As memórias de Maria




As memórias e histórias de Lúcia Maria Pimentel, carioca e militante na luta contra a ditadura desde após o golpe de 1964 pode ser vista em avant premier pública na Cinemateca Brasileira, na noite do dia 20 de novembro com o auditório lotado com gente de todo canto, equipe de produção, amigos e vizinhos da personagem, alguns famosos e muitos, mas muitos clandestinos mesmo aos moldes do que foi grande parte de sua trajetória no combate a ditadura militar.
Esbanjando energia nos atuais 76 anos aos moldes do que foi sua juventude e vida adulta, Lúcia, então com o codinome Maria foi presa ainda jovem, em 1969, num certo 1º de maio onde estava previsto apenas uma ação de denúncia e panfletagem que, conforme explicado no documentário teve tiroteio e detenção como consequência.
Exilada na Argélia, foi beneficiada por uma conjuntura governamental progressista e convivência com o então político brasileiro Miguel Arraes, de expressão mundial. Posteriormente viveu e casou-se na Suíça onde desenvolveu e aperfeiçoou a importante e delicada tarefa da forjar documentos que permitissem a locomoção de refugiados brasileiros perseguidos pelo regime.
Nesse período desenvolveu cada vez mais suas principais habilidades dando primeiros passos na publicação de panfletos, jornais ou revistas no campo da esquerda, algumas de natureza de reflexão política e outras de ativismo militante.
Nesse período um dos periódicos circulava entre os exilados na Europa e outra parte entrava clandestinamente no Brasil pela rede de apoio que é muito bem explicada no documentário.
Decidida a voltar ao Brasil na semiclandestinidade empregou-se em importante gráfica na cidade de São Paulo e em sua própria casa dava guarida e espaço organizativo para os remanescentes da Dissidência Guanabara já, então como Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), organização de esquerda que, lembremos, junto Ação Libertadora Nacional (ALN) sequestrou em setembro de 1969, o embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick para exigir, em troca, a soltura de 15 militantes de esquerda nas mãos do regime, que forma enviados ao México.
Já de volta ao Brasil, em 1976, em episódio em que ficava exposto certos preconceitos e machismos contra as mulheres, no sindicato dos gráficos do estado de São Paulo, Roque Barbieri, presente no documentário e no lançamento na cinemateca, toma o microfone na assembleia para denunciar e criticar a hostilidade de que era vítima a então militante na porta da entidade, conseguindo superar o incidente que modifica todo o panorama posterior. Já no sindicato Maria comandou uma das maiores greves da categoria em 1978.
É depois disso que Maria arrebenta os grilhões do preconceito e tem presença cada vez mais qualificada e decisiva na direção política do sindicato, sendo eleita em 1980 como diretora da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Gráficas do Estado de São Paulo. Participou da comissão organizadora da 1ª Conferência Nacional da Classe Trabalhadora – Conclat; depois da fundação da CGT e posteriormente entre outras tantas atividades passou a integrar as delegações brasileiras nas Conferências da Organização Internacional do Trabalho (OIT), enquanto ainda se faz presente na diretoria executiva da Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).
Ousar Viver! Histórias de Maria
É um longa metragem em formato documentário, com muitas outras informações que evitamos dar spoiler, dirigido por Silvio Tendler, com produção do Instituto Angelim com extensa lista de apoiadores diretos e indiretos. O objetivo de apresentar e difundir para as novas gerações as memórias e histórias da Maria, militante pela democracia desde o período da ditadura miliar no Brasil até os dias atuais com presença marcante e decisiva no papel das mulheres na área sindical e movimento de mulheres. Recupera parte da história das lutas democráticas dessas mulheres, jogando um olhar sobre o presente nas persistentes lutas por igualdade de direitos.
O filme completo pode ser visto a partir de agora pelo canal de you tube do Instituto Angelim. (JMN)
Legendas: Na primeira foto Zé Neto editor da LacrE,, Maria e Roque Barbieri; na segunda Professor Valter Almeida, Zé Neto, Maria, Roque com filha Édria e esposa Dirce, na terceira Maria e Roque, personagens do documentário e a quarta Fátima Shinohara, Zé Neto, Maria, Roque Barbieri e sua filha Édría, a esposa Dirce e uma convidada
“Nós cultuamostodas as doçuras”: as religiões de matriz africana e a tradição doceira dePelotas
As tradições de matriz africana cultuadas em Pelotas são intrínsecas à história da cidade, seus costumes e vivências cotidianas. Essas vivências, marcadas pela oralidade, são repassadas de geração a geração, dentro dos terreiros e das casas de umbanda. O doce no batuque pelotense tem um significado ainda mais forte do que em outros contextos, isso se dá porque os braços e mãos negros que proporcionaram a consolidação deste munícipio como a capital do doce são marcados pela vivência do axé. Não são mais nos grandes casarões que se servem uma grande quantidade de quindins. É no terreiro.
