Eram os 0,20 centavos, a surpresa e o aprendizado das ruas
Entrevista concedida a Folha de S. Paulo uma semana após anunciar a baixa das tarifas de ônibus na cidade de São Paulo, o prefeito Fernando Haddad (PT) disse que não se pode desperdiçar a energia das ruas. Disse que se for necessário vai comprar briga com usuários de carro para melhorar o transporte público.
Um estadista que se preze, seja aqui na capital, seja em outras cidades do mesmo porte já devia ter tomado esse partido, o do transporte público há tempos. Tem até uma informação a ser confirmada que em Tóquio, uma cidade do Japão, a compra de um segundo carro para a mesma pessoa, família ou endereço só é autorizada, caso consigam demonstrar que tenham onde guarda-lo fora das vias públicas. Esse é apenas ação concreta sobre a coisa. Tem outras, entre elas a taxação da circulação de automóveis particulares em determinada áreas. Pode dar calafrios a nós quando pensarmos em mais taxas ou cerceamento da nossa circulação confortável, mas é uma opção e está é sim pela maioria.
Se o transporte e o trânsito são problemas que não precisam desenhar, o reflexo do aumento de passagem, os tais vinte centavos, precisou ser demonstrado àqueles que não passam o sufoco de uma maioria quase invisível, apesar de volumosa. E foi isso que fez, acertadamente, o Movimento Passe Livre na cidade com reflexos idênticos em outras capitais e cidades importantes.
O raciocínio é de que se o transporte é público tem que ser custeado por todos, mais barato ou até gratuito, conforme algumas pessoas proeminentes já levantaram como hipótese. Em se considerando que não existe almoço grátis o custo tem que ser rateado para a sociedade como um todo.
Há que se levar em conta que são os próprios trabalhadores, com seus longos e dificultosos deslocamentos para trabalhar, a maioria entre os pagadores de impostos diretos no consumo. Os outros eventuais cotistas desse rateio, a classe média e os ricos que não dependem tanto diretamente do transporte público não têm como reclamar. Pelo menos das intenções da proposta como solução que indiretamente também os beneficia.
A surpresa com as ruas ocupadas
E foi com a desconfiança das intenções e dos sempre duvidosos comportamentos da nossa classe política e da elite que a massa foi colocar a pauta das ruas para além dos 0,20 centavos. O que se viu foi vontade de ocupar as ruas para demonstrar insatisfação generalizada e difusa, quando não, confusa, com os descalabros que vem sendo cometido ao longo dos vários governos civis desde a saída da ditatura militar.
Se durante a ditadura em seu período mais duro havia pouco que se fazer em termos de denunciar e protestar contra os desmandos da época a chegada dos governos civis, numa suposta democracia, abria novos caminhos e por eles percorreram até mesmo forças politicas que prometiam, mas não entregaram por completo um mundo novo.
A verdade dos fatos é que ninguém, as pessoas, a sociedade não organizada, os setores organizados, setores de direita ou à esquerda tinham qualquer desconfiança da enxurrada que se seguiu intensa nos dias de junho e que ainda não terminou. Se a tomada das ruas foi surpresa, as condições para que ela ocorresse não.
O caldo de cultura para os protestos estavam dados e se acumulavam há tempos. Se por um lado foram nutridas pela própria ascensão de ampla camada de consumidores, a festejada classe média baixa, que chegou ao consumo e coloca novas demandas, por outro havia uma mal estar geral com a estagnação dos possíveis avanços sociais, das promessas não cumpridas como ‘mais saúde, educação, habitação, segurança etc.’ que se somaram a desfaçatez e mau comportamento dos poderes legislativos, executivos e judiciários.
São tantas as lambanças que representantes desses três poderes fazem, que eu precisaria de um artigo próprio. Mas para não deixar de colocar as premissas, bastam duas ou três. O comportamento de corporação dos parlamentares, em todas as esferas, legislando em causa própria; dos executivos com seus secretários, prefeitos, governadores e ministros com seus negócios escusos por dentro do Estado e ainda dos juízes e outros órgãos apensos ao Judiciário que, entre outras belezuras, decidem, como os outros poderes, sobre seus próprios salários e ganhos criam desconforto a cidadão comum. Vale registrar ainda que no Judiciário, muitos dos seus atores mal conseguem escapar de se colocarem acima do bem e do mal.
