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O esgoto da televisão

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Como já é público e notório é preciso muito cuidado com que sai dos programas de televisão, principalmente desses programas sensacionalistas e mais populares que tem a capacidade de chamar e prender a nossa atenção com esse nosso desvio de conduta meio mórbido.

Parece que as bobagens, a desgraça e as desavenças alheias nos chamam atenção e isso explica o sucesso dos programas, supostamente informativos, de crimes e os barracos de famílias e outras pérolas. A gente precisa se policiar pra não dar muito crédito e assistir somente esse tipo de coisa, apesar da tentação.

A irresponsabilidade com que algumas emissoras tratam o seu espectador é um abuso, principalmente quando se leva em conta uma estranha e inadequada classificação indicativa de que faixa etária pode assistir o que. Basta ver que é em horários, às vezes os mais nobres, entre o final da tarde avançando pela noite, quando as famílias em geral estão em casa, que passa os crimes com apresentadores histéricos e as nada inocentes novelas, cheia de sensualidade sutil e explícita e exemplos de como ser cafajeste pode ser charmoso.

Mas, com relação às novelas, por ser ficção, pode dar o desconto de seu viés cultural e artístico, o mesmo, entretanto, não pode ser dito dos programas que abordam crimes com ancoras simplistas e irados que nunca aprofundam os temas e debatem as razões dos problemas que eles próprios abordam. Fica, sempre, mais fácil, porém, falso, culpar os políticos.

O abuso mesmo nos programas são naqueles que envolvem abordagens de problemas entre as pessoas e famílias. Tudo o que se vê é passível de se desconfiar. Televisão, nesse caso, é espetáculo, busca a audiência para os patrocinadores e vale tudo. Até falsear geral.

Outro dia me chamou a atenção um determinado programa matinal, onde o apresentador exibia cenas deprimentes entre mãe e filha, num aparente e desrespeitoso conflito entre ambas, principalmente partindo da filha que fazia a mãe chorar com o desprezo dela que, entre outras pérolas, não queria a mãe presente ao seu casamento. Bem ensaidas, revelou-se, depois, a cena com o estímulo a baixaria do apresentador  que pegava a gente, meio de jeito, passando até vergonha alheia.

A surpresa, entretanto, não parou ai. Se a gente tinha a tendência a acreditar que o que estávamos vendo era sério, apesar de desagradável, a crença se esvaiu ao final da tarde. Relato. Nesse mesmo dia, ao final da tarde, uma vizinha me alertou para o fato de que a mesma dupla, mãe e filha, estavam em outro programa, de outra emissora, também em barraco forte, mas por causa de outro assunto. Fui conferir e não deu outra, Lá estava a dupla se aperfeiçoando no expediente de enganar espectadores sob os auspícios dos produtores desses tipos de programas e com a complacência dos donos das concessões das emissoras de televisão. Uma benesse de governo.

As aprendizes de atriz estavam, no mesmo em dia, em canais diferentes e, em ambas as situações, com a função de chocar os espectadores com a nossa confessa curiosidade com a lambança alheia.

Se alguém ainda tinha algum resquício de dúvida das ‘marmeladas’ dos programas de televisão, principalmente esses mais populares e assistiu as duas cenas no mesmo dia ela se foi.

Claro que chamo a atenção dos leitores nem tanto por se sentir lesada, enganada. Até porque é isso mesmo que acontece, na maioria das vezes, com os produtos da televisão, mas, principalmente, para refletir sobre quais devam ser os critérios de concessão das emissoras que é prerrogativa do governo federal. É sabido que, em geral, políticos carreiristas, assim que podem, tratam de ter um canal aberto para si e para os seus e o que acontece, principalmente, no norte e nordeste do país é prova disso. Precisam da TV para dar visibilidade as suas eventuais obras, mas, também, para esconder suas lambanças.

Não é o caso de se passar um pente mais fino nesses critérios? Não é o caso de promover a gestão e, principalmente, a discussão da programação, com um fórum mais amplo do que os magnatas da diretoria e dos patrocinadores?

O fato é que a televisão poderia, ao invés de falsear, promover a discórdia, revelar, e até mesmo, antecipar o erotismo entre as crianças, estar se prestando a tarefas mais nobres como educar, não com matérias de escola, mas de bons modos, cidadania, respeito ao próximo e as coisas públicas. (JMN)

Publicada na Gazeta São Mateus, ed 358 de Agosto de 2013

Written by Página Leste

12 de agosto de 2013 at 17:05