Nas periferias de Pelotas, nas ruelas dos bairros em que estão situadas as casas de santo, permanece viva a tradição doceira no dia a dia. A economia gerada nas cooperativas de doces é imbricada na vivência de mulheres, na sua maioria negras, que celebram a fertilidade, a doçura, o sagrado através da produção dos doces que serão ofertados às divindades relacionadas a estes arquétipos. O trabalho desenvolvido pela pesquisadora Marília Floôr Kosby é uma narrativa que há muito precisava ser passada às palavras escritas.
O texto convida a repensar Pelotas, um reencontro dos descendentes daqueles que proporcionaram a pujança econômica vivenciada no período charquedor com os seus ancestrais. Mais do que isso, é a possibilidade de desmistificar um ideário europeizado da “princesa do sul”. Que é doce, mas ao mesmo tempo também carrega na sua história a amargura daqueles que por muito tempo tiveram sua voz silenciada. Assim como o tambor, o doce exerce a possibilidade de comunicação com a massa mítica ancestral. Cozinhar no terreiro é dar significado aos pressupostos civilizatórios de matriz africana, ter doçura no quarto de santo é um diálogo com a orixalidade e, frequentemente, é também a maneira de anestesiar as dores das mazelas que o racismo ainda produz em nós, vivenciadores do axé. Diz um provérbio antigo, do povo ioruba, que chuva fina mas constante faz o rio transbordar. Esse livro é uma chuva fina e constante, assim como é constante a resistência do povo negro pelotense, certamente transbordará o rio de sangue que ainda precisa vir à tona para (re) contar a história de Pelotas.
Que transborde em doçura, daquelas que confundem o paladar.
Winnie de Campos Bueno
Yalorixá do Ilé Ayie Orisha Yemanjá
Graduanda em Direito pela Universidade
Federal de Pelotas
Nº de pág.: 116
ISBN: 978-65-5917-174-3
DOI: 10.22350/9786559171743
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O Mais Belo Suicídio

Evelyn Francis McHale (20 de setembro de 1923 – 1 de maio de 1947) foi uma escriturária americana que cometeu suicídio pulando da plataforma de observação do 86º andar do Empire State Building.
Em 1º de maio de 1947, uma jovem e bela mulher deu um salto do 86º andar do Empire State Building e pousou em uma limusine das Nações Unidas estacionada na rua abaixo. O metal do carro dobrou como lençóis e emoldurou sua cabeça e braços. Tudo sobre a elegância de sua pose – desde a mão enluvada segurando o colar de pérolas até os tornozelos delicadamente cruzados sugere por que sua morte foi considerada “O Mais Belo Suicídio”.
A República das Milícias
O que fazia o policial Fabrício Queiroz antes de se tornar conhecido em todo o país como aliado de primeira hora da família Bolsonaro? E o líder miliciano Adriano da Nóbrega, matador profissional condecorado por Flávio Bolsonaro e morto pela polícia em 2019? E o ex-sargento Ronnie Lessa, apontado como autor dos disparos que mataram a vereadora Marielle Franco e morador do mesmo condomínio do presidente da República na Barra da Tijuca? Os três foram protagonistas de uma forma violenta de gestão de território que tomou corpo nos últimos vinte anos e ganha neste livro um retrato por inteiro: as milícias. Eles são apresentados ao lado de policiais, traficantes, bicheiros, matadores, justiceiros, torturadores, deputados, vereadores, ativistas, militares, líderes comunitários, jornalistas e sobretudo vítimas de uma cena criminal tão revoltante quanto complexa.
O livro se constrói a partir de depoimentos de protagonistas dessa batalha. São entrevistas que chocam pela franqueza e riqueza de detalhes, em que assassinatos se sucedem e as ligações entre policiais, o tráfico, o jogo do bicho e o poder público se mostram de forma inequívoca. Num cenário em que o Estado é ausente e as carências se multiplicam, a violência se propaga de forma endêmica, mas deixa no ar a questão: qual a alternativa?