O que dizer então das denúncias quase diárias sobre malfeitos e corrupção? Quantos dos réus confessos foram ou estão na cadeia? E mais, deveriam eles estar na cadeia, quando a maior punição que eles poderiam ter, seria a perda completa dos bens roubados em favor do tesouro nacional, conforme penso como proposta há muitos anos?
Melhor aprendendo na rua do que a paz enganosa das casas
Se existem razões às pencas para queixas e protestos, esses não podem ser vistos necessariamente como problemas que foram criados por este ou aquele governo; por este ou aquele partido. É natural que as queixas têm que ter destinatário seja a presidenta, os governadores, os prefeitos, os vereadores ou deputados. Que seja esse o caminho, mas a generalização, a simplificação e a recusa em entender a politica como fazem os simplórios não leva a canto algum.
Há que se pensar que os problemas têm a ver com o sistema de governo, com o modelo, mais do que com os figurantes do período. É certo que a maior parte deles vem se beneficiando do atual estado de coisas e a marola das ruas incomoda e amedronta. Cabe a eles diante da pressão mudar o comportamento ou pegarem seus bonés se mandarem de volta pra casa, não sem antes devolverem o que surrupiaram indevidamente. Ah! Como gostaria que assim fosse!
Se a despolitização e a ira sem causa e direção podem se prestar a alimentar um caminho perigoso e autoritário tornando preocupante a ausência de reflexão e disposição para aprofundar os motivos de suas raivas e achar saídas construtivas e propositivas, a alternativa também não é ficar paralisado em casa. Em termos da necessidade do país é preferível o risco das ruas que o silêncio sepulcral e subalterno da sociedade.
E aqui as responsabilidades são reveladas, notadamente à esquerda por dentro ou de fora dos partidos. Cabe a ela disputar tanto quanto possível a hegemonia da insatisfação e os corações e mentes para a real construção e o aprofundamento da cidadania. Que isso seja rápido, pois ao invés disso, o que se viu por parte de gente supostamente esclarecida foi intolerância com o aprendizado ou não dos próprios manifestantes. O que menos precisamos neste momento é gente que diz “eu estava aqui antes e sei o que é certo”.
Se é visível que no rio caudaloso dos protestos os seguidos atos de vandalismo promovidos pela desinformação, ignorância e até mesmo bandidagem criam uma segunda natureza da revolta, também nos revela com a coisa toda é complexa. Nada é simples e reto. Tem nuances a serem entendidas e este é um motivo a mais para ficarmos atentos e participarmos. (JMN)
Caro Mendonça
Antes de tudo, parabéns pelo artigo: bem escrito, claro, conciso e correto. Muitas de suas observações e preocupações são também as minhas. A maior questão, contudo, diz respeito ao ritmo das transformações, à dialética – e aqui não a uso como “força de expressão” mas como um efetivo movimento que nossas vidas pessoais e coletivas exercitam em todos os campos de ação da humanidade – pela qual tais transformações passam. O Brasil mudou nesse século XXI? Certamente e muito. Essas mudanças foram as que nós teríamos gostado que tivessem sido? Certamente não. Há, porém, alguns paradigmas que foram rompidos e alguns que – não vou aqui valorá-los – mantidos. Creio – gostemos ou não – que a Sociedade Brasileira em seu conjunto assumiu ser o Brasil um país de base econômica capitalista entenda-se isto como se queira entender. Creio, contudo, que a Sociedade Brasileira assumiu tal base econômica capitalista mas não no sentido e na direção que a visão neo liberal teria gostado que o Brasil seguisse.
As políticas sociais dos governos Lula e seguidas pela governo Dilma, foram, certamente, fundamentais para que as transformações sociais ocorridas no Brasil ocorressem de fato, No entanto, tais políticas não foram seguidas – pelo menos na velocidade que, talvez, pudessem ter sido realizadas – por políticas como a da Reforma do Estado, a da democratização das comunicações, a do desenvolvimento da cidadania, a de melhoria efetiva na qualidade dos serviços públicos, fossem estes de saúde, de educação, de segurança pública, de saneamento básico, de mobilidade urbana, assim como de serviços de infra estrutura de transportes e logísticas no campo da movimentação da carga, na distribuição de energia, nas telecomunicações, etc.
Em nome da governabilidade, de um lado, e de um Pacto Social claramente necessário mas, também, exageradamente “flexível” no que diz respeito aos interesses de uma minoria poderosa dentro e fora do País, cometeram-se equívocos e negligenciaram-se bases sociais históricas em particular os movimentos sociais organizados, historicamente articulados dentro do PT e de outros partidos do espectro político ideológico de centro esquerda.
