar trabalhar na nascente indústria.
Entretanto as dificuldades para fazer o loteamento intenso do local em função das distâncias dos locais mais desenvolvidos como, por exemplo, a Penha e São Miguel Paulista que já na época eram locais mais consolidados fez com que a empreitada fosse feita na base de promoções. Os loteadores então para incentivar os possíveis compradores ofereciam material de construção: telhas e tijolos das mais diversas olarias próximas que eram puxadas através dos caminhos por carros de bois. Funcionou e as casas, em geral, eram feitas em sistema de mutirão.
O patriarca da família Mateo Bei que tinha interesse no crescimento do local também foi um incansável batalhador pela formação cultural e sócio-econômica de São Mateus e fez escola. Os seus descendentes filhos e genros adquiriram mais de um milhão de metros quadrados do que era conhecido à época como Fazenda do Oratório e também a lotearam aumentando ainda mais a região que tinha dimensões de cidade; por isso chamar-se inicialmente Cidade de São Mateus.
Coube a Nildo Gregório da Silva a missão de coordenar os primeiros trabalhos de abertura de ruas no final de 1946, como funcionário da empresa responsável pela terraplanagem da avenida que posteriormente ficou conhecida como Mateo Bei, em homenagem ao homem que iniciou o loteamento exatamente em seu ponto zero na Avenida Caguaçú, mais tarde conhecida como Avenida Rio das Pedras. A tração para sulcar a terra e estabelecer ruas era feita por burros.
Nildo residia na época em São Miguel e tinha que sair de casa por volta das 3 horas da manhã para chegar a São Mateus as 8h00. Tomava três conduções e ainda andava a pé por cerca de três quilômetros até o Largo do Carrão para pegar outro ônibus. Essa via sacra levou três anos quando então apareceu na pré-história das lotações o pau-de-arara, muito comum na época. A abertura das ruas levou anos para ser realizada e Nildo além de se mudar posteriormente para São Mateus assumiu o papel de defensor do bairro sendo uma de suas primeiras lideranças.
À exemplo de como foi o crescimento na periferia desordenada de São Paulo injusto e concentrador, o desenvolvimento ficava reservada para onde estavam as fortunas paulistanas de então; os ex-barões do café e agora capitães da incipiente indústria e do comércio estavam concentrados no eixo que hoje é compreendido como centro expandido Praça da Sé até a Mooca; até a Avenida Paulista; até as bandas da Barra Funda e Sumaré e outros lugares para onde o poder público reservava seus melhoramentos como iluminação pública, saneamento, serviços de saúde pública, boas escolas e todo o aparato público que pudesse ser instalado.
A estratégia dos loteadores eram abrir novos loteamentos em lugares distantes desprovidos de benfeitorias públicas que através do seu adensamento acabava constrangendo a prefeitura e o Estado a levar, mesmo que a contragosto alguns serviços públicos até o local. Em geral a primeira demanda era por transportes daí os primeiros ônibus começarem a circular de forma mais intensa no início dos anos 50.
Muito provavelmente Nildo Gregório que havia se estabelecido no local para agregar mais valor de uso ao loteamento que se iniciava e que atendia os interesses envolvidos a época e o interesse dos moradores deram início à luta pelo desenvolvimento regional inaugurando uma longa tradição de São Mateus que perdura praticamente até nossos dias. Em 1952 ele fundou a associação "A Voz da Colina", com um inovador serviço de alto-falantes puxados por carroça por meio do qual a população apresentava suas reivindicações nas áreas de transportes, saúde e educação. O slogan da associação – "Entra no ar a nossa divulgadora A Voz da Colina, uma voz amiga que cruza os céus de Piratininga”, ficou na memória dos são-mateuenses.
Muitas demandas; muitas lutas e foi graças ao empenho dos moradores e de suas lideranças que São Mateus ganhou sua primeira escola, um galpão de madeira improvisado, em 1951 e uma escola estadual em 1953. Para se ter uma idéia o asfaltamento de sua principal via a Avenida Mateo Bei foi feito em 1962 e a rede de água só chegou em 1976.
Eram as lutas populares que impulsionavam o desenvolvimento local para transformar o local ermo em um bairro de fato e era chegada a hora do comércio fazer sua parte. O primeiro ponto comercial que se tem notícia era o Empório do Eustáquio instalado em 1949 seguido no ano seguinte pelo Empório do Maninho. A partir de então, os moradores também tinham onde comprar mercadorias de primeira necessidade.
Enquanto o entorno da Avenida Mateo Bei crescia lentamente e não havia empregos no local os trabalhadores se desdobravam em longas e penosas jornadas. Utilizava-se de jardineiras _espécie de ônibus sem horários fixos_ ou pau-de-arara para chegarem até o Largo do Carrão de onde saiam algumas conduções para os locais mais desenvolvidos até que em 1950 dois ônibus começaram a fazer o itinerário do local até a Avenida João XXIII em percurso com muito buraco e poeira onde tinham que dividir espaços com galinhas, mercadorias que eram transportadas pelos usuários. Nem é preciso lembrar que em épocas de chuvas as coisas se complicavam e era comum ver os passageiros tentando desatolar os veículos.
Foi somente em 1952 que a primeira linha passou a funcionar com alguma regularidade da Empresa Cometa que ia até a Avenida Sapopemba. Muito posteriormente é que se instalou a Empresa de ônibus Vila Carrão.
Na década de 50 e início dos anos 60 tinha tudo por se fazer na região e foi uma época de muita luta dos moradores por implantação de asfalto, redes de água e esgoto, iluminação pública e outros serviços como delegacias e agências dos Correios. Dizem até que uma das principais lutas foi pela construção de escolas, visto que a mais próxima distava sete quilômetros entre a Vila Nova Iorque e Vila Antonieta e para onde a maioria das crianças ia a pé. Entretanto, segundo os historiadores foi diante de uma fatalidade envolvendo o estupro de uma criança de dez anos que a luta se intensificou até que em 1955 a Secretaria da Educação construísse um primeiro galpão de madeira para servir de escola.
Vale registrar que a fundação da primeira paróquia da Igreja Católica data de 1958.Naturalmente as lutas e as reivindicações _que tiveram um longo período de refluxo durante a vigência da ditadura militar até por volta de 1976_ continuaram e no final dos anos 70 e inicio dos anos 80 a região estava envolvida nos movimentos de saúde, contra o custo de vida e nos diversos movimentos populares, principalmente estimulados pela Teologia da Libertação da Igreja Católica no período. – Publicado na Gazeta de São Mateus – ed251