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Na rua, as pessoas dão depoimentos sobre a situação

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Após o encontro a reportagem ouviu algumas pessoas sobre os efeitos da situação. Um deles o Padre Luiz Fernando, do Jardim da Conquista registrou que as diversas comunidades na região suportam os efeitos da poluição sem qualquer contrapartida e que a despeito de alguns esforços é visível que o meio ambiente vem sendo agredido e sobre a necessidade de se manter a resistência contra esse tipo de situação. “O que se percebe é que não há planejamento adequado, mesmo em condomínios. Atualmente vemos ocupações diferentes das que antes eram organizadas por cadastros. Estamos vivendo uma situação de descaso”, dizia, enquanto uma obra de expansão de uma indústria no polo; uma instalação de dutos da Transepto ia revirando o solo e ia ter como consequência a retirada de poste de energia elétrica que ia deixar sem energia as casas do entorno.

Ezequiel Bonato, que mora há 13 anos no local entre os 19 que tem de bairro se diz indignado com as ‘surpresas’ que essas empresas pregam nas pessoas, se referindo ao caso dos dutos da Transpetro que estavam causando transtornos aos moradores, para além do que já sofrem com os efeitos deletérios da poluição gerada pelo Polo. Resignado, dizia sentir-se acuado até mesmo do ponto de vista jurídico, caso fosse levar a justiça esse assunto contra as empresas. “Infelizmente estamos chegando nesse ponto, com nossa qualidade de vida diminuindo cada vez mais com as empresas desse tipo degradando o solo sem recompô-lo e sem compensação. Só tira, só destrói por conta de um futuro, que dizem, vai melhorar para as pessoas. A gente só perde”, concluiu. “Se em alguma coisa ainda estamos podendo nos agarrar, é no apoio do mandato da vereadora Juliana Cardoso que tem lutado conosco para evitar maiores problemas e tentar manter alguma qualidade de vida neste local”, finalizou.

Já Adriano Diogo reforçou a tristeza com a devastação ambiental ao lado do Polo. “Esse é o Brasil com seu rio de nafta e a instalação desses dutos que visam aumentar a produção do polo e que vai cortando para todo o lado. Estamos em cima do Ministério Público atrás de estabelecer um Termo de Ajustamento de Conduta que mesmo que se não resolva por completo o problema, tente diminuir e remediar os impactos negativos das atividades das indústrias na região”.

Também no local, Juliana Cardoso considera que o embate com as indústrias é muito difícil em função dos recursos que elas têm em qualquer disputa. “A forma como estão fazendo as intervenções; a colocação dos dutos, sem diálogo com as comunidades é condenável. Eles vão remover postes, inclusive de áreas da prefeitura e sem contrapartida, sem compensação ambiental. Estamos enquanto mandato tentando fazer uma audiência pública com todas as partes para tentar o diálogo”. “Estamos doentes há 48 anos. É interessante para as empresas que não tenhamos informação. Precisamos de organização e conhecimento dessas informações”.  Como membro da comissão de saúde da Câmara Municipal de São Paulo, a vereadora tentará marcar uma audiência para poder dialogar sobre essa situação. (JMN)

 

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18 de setembro de 2018 at 21:00

Pesquisadora fala sobre doenças causadas pela poluição do polo

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A professora de endocrinologia da Faculdade de Medicina do ABC, Dra. Maria Ângela Zaccarelli Marino esteve na região de São Mateus nos dia 23 de agosto e 05 de setembro onde deu explicações sobre o grave problema de saúde pública que vem afetando o distrito de São Mateus e parte das cidades de Santo André e Mauá. A iniciativa de sua vinda ao local com grande de público, agentes de saúde e autoridades foi do candidato a deputado estadual Adriano Diogo (PT).

Doutora Maria Ângela possui doutorado e mestrado em Endocrinologia pela Universidade de São Paulo. Atualmente é professora da Faculdade de Medicina da Fundação ABC, médica neuroendocrinologista – Real e Benemérita Sociedade de Beneficência Portuguesa e endocrinologista e neuroendocrinologista do Instituto Neurológico de São Paulo. Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Endocrinologia e demonstrou profundos conhecimentos sobre o assunto.

Pesquisando desde 1988 os casos de tireoide na região, descobriu que havia grande incidência da Tireoidite de Hashimoto, doença incurável, que se não tratada pode levar ao coma e à morte. Em crianças, pode gerar retardo mental e problemas de crescimento, ou seja, um grave problema de saúde pública causada, segundo estudos feitos por pesquisadores tendo a médica entre eles, pela poluição oriunda da produção das indústrias do Polo.

Fiquemos com um resumo da fala da médica pesquisadora durante o encontro. “Sou médica e agradeço o convite feito pelo Adriano Diogo para falar com vocês e explicar um pouco sobre o nosso trabalho nesses 28 anos em que estamos na região. Nossa função é cuidar de todos e por vezes esse cuidar tem muito  a ver com cuidar também do meio ambiente, como tentarei demonstrar”, iniciou a Dra. Ângela.