Não pretendo, evidentemente, esgotar essas questões, até porque certamente não são questões “esgotáveis”. Mas sim tentar dar uma contribuição para que sigamos estas reflexões.
Grande abraço, do seu velho amigo, hoje velho mesmo,
Cesar A.Oller do Nascimento
Brasília, 27 de agosto de 2013
PS. Estou começando a pensar em propor uma articulação de um movimento amplo voltado para buscarmos eclodir “Ações de um Brasil Criativo” em diversos campos das políticas governamentais públicas, tais como as diversas Políticas Sociais que foram criadas e desenvolvidas nos governos Lula, seguidas no atual governo Dilma que, com o Programa Mais Médicos segue a mesma qualidade criativa, mas que podem – e devem – ser avançadas em outros aspectos das ações governamentais como, por exemplo, a implementação efetiva de sistemas de transporte hidroviário, seja para carga seja para passageiros, como Recife está estudando, o uso de Navios Hospitais, de transporte público urbano ou intermunicipal marítimo, de portos móveis, de um conjunto de soluções que estejam mais voltadas para garantir a qualidade da operação dos serviços públicos do que da construção de obras monumentais ou megalomaníacas, sempre na contra mão das necessidades da maioria mas aquém da ganância dos acumuladores.
Cesar Augusto Oller do Nascimento
27 de agosto de 2013 at 21:37
Caro Cesar,
Pertinente suas considerações. Da minha parte fico desconfortável em tentar encaixar as conjunturas em modelos quaisquer definidos anteriormente. Isso seria o mesmo que afirmar que nada de novo pode existir no horizonte, o que várias facetas do pensamento e da evolução da humanidade desmentem.
Nesse sentido diria que os governos Lula e agora Dilma tem semelhanças com a social democracia europeia e o bem estar americano. Semelhanças, não o figurino ajustado como que pelas mãos competentes de um alfaiate. Tem chances reais de nem ser isso ou ser outra coisa e o amigo até rascunha alguma coisa nessa direção.
Mas outro desconforto é que ainda não está claro, para mim, pelo menos, o quanto a sociedade já estaria fechada em copas com o tal do capitalismo, qualquer que seja esse, com bem lembrado por você. Rigorosamente penso que existe um entendimento difuso na direção contrária por parte da população, nunca traduzida se isso ou aquilo seria o embrião de um socialismo ou coisa que o valha. Digo isso porque cresce a compreensão, ainda difusa, é claro, de direitos públicos absoluto, embora ainda não realizáveis, sobre, por exemplo: educação, saúde, meio ambiente saudável, direitos outros diversos e mais recentemente ao transporte de forma gratuita, ou seja, sustentada pelo conjunto da sociedade. Esse é uma proposição naturalmente socialista ou, no mínimo, a contribuição do movimento socialista nas disputas pelo espólio com o liberalismo puro sangue.
No mais, concordância plena com relação aos pactos sociais estabelecidos, mais por uso e ocupação do que por decreto previamente minutado e no que chamo de congelamento e quase desvio de finalidade no acumulo de forças –conforme ensina Gramsci que você me apresentou em algum instante. Haveria muito que se fazer e construir a partir da posição desse acumulo, mas a queda do muro de Berlim, no sentido figurado, e a descrença nas possibilidades somaram pontos para isso.
O tal do horizonte socialista ainda está lá para ser conferido. Não se pode afirmar com toda a certeza sobre a sua concretização, mas a tendência é essa ou a barbárie, hoje, amanhã ou num futuro ainda não mensurável.
De imediato meu compadre, entendo que as emergências são mais concretas e menos ideológicas. Destacaria a inserção capitalista subalterna do Brasil, cuja gangorra da balança comercial aponta para tempos obscuros com a contenção do crescimento chinês e a retração de consumo de nossas commodities e a diminuição de entrada de capitais, mesmo que especulativos, como sinais de que não se pode continuar como está.
Como você vê, caro Cesar, na condição de aspirante a livre pensador vou arriscando, mas sempre aberto ao aprendizado contínuo.
Por agora, resta reconhecer, mais uma vez, que o amigo é uma das pessoas mais criativas e articuladas que conheço. Parabéns.
paginaleste
28 de agosto de 2013 at 13:04