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Discriminação nas escolas e nos livros prejudica desempenho de alunos negros
Humberto Borges, 18 anos, aluno do curso de Letras da Universidade de Brasília (UnB) defende que o sistema de cotas para negros estimula o diálogo sobre a questão racial
Ao comparar a trajetória escolar de negros e brancos, as disparidades não se concentram apenas no aceso à universidade, mas em todas as etapas do ensino.
Os negros são maioria no contingente de analfabetos do país – somando 9 milhões do total de 14 milhões – e estão mais atrasados nos estudos do que o restante da população.
Para o coordenador do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da Universidade de Brasília (UnB), Nelson Inocêncio, a diferença no rendimento reflete uma escola e um sistema de ensino que não acolhe a população negra.
“A escola diz que o grupo do outro [dos brancos] é a grande referência para a humanidade. Foi o grupo do outro que construiu, ele representa a civilização. E o meu grupo [negros] não representa nada. Isso é colocado de forma persistente nos livros, nas lições, e o aluno vai obter reações muito negativas em relação ao processo. Ele se pergunta: na medida em que a escola não me reconhece, que sentido faz eu estar na escola?”, aponta.
Em 2007, cerca de 85,2% dos brancos na faixa de 15 a 17 anos de idade, estavam estudando, sendo que 58,7% freqüentavam o nível médio, adequado a esse grupo etário. Já entre os pretos e pardos dessa faixa etária, 79,8% freqüentavam a escola, mas apenas 39,4% estavam na série correta.
A mesma conclusão está no Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Coordenado pelo professor Marcelo Paixão, o estudo compara, entre outros pontos, o desempenho de estudantes brancos e negros no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Em 2003, as notas em matemática e português dos alunos brancos eram, em média, 7,5% maiores do que a dos pretos e pardos.
“Isso sugere que para as crianças e adolescente pretos e pardos incidem obstáculos adicionais ao desenvolvimento dos estudos, representados pela discriminação racial presente nos espaços escolares”, diz a pesquisa. Segundo o pesquisador, esse preconceito se manifesta de diferentes formas, desde atitude discriminatórias dos professores e colegas até livros didáticos que reforçam a invisibilidade dos negros, passando pelo conteúdo "antropocêntrico e pouco receptivo à perspectiva da diversidade".
Luiana Maia, de 19 anos, aluna do curso de História da Universidade de Brasília (UnB) admitida pelo sistema de cotas, diz que o tratamento dos professores aos alunos negros é diferente daquele dispensado aos brancos. “Ele já tem aquela concepção, ainda que inconsciente, do que é o negro. O cabelo da menina negra, por exemplo, é visto de forma diferente quando ela chega na escola com ele solto, mais arrepiado. A professora já pede para prender, fala para ter cuidado com piolho. Com a menina branca não é assim”, lembra.
Para ela, o material didático também não é adequado. “Os alunos negros não se sentem representados pelos próprios livros que usam. Ele se vê apenas no tronco, no açoite. O aluno só se vê na posição inferior, chega em casa abatido, aquilo impacta no desempenho”, compara.
Humberto Borges, 18 anos, aluno do curso de Letras que também ingressou na UnB pelo regime de cotas, conta que quando era adolescente sempre representava o Lobo Mau na peça de fim de ano da escola.
“Até que no último ano entrou um outro aluno negro na minha turma e quando a gente foi montar a peça o professor questionou: e agora, quem vai ser o Lobo Mau? O Humberto ou o fulano? Só então que eu fui perceber a sutileza”, conta.
Para o secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação, André Lázaro, a escola pública reproduz formas de exclusão que afetam diretamente a auto-estima do estudante e seu desempenho.
“O desafio da escola hoje é formar todos, seja qual for a condição de chegada. A escola pública hoje, ainda que de maneira inconsciente ou mecânica, produz formas de exclusão muito dolorosas. Para aprender você tem que confiar que você consegue aprender”, analisa.
Os malditos powerpoints que recebemos
Como costumam dizer os vendedores de balas ao adentrar os ônibus daqui do Rio, ‘desculpe interromper sua viagem’, mas o assunto hoje é rasteiro de dar dó.
Da mesma forma que o discurso dos vendedores de balas faz escorrer pelo ralo a paciência dos passageiros, as apresentações em PowerPoint que nossos amigos cismam em enviar por e-mail já concorrem à eleição de mal virtual da década. Haja saco.
