Archive for setembro 2018
Adriano Diogo no Pinga Fogo da Gazeta

No terceiro encontro da série Pinga Fogo na Gazeta recebemos o geólogo e ex-deputado estadual Adriano Diogo (PT/SP), que vai concorrer a uma vaga na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo este ano. De uma longa e descontraída conversa tentamos levar ao leitor um resumo de alguns momentos com a liderança que tem longa e histórica relação com São Mateus.
Para variar, o melhor era ter estado presente. Acompanhe aqui parte da conversa.
Além de expor parte de sua histórica participação no desenvolvimento do bairro, o convidado respondeu alguns questionamentos feitos pelos presentes. Iniciou traçando um breve paralelo sobre o que era esse bairro quando tinha apenas a Avenida Mateo Bei e alguma coisa no Riacho dos Machados e que hoje parece uma cidade. Mesmo por isso que já se referiram ao bairro como Cidade São Mateus.
Fazendo divisa com os municípios de Mauá, Santo André até os ‘Planos Diretor da cidade’, mais recentes, era mais acentuada as características rurais com amplas áreas de interesse ambiental composta de chácaras, muitas nascentes e vegetação nativa. “Praticamente até 2004, São Mateus tinha características de local aonde as famílias vinham passar os finais de semana”, considerou. “Eram áreas remanescentes de grandes propriedades de famílias tradicionais e ricas como Setúbal, do avô da ex-senadora Marta Suplicy e outros tantos que com o tempo foram sendo loteadas e se adensando de forma tão intensa que até antigos aterros foram ocupados por moradias, muitas delas, ainda sem regularização fundiária, como, aliás, grande parte de toda São Mateus”, vai explicando.
Adriano comenta que as ocupações irregulares de áreas públicas e privadas têm contribuído muito para o adensamento e a desorganização dos distritos de São Mateus. Se um dia, num passado recente as ocupações tinham um caráter de forçar a justiça social e os preceitos constitucionais, agora, entretanto, as ocupações estão recheadas de interesses não tão nobres que tem feito recrudescer as ocupações nos espaços não ocupados. O fato é que muitos dos presentes registraram a presença de muitos estelionatários por trás das insistentes tentativas de ocupações na região.
Adriano comenta que a intensificação das ocupações irregulares e mesmo os bairros mais consolidados que estão sem a regularização fundiária tem contribuído para o crescimento desorganizado de grande parte das periferias nos distritos de São Mateus. Corredores importantes que ligam o bairro aos municípios do ABC expõem grandes contrastes. A situação é tão intensa que disse: “Se pudesse atuaria a maior parte do tempo em São Mateus”, ciente das infindáveis demandas das comunidades do distrito. “São Mateus tem muitos contrates, o Riacho dos Machados com sua superpopulação de ratos; o hospital geral de funcionamento sempre precário, as fronteiras com Santo André; o polo industrial que um dia já foi pungente; morro com potencial de atração turística, aterros e usinas de compostagem em frente ao Sesc em Itaquera, ou seja contrastes não faltam”, explica.
Com a crise aumentando mais penúria nas periferias
Adriano considera que quando há crise econômica ela sempre bate com mais força na periferia. Com a crise, mesmo os serviços públicos essenciais sofrem uma retração e qualquer retração em serviços sempre muito aquém da demanda torna a vida do povo ainda mais angustiante.
Adriano analisa que o golpe de 2016 que tirou a presidente Dilma Roussef do governo e as lambanças que o seu vice Michel Temer (MDB) vem promovendo no governo trouxe reflexos nas instâncias locais, como é o caso das prefeituras. Na prefeitura de São Paulo, por exemplo, além das creches que não ampliam a capacidade de atendimento até o transporte escolar foi suspenso aqui e ali deixando crianças em idade escolar sem condução. A merenda distribuída nas escolas também foi mexida e para pior. Há que se lembrar de que o ex-prefeito João Dória, atual candidato ao governo do estado de São Paulo pelo PSDB, queria colocar ração no cardápio das crianças.
“Como uma prefeitura, bilionária como a de São Paulo, congela a construção de centros unificados, os CEU’s”, pergunta o convidado. Como continua devendo vagas em creches; como não amplia as conveniadas para atender, por exemplo, as famílias da Vila Bela onde quase nenhum espaço regularizado sobrou para instalação de uma unidade, continuou perguntando, insinuando, com a concordância dos presentes, o descaso da municipalidade com a periferia.