A resposta está longe de ser simples. Sobretudo num país de urbanização descontrolada e cultura política permeável ao autoritarismo. Dos esquadrões da morte formados nos anos 1960 ao domínio do tráfico nos anos 1980 e 1990, dos porões da ditadura militar às máfias de caça-níquel, da ascensão do modelo de negócios miliciano ao assassinato de Marielle Franco, este livro joga luz sobre uma face sombria da experiência nacional que passou ao centro do palco com a eleição de Jair Bolsonaro à presidência em 2018.
Mistura rara de reportagem de altíssima voltagem com olhar analítico e historiográfico, A república das milícias expõe de forma corajosa e pioneira uma ferida profundamente enraizada na sociedade brasileira.
A História do Século 20 Para Quem Tem Pressa
Livro: A História do Século 20 Para Quem Tem Pressa – Nicola Chalton e Meredith Macardle
Publicado na zine LacrE número 0
A História do Século 20 para Quem Tem Pressa é um guia acessível para 100 anos de história moderna. Enormes avanços na ciência e na tecnologia — estimulados por exigências do comércio internacional e conflitos armados sem precedentes — resultaram no surgimento de aviões, automóveis e antibióticos que salvam vidas. Desde a queda do Império Britânico até a era nuclear, desde os avanços pioneiros nos direitos civis até a internet, o ritmo e o alcance do progresso e das mudanças foram extraordinários.
Nicola Chalton e Meredith MacArdle relatam os impressionantes eventos de um século diferente de todos, identificando as figuras-chave e os momentos decisivos desse notável período da história. Em ordem cronológica, informações básicas sobre duas guerras mundiais, a criação das vacinas, a conquista da Lua, o fenômeno da globalização, a revolução digital, o perigo do aquecimento global… e muito mais em linguagem de fácil entendimento e com mapas ilustrativos para o leitor que deseja conhecer melhor o mundo em que vivemos.
Águas do norte
Águas do norte, Ian McGuire
Uma prosa precisa e ágil sobre a violência humana em suas várias formas

O livro – Patrick Sumner, um médico do exército inglês que viveu os horrores da Guerra dos Sipaios, na Índia, retorna para casa. Traumatizado e sem perspectivas, decide se alistar na tripulação de um navio baleeiro que está zarpando para o Ártico. Seu objetivo é reler Homero e desenhar rascunhos da vida marinha enquanto receita laxantes aos marujos. Mas a bordo do Volunteer também viaja Henry Drax, um arpoador vil e sanguinário com quem Sumner logo entra em rota de colisão. Nas ÁGUAS DO NORTE, à medida que a bestialidade humana e a força esmagadora da natureza ditam as reviravoltas de uma jornada horripilante, Sumner precisará fazer o impensável para sobreviver.
Por que publicamos
Inscrevendo-se numa tradição narrativa que vai do MOBY DICK de Melville ao MERIDIANO DE SANGUE de Cormac McCarthy, ÁGUAS DO NORTE oferece uma visão inesquecível da amoralidade absoluta que reside na natureza e no coração de certos homens.
O autor – Ian McGuire nasceu em Hull, na Inglaterra, em 1964. Ensina escrita criativa na Universidade de Manchester, onde foi um dos fundadores do Centro de Novos Autores. É crítico literário e seus contos apareceram em publicações como Chicago Review e The Paris Review. ÁGUAS DO NORTE é seu segundo romance.
TRECHO DO LIVRO
Eis o homem. Sai aos tropeços do pátio do Clappison’s, chega à Sykes Street e fareja o ar complexo — terebintina, farinha de peixe, mostarda, grafite, o fedor costumeiro e penetrante do mijo matinal que acabam de derramar dos potes. Bufa, esfrega os cabelos desgrenhados e ajeita a virilha. Cheira os dedos e depois os chupa um por um, extraindo os resquícios, tirando um último proveito do dinheiro gasto. No final da Charterhouse Lane, vira na Wincolmlee no sentido norte e passa pela Taverna De La Pole, pela fábrica de velas de espermacete e pela processadora de oleaginosas. Enxerga os mastros grandes e de mezena que balançam acima (…)
GÊNERO Ficção estrangeira
TRADUÇÃO Daniel Galera
CAPA Laurindo Feliciano
FORMATO 13,5 × 20,8 × 1,9 cm PÁGINAS 304 PESO 0,390 kg
ISBN 978-65-5692-115-0
ANO DE LANÇAMENTO 2021 R$ 74,90 em e-book R$ 55,90
O Brasil da nova era ou já era
O ano que vai se iniciar vem com um aspecto de renovação nem sempre vista quando um ano termina para a passagem do próximo. Não é que muda o clima, troca-se a noite pelo dia, anumeração do calendário é em outro tipo de numeração ou idioma ou que o sol e alua venham fatiados de tempos em tempos, não nenhuma transformação gigantesca dessas. É algo mais simples, mas surpreendente; refiro-me ao início do governo do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL/RJ).