Normalmente, são lindas paisagens acopladas a frases de efeito, que vão do Dalai Lama a Paulo Coelho, do best-seller ‘O Segredo’ a quem mais você puder imaginar. Ah, sim, e normalmente há música como acompanhamento! Quando é música clássica, eu sempre agradeço ao bom Deus; pelo menos nossos ouvidos são poupados.
Qual o problema em receber estes arquivos? Vários. Eles são terrivelmente constantes – diários, até – e extremamente pesados, chegando a vários megas que travam nossos computadores. E, por vezes (muitas, para ser sincero), você não entende o porquê de ser um ‘escolhido’. O que acontece, é claro, até o momento em que você percebe que os malditos PowerPoints são enviados a atacado, ou seja, simultaneamente para um mar de e-mails.
Há má intenção em quem os envia? Não, não é por aí. É gente de bem, sem dúvida; nossos amigos, ué! Por isso mesmo, imbuído de uma intenção muito além do ‘zen’, vou aqui em busca da Razão pela Qual Recebemos PowerPoints. Será que minha busca geraria uma… bem… apresentação em ppt?
MOTIVO 1 – ELES QUEREM MUDAR O MUNDO
Como abelhinhas polinizando o jardim, nossos amigos multiplicam a mensagem do Bem distribuindo PowerPoints. É uma versão online das velhinhas que, perto da minha casa, distribuem entre 6h e 7h da manhã o jornalzinho da igreja da qual fazem parte, e das quais eu e meu filho desviamos como ninjas quando o levo ao colégio. A diferença é que ainda não inventaram defesa pessoal para e-mails.
MOTIVO 2 – ELES TÊM UM RECADO PARA VOCÊ
Assim como os círculos de pedra de Stonehenge e a os estranhos desenhos feitos nas plantações de trigo do Reino Unido, os amigos que nos enviam PowerPoints querem dizer alguma coisa. É provável que eles estejam achando que estamos tristes ou distantes. Ou acham que ainda não somos pessoas de elevação espiritual compatível com nosso próprio potencial, e vão nos mostrar o caminho – e dá-lhe telas com pôr-do-sol e mensagens new age. Neste caso, contra-ataque a presunção de seu amigo com um daqueles vídeos escatológicos e engraçadíssimos que circulam pela Rede. Em nome da alegria, vale tudo, não é, Gafanhoto?
MOTIVO 3 – ELES NÃO ACHAM NADA DE MAIS
Credo, como você é exagerado. É apenas um arquivo de PowerPoint bonitinho que seu amigo repassou. Não há como entender tanto stress… Você lembra muito o vizinho de baixo do seu amigo, que anda reclamando da obra que seu ‘brother’ está fazendo há meses na cozinha de casa e que só é feita aos sábados… Nossa, como as pessoas andam nervosas, não é? Talvez aquela apresentação em PowerPoint novinha em folha – e com ‘apenas’ 2 mega – que ele acabou de descobrir dê jeito em você…
MOTIVO 4 – ELES SÃO SEUS PAIS
Se seus pais têm mais de 60 anos, aí você esquece cada linha do que eu escrevi e passa a achar tudo lindo. Afinal, no sentido sociológico da coisa, eles não sabem o que estão fazendo. Não dá para cobrar muito de uma geração que cresceu sem computador, quanto mais internet. Eles terem aprendido a lidar com o mundo online já foi um progresso e tanto, vamos admitir. No fundo, eles nos mandam PowerPoints como enviam cartões-postais das viagens ao Nordeste. Ou seja, desista de sua luta de vez e abrace o lado ‘fofo’ da vida.
E você, coleciona PowerPoints ‘bacanas’? Sente vontade de fazer bonequinhos voodoo de seus amigos que distribuem os famigerados arquivos? Ou usa camisetas com os dizeres ‘Eu envio PowerPoints, sim, e daí?’?
Bruno Rodrigues é autor do primeiro livro em português e terceiro no mundo sobre conteúdo online, "Webwriting – Pensando o texto para mídia digital", e de sua continuação, "Webwriting – Redação e Informação para a web". Ministra treinamentos em Webwriting e Arquitetura da Informação no Brasil e no exterior. Em sete anos, seus cursos formaram 1.300 alunos. É Consultor de Informação para a Mídia Digital do website Petrobras, um dos maiores da internet brasileira, e é citado no verbete ‘Webwriting’ do ‘Dicionário de Comunicação’, há três décadas uma das principais referências na área de Comunicação Social no Brasil.