Perguntado sobre quando o monotrilho de fato chegaria a São Mateus funcionando em capacidade plena, Adriano lembra que o movimento popular era contra a instalação dessa modalidade. O movimento queria mesmo era o metrô tradicional, tal como a cidade de São Paulo conhece. Diogo estava entre estes. O desejo dos moradores não foi observado por razões diversas, divulgadas em diversas oportunidades nas páginas da GSM, e o monotrilho, como obra, vem se arrastando ao longo do tempo.
A possibilidade de ele chegar a São Mateus ainda é mais palpável que a chegada do monotrilho a Cidade Tiradentes conforme consta no projeto original. Atualmente, Adriano aposta nos avanços na tecnologia que envolve o funcionamento do monotrilho para que o sistema atenda melhor as demandas que já são grandes. Até agora, entretanto, a liderança lamenta não ter dado certo, mas torce para que dê, uma vez que pesados recursos já foram colocados nas obras e nos equipamentos que envolvem o funcionamento do monotrilho. Enquanto isso não ocorre, Adriano reconheceu que até os ônibus biarticulados tem mais capacidade e comparativamente funcionam melhor que o monotrilho.
Morro do Cruzeiro como ponto turístico que não sai
Perguntado sobre a dificuldade de implantação do Morro do Cruzeiro como ponto ecológico de interesse turístico e que ajudaria a retomar a proteção do local, constantemente ameaçado por ocupação e uso irregular, Adriano lembrou que a modalidade dos créditos de carbono como moeda internacional de troca já não mais existe. Esses créditos foram utilizados na região por ocasião da extração de gás em aterro sanitário, portanto, não se pode mais contar com isso.
Adriano lamenta que em função dessa demora em ‘tombar’ o morro, as áreas verdes próximas e do entorno vem sendo alvo de seguidas tentativas de ocupação. Algumas criam raízes, outras, no mínimo, impactam de forma negativa a vegetação nativa normalmente com a derrubada de árvores e a vegetação rasteira.
A regularização fundiária é a principal prioridade assegura o ex-deputado, entretanto o esforço de regularização tem muito a ver com o caráter do governo de plantão. Diferentes concepções de governo têm diferentes entendimentos e envolvimentos nessa monstruosa tarefa, uma vez que é público e notório que a maior parte das aglomerações nos três distritos de São Mateus é irregular.
Segundo Adriano, a atual gestão da prefeitura de São Paulo terceirizou para uma empresa os serviços de regularização de lotes ocupados, como são muitos os casos na região. Em linhas gerais, Adriano é categórico em afirmar que tal empresa emite carnês e cobra por lotes que até já foram pagos em outras ocasiões a atravessadores ou grileiros ou ainda aos legítimos proprietários. “Praticamente o cara vai ter que recomprar o que já comprou”. Para efeitos de comparação, em outros governos essa regularização era iniciativa da gestão que assumia os custos via tesouro ou linhas de financiamentos ou fundos perdidos internacionais. “Lembro-me que desde muito tempo tenho insistido com lideranças e moradores sobre a importância da luta pela aquisição e conquista dos documentos de propriedade e posse de seus imóveis. Nem sempre é prioridade dos moradores”, esclareceu. Resumindo Adriano diz que é preciso enfrentar e superar a clandestinidade. “A principal coisa a se fazer em São Mateus é a regularização da posse da terra”, sentencia.
Tentando voltar à assembleia
Adriano Diogo é candidato a deputado estadual em São Paulo pelo Partido dos Trabalhadores nas próximas eleições. Conforme ele mesmo diz, quer voltar porque ainda tem a contribuir com a política e a melhoria da qualidade dos parlamentares paulistas. Adriano é reconhecido como bom parlamentar, pelos que já o conheceu em outros mandatos “Quando passo na Arlesp, onde antes eu aprontava tanto, as pessoas saem pelos corredores para me cumprimentar e perguntar quanto volto. É gratificante. Considero-me um cara preparado para esse tipo de trabalho, tanto pelos mandatos que já fiz como pelo que pretendo retomar, caso eleito”, explica. Pelo sim, pelo não, dada a qualidade da atual legislatura, Adriano eleito nas próximas eleições é positivo.
União e mobilização como receita
Em face às inúmeras demandas elencadas pelos participantes, notadamente da regularização de ocupações antigas, preservação do meio ambiente, saúde, reforma trabalhista prejudicando os trabalhadores, governo decente até normatização do funcionamento do polo petroquímico que tem reflexos na saúde da população do Parque São Rafael, Adriano destacou a necessidade da sociedade e dos moradores ter conhecimento de causa, reunir forças, mobilizar e o especial cuidado em eleger parlamentares mais afinados com os interesses dos de baixo, da população e muita atenção ao que vai acontecer nos próximos meses rejeitando todo aquele parlamentar que tem apoiado reformas prejudiciais aos trabalhadores e a população não os reelegendo.
Apesar da situação de crise o convidado se mantem otimista em que, as pessoas conscientes, juntem os cidadãos de bem para conseguir consensos mínimos para atravessar o rio revolto dos tempos atuais. “Precisamos conversar com os diferentes e construir consensos para melhorar as vidas das pessoas em sociedade. Temos que repactuar essa quase anarquia e trilhar um caminho de justiça e zelo com as coisas púbicas”, emendou ao finalizar o encontro. (JMN)
PINGA FOGO COM A VEREADORA JULIANA CARDOSO

Na foto, Juliana Cardoso visita comunidade impactada com a instalação de dutos de indústria do Polo Petroquímico no Parque São Rafael, zona leste de SP
No quarto encontro da série, a vereadora Juliana Cardoso (PT/SP) foi convidada ao Pinga Fogo da GSM onde compareceram mais de 50 pessoas.
Diferentemente dos outros encontros com candidatos nas próximas eleições; ela própria a deputada federal, a conversa girou quase que toda ela em torno de questões mais gerais da política e não sobre temas locais.
Na leitura descompromissada da redação, esse pode ter sido um indicador de que os interlocutores presentes acreditam nas boas chances da candidata.
Acompanhe aqui o resumo do que foi possível anotar do encontro.
Exercendo o terceiro mandato como vereadora do Partido dos Trabalhadores (PT) pela cidade de São Paulo, o que não é pouca coisa, Juliana Cardoso de 38 anos tornou-se liderança social há tempos no Jardim Elba na região do Sapopemba vinculada as Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica inserida na Teologia da Libertação a exemplo de seus pais. Muito atuante, juntou-se a força política representada à época pelo ex-vereador e ex-deputado estadual Adriano Diogo, este também concorrendo a uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo, e desde então, vêm construindo juntos um mandato bastante representativo na cidade, na Grande São Paulo e pontualmente no interior.
Não à toa, com três mandatos seguidos de bastante representatividade junto aos movimentos sociais em distintas áreas; da saúde a habitação, das demandas de bairro ao meio ambiente, dos direitos humanos a cidadania, há um sentimento meio que generalizado de que, apesar das enormes dificuldades que a atual conjuntura impõe à campanha eleitoral, ela deva ter sucesso na empreitada. “Todo cuidado é pouco”, revela a vereadora que trocou uma espécie de zona de conforto, muito consolidada como vereadora, pela disputa deste ano.
Enquanto se apresentava aos que ainda não a conhecia, Juliana Cardoso disse que estava cumprindo uma tarefa a partir do entendimento do mandato de que é necessário travar uma luta na esfera federal, objetivamente na Câmara de Deputados, em Brasília, como deputada federal, local a partir de onde, principalmente desde 2016, com o impedimento da ex-presidente Dilma Rousseff (PT/MG) tem sido gestadas e aprovadas inúmeras medidas de ajustes do governo Michel Temer (MDB/SP) com visíveis prejuízos aos trabalhadores e a sociedade em geral.
Além da necessidade de aumentar a representação feminina de oposição no Congresso Nacional, a eventual eleição da convidada terá o sentido de fazer frente aos desmandos e aniquilamento das políticas sociais em curso. Para ela, uma das principais medidas a ser combatida é a suspensão do congelamento por 20 anos dos orçamentos nas áreas sociais; medida aprovada pelo atual governo, que tira do povo enquanto premia seguidamente setores empresariais com as mais finas prendas que vão de anistia de dívidas até a entrega do patrimônio estratégico nacional para o setor empresarial.
No encontro foi questionada por Moacir Nascimento que lamentava sua possível saída da Câmara dos Vereadores, caso seja eleita, deixando um vácuo no atendimento ao movimento de saúde da região e da cidade. Juliana ponderou que a luta pela manutenção e melhoria do Sistema Único de Saúde – SUS também se dá na esfera do que se decide no Congresso. “Como tudo na política mais recente, o Congresso é um espaço estratégico por onde tem se dado o enfrentamento contra os desmandos do atual governo”, comenta com razão.
Além do apoio as lutas dos movimentos de saúde por anos a fio, Juliana também lembra a difícil situação por que vem passando a assistência social, com o congelamento por parte do governo federal do orçamento em iniciativa aprovada por deputados e senadores. O reflexo é imediato na assistência social na região, considera a convidada; tanto porque a prefeitura, seguindo os passos do que se faz no governo federal, implica em uma situação de penúria pela qual as entidades conveniadas, e citou várias na região, estão passando. Mais um motivo para fazer esse enfrentamento no congresso.
Indagada sobre a sensação de impunidade em praticamente todas as áreas, que perpassa a cabeça das pessoas, com as notícias do dia a dia, Juliana comentou que em alguns casos leis antigas ou desajustadas da situação atual, como é, por exemplo, as Leis de Execução Penal precisam de revisão.
Servem de exemplo, também outras legislações ou prerrogativas que precisam ser revistas. Principalmente as que dizem respeito aos próprios parlamentares, aos membros do alto escalão do executivo e até mesmo aos membros do Judiciário que, não sem alguma razão, passa a sensação de que são pessoas à parte com tratamento especial. É lá, no Congresso que se trava essa batalha lembra, novamente, a vereadora.
Segundo Juliana Cardoso é preciso promover a renovação na Câmara dos Deputados em função do que se vê de questionável na atual legislatura, que salvo honrosas exceções, é uma das mais perniciosas aos interesses da maioria.
“As bancadas e muitos partidos, sem suporte ideológico, se transformaram descaradamente em balcão de negócios e fazem negociatas tão escabrosas a ponto de passar vergonha para além do espaço nacional. Certas medidas e comportamentos do Legislativo brasileiro é vexame internacional”, resume Juliana.
Alguns registros pontuais
Sobre ingratidão – Núbia Quaresma estava entre os presentes para perguntar a convidada como ela lidava com a ingratidão das pessoas que não dariam valor a uma liderança como ela, eventualmente deixando transparecer que no Jardim da Conquista, ocupação histórica que teve muito contribuição e esforço da vereadora, algumas lideranças não simpatizariam com ela.
Tranquilamente Juliana respondeu que são situações pelas quais qualquer um passa; que se pode lamentar, mas há que seguir em frente. Juliana ainda enfatizou a necessidade das comunidades se manterem organizadas atrás de suas conquistas, notadamente, no caso que envolvia a comunidade citada, ainda em busca de regularização fundiária, principalmente nas gestões municipal mais recente que prioriza as remoções sem a devida contrapartida de maior alcance e sólidas para além da “Bolsa Aluguel” que só serve para o curtíssimo prazo, deixando as famílias que foram removidas de seus lugares sem perspectiva de moradia própria adequada.
As dificuldades na saúde – Outro entre os presentes denunciou a falta de remédios essenciais para as pessoas que precisam fazer rotineiramente diálise enquanto aguardam a possibilidade de transplantes numa demanda que alcançou quase 10 mil inscritos. Juliana lamentou e explicou que a situação da saúde é uma das mais atingidas na atual condução do governo federal, razão pela qual a luta pela manutenção do SUS e no envolvimento das comunidades na discussão dos arranjos que a gestão tenta fazer, como foram as tentativas de fechamento de unidades.
É público e notório que o mandato teve importante presença na discussão dessas tentativas de ajustes no atendimento, principalmente nas UBS do Jardim Tietê I e II, assunto tratado em edições recentes e na reversão da tentativa do então prefeito Doria em fechar unidades na cidade de São Paulo.
A crise do desemprego e a necessidade de se manter organizados – Maria Fernandes moradora e lutadora pela conquista de moradia na região do Aricanduva destacou a crise de desemprego no Brasil. Por sua vez uma liderança do Jardim Centenário, Jardim