Quando iniciamos nosso trabalho aqui na região lá trás, encontramos uma doença que na ocasião nem era muito conhecida, a tireoidite crônica autoimune, que podemos simplificar para uma inflamação. A função da tireoide é produzir uma glândula essencial e a sua inflamação que é quando deixa de produzir não há possibilidade de remissão.

O que acontece com a doença é uma agressão ao nosso organismo que não consegue se defender. Ele até se defende, mas não de forma satisfatória, de maneira errada e faz mal para ele mesmo. Essa é uma definição mais simples do que significa autoimune.

Lá trás quando estudava endocrinologia dizia-se que essa doença era rara em crianças e adolescente e também em homens. Era mais comum em mulheres, mas na região, eu no exercício da medicina, estava diagnosticando a doença exatamente onde seria mais raro o que me levou a pesquisar e estudar por anos o assunto quando já sabíamos que a tireoidite crônica autoimune, não tem tratamento, e não tem como removê-la do corpo. Além de ser agressiva ela pode causar outra doença, o hipotireoidismo.

A tireoide para de funcionar, não dá para prevenir e pode acarretar o hipotireoidismo primário quando para de secretar os hormônios.

Faz 28 anos que estou na região pesquisando e estudei a história da região, como foi sua ocupação e as consequências da interferência no meio ambiente que é um ponto muito importante. Percebi que a maioria dos casos detectados vinha das mesmas regiões onde, entre 1956 e 1989, a instalação das indústrias no país foi intensificada o que me levou como, a outros pesquisadores, a estudar o meio ambiente. ‘O “progresso tem que vir, mas tem que vir sem prejuízo do meio onde vivemos”. Estudamos o que produziam as indústrias, estudamos a respeito do petróleo e das indústrias químicas e os efeitos da poluição na região.

 Vale registrar que a implantação dessas atividades na região não foi planejada de modo a manterem-se distantes das ocupações com moradias. Podemos dizer o mesmo da ocupação irregular para uso como moradia; sem planejamento.

 Durante todo esse período de estudos é natural que se saiba cada vez mais que a emissão de organoclorados, através da fumaça e fuligem das chaminés das indústrias do polo, levadas pelas correntes de ar vão se depositando por toda parte mais próxima, e são esses organoclorados o causador da doença. São milhares de organoclorados diferentes como resultado da produção, entre estes, muitos causadores de diversos tipos de doenças, entre estas, a que estamos abordando.

A percepção da agressão ao meio ambiente é antiga – Embora se saiba que toda ação antrópica, ou seja, do homem sobre o meio, o transforma e pode gerar resultados em desarmonia com o meio ambiente. O livro “A Primavera Silenciosa”, da escritora americana Raquel Carson pode ser considerado o primeiro trabalho sistemático sobre a agressão ao meio ambiente feito pelos homens e seus modos de produção.

Como curiosidade esse livro tem importante papel no movimento hippie e da contracultura americana que foi se espalhando por diversos países. Também a partir dele formatou-se uma consciência ambiental que tem feito, desde então, diversos esforços, encontros e protocolos para tentar cuidar melhor do meio ambiente em escala mundial.

 Uma entre outras metodologias de pesquisa foi feita com a coleta de casca de árvores na região e onde detectamos a presença de materiais pesados, chumbo, enxofre e outros, por exemplo, em concentração acima do suportável quando já sabíamos que essa concentração envolve casos de hipotireoidismo. Estudamos as árvores que tem uma complexidade compatível com a necessidade do estudo e era uma forma até mais barata de estudar. Nesse ponto e outros, temos que agradecer o auxilio precioso de outros pesquisadores, alunos e moradores que foram nos ajudando.

Alguns dos elementos encontrados nesse estudo são mutagênicos, ou seja, tóxicos para o meio ambiente e poderiam causar a multiplicação da célula errada que gera o câncer. Todos esses trabalhos foram comprovados e publicados. Atualmente tem vários trabalhos publicados sobre poluição no Polo Petroquímico de Capuava.

Finalizando a exposição que foi muito mais rica do que conseguimos reproduzir a Dra. Ângela chamou a atenção para a importância imensa que tem os cuidados com o meio ambiente, o estudo dele, a melhoria nos modos de produção de forma sustentável, na mudança de costumes desde as pessoas até as atividades para que haja sustentabilidade planetária e seja possível continuar se produzir sem prejuízo da saúde pessoal e ambiental. Resumo: é preciso reforçar a consciência ambiental em todas as pessoas e setores.