A gente tem que ter um consenso mínimo e uma leitura meio que parecida do que era o antes e o depois da eleição em se tratando de nomes. E se assim é temos que lembrar que Jair Bolsonaro enquanto parlamentar e candidato era um personagem mais para exótico do que para político centrado, articulado, capaz. Para ele se transformar disso a presidente do Brasil algumas coisas aconteceram em paralelo, principalmente o rescaldo das manifestações em 2013 que não eram organizadas pela direita ou pela esquerda, mas que foi mais bem aproveitada pela direita que desde a eleição em 2014 da presidente Dilma Rousseff (PT) estava no limite de sua tolerância para com a senzala e queria retomar o governo central para as mãos dos patrimonialistas.
A sociedade brasileira estava farta de tantos escândalos e injustiça por um lado e penúria por outro que resolver reagir, só que o fez sem método, sem objetivo e sem conhecimento profundo das nuances da situação que estávamos vivendo.
Regada diariamente com as manchetes sensacionalistas tanto quanto superficiais e seletivas da mídia que só vê os crimes nos que não são da elite ou da casa grande em conluio com um judiciário suspeito de parcialidade deu no que deu; as pessoas começaram a ter criminosos de estimação, pediam a cabeça de alguns, mas não a de outros que haviam praticado idênticos ou piores crimes.
Se não é isso, apenas para ficarmos num ponto, porque acusaram tantos os filhos do ex-presidente Lula de malfeitos (que agora já foram inocentados), quando agora ainda antes da posso fortes indícios apontam para malfeitos dos filhos do Bolsonaro? Se em outros episódios, o juiz Sergio Moro indicado para ser o novo ministro da Justiça no próximo governo, chegou a suspender férias para influenciar em decisões pontuais de colega no caso de habeas corpus de Lula no ano passado, e que reiteradamente dizia que caixa dois era crime, porque aceita apenas desculpas de crime de caixa 2 de seus colega de ministério, o deputado Ônix Lorenzoni que assumiu ter cometido o crime, mas que se desculpou e que vai acertar conta com Deus e portanto está fora dos autos ou de qualquer cumprimento de pena?
Não tem “mais, nem menos’”.Está ficando claro que o ano de 2019 inicia um período e um novo governo já meio corroído em pés de barro do ponto de vista da regularidade ou da firmeza de propósito, da transparência e do compromisso com as coisas limpas. Isso é fato. O governo que deveria iniciar-se imaculado, limpo e probo já vai começar o expediente manchado de pequenas suspeitas aqui e ali.
Quanto aos acertos dos rumos da política e da economia; das formas de o governo se comportar e operar no seio da sociedade; não vamos expressar nenhum tipo de julgamento antecipado.Temos nossas desconfianças e nossas confianças em aspectos destes e os fatos e as consequências da gestão que se iniciará será objeto de apreciação no seu devido tempo.
Voltando ao ponto de partida teremos pela frente um período diferente, misterioso e incerto exatamente porque o candidato eleito era um azarão como poucas vezes vista na história nacional e porque têm ao redor de si pessoas com posturas polêmicas, diversos auxiliares com pecha de corruptos e explicações insuficientes para casos suspeitos dentro de seu próprio clã.
Ou seja, se todos os presidentes que assumiram antes eram limpinhos e cheirosos não temos certeza,mas pareciam. Este, o senhor Jair Bolsonaro, por sua vez já não usufrui do mesmo crédito, portanto o Brasil da nova era poderá ser mais o Brasil já era.Tomara que não! (JMN)







































