Ouvintes perguntam e a pesquisadora responde

Assim que concluiu sua exposição, Adriano Diogo coordenou alguns instantes de perguntas, sugestões e dúvidas entre os presentes.  A vereadora e atualmente candidata a Câmara Federal pelo PT, Juliana Cardoso que há tempos desenvolve trabalho entre as comunidades, também a esse respeito, lembrou que as empresas envolvidas têm recursos impressionantes e nunca oferecem contrapartidas aos efeitos nocivos de suas atividades. Destacou que as comunidades e regiões envolvidas apresentam muitas carências, inclusive na área da saúde mesmo, por motivos diversos, e que essa situação é injusta e precisa ser alterada.

Dra. Ângela lembrou que existem alguns esforços de promotores de Justiça com inquéritos públicos civis ainda andamento e que se aguarda o desdobramento disso. Sabe que entre as medidas e solicitações nos inquéritos, está a possibilidade de estabelecer que se obtenham recursos para ajudar as populações afetadas.

Outra pergunta era sobre se a médica tinha outras sugestões para melhorar a situação, além dos protocolos já em uso. Doutora Ângela indicou que existe uma sobrecarga de atendimento de pessoas que precisam ser examinadas e que os exames que precisam ser feitos não são corriqueiros e são caros. Outra orientação é para que os profissionais de saúde da região peçam os exames corretos para se antecipar os tratamentos.

A nossa ideia é pensar formas de prevenção, de cuidar para que não tenham a doença e isso, insisto, seria cuidando do ambiente, porém não temos meios sozinhos de modificar a situação. Aguardemos o desdobramento do que está no MP.

Existem outras formas de produzir, se viáveis ou não, são muitos fatores que as indústrias consideram, mas existe a química orgânica, mais complexa. Existem ainda estudos de profissionais da química sugerindo mudanças que podem ser feitas mudança; existem também possibilidades de colocar filtros específicos nas chaminés e etc. Ou seja, precisamos cuidar do meio ambiente e ter como foco principal evitar a doença. (JMN)

 

Written by Página Leste

18 de setembro de 2018 at 20:59

Doenças atingem vizinhos do Polo Petroquímico

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maxresdefaultOs efeitos da poluição proveniente da operação das indústrias do Polo Petroquímico de Capuava, na Região Metropolitana de São Paulo já vêm fazendo vitimas silenciosas ao longo de mais de 50 anos entre os moradores de Capuava, em Santo André, Silvia Maria e Sônia Maria, em Mauá e na capital no distrito do Parque São Rafael, em São Mateus.

Após anos de estudos, principalmente da médica endocrinologista e professora Maria Ângela Zaccarelli Marino, da Faculdade de Medicina do ABC, ficou comprovado a ocorrência de enfermidades diversas, com destaque pra a tireoidite de Hashimoto que é uma disfunção da glândula tireoide que para de funcionar oferecendo as pessoas acometidas sintomas que são sentidos pelo resto de suas vidas, mesmo depois de detectado a doença e com medicações diárias. Entre os mais corriqueiros a depressão, o cansaço, a queda do cabelo, doenças respiratórias e alteração de peso.

O alerta sobre a ocorrência foi em junho de 2002 após 12 anos de levantamentos, pesquisas e estudos feitos por profissionais distintos e a médica endocrinologista Maria Ângela Zaccarelli-Marino.

Conforme ela conta diretamente no encontro que teve com as comunidades na região de São Mateus (veja reportagem nesta edição) o aparecimento de casos atípicos de tireoidite crônica autoimune no consultório dela em Santo André, fez a especialista desconfiar que a incidência da doença era mais alta na região próxima ao Polo Petroquímico de Capuava. Depois de dezenas de anos investigando o tema, a professora  concluiu que moradores da área tinham incidência cinco vezes maior da doença.

A origem de todo esse transtorno provou-se estar ligado à fumaça que sai continuamente das chaminés das 14 empresas do polo. Um dos principais levantamentos feitos pela médica, ainda entre 2003 e 2005, quando também se baseou em pesquisas anteriores, reafirmou o aumento da incidência de doenças ligadas à tireoide. A médica realizou exames em moradores das áreas apontadas na região metropolitana confirmando o que já se sabia.

 

Tempos atrás porta voz das indústrias se manifestou

A então Associação das Indústrias do Polo Petroquímico do Grande ABC – Apolo disse certa época que os exames realizados até então não eram conclusivos e que não havia elementos suficientes para ligar as doenças dos moradores à poluição emitida pelas indústrias e acrescentava que nenhuma indústria produz sem criar resíduo o que é um fato.

Os estudos seguiram e há, conforme expõe o resultado dos estudos feitos pela endocrinologista, elementos comprobatórios de que a poluição é sim responsável pela ocorrência das doenças.

Em mais de uma ocasião o Ministério Público e a própria Secretaria de Estado da Saúde foram chamados a avaliar a situação sem uma posição final sobre o assunto, entretanto em função da inalterada situação e maior e melhores elementos comprobatórios da poluição, o MP está novamente com o assunto para avaliar, se posicionar e eventualmente estabelecer um Termo de Ajustamento de Conduta se é que será capaz disso. (JMN)

Written by Página Leste

18 de setembro de 2018 at 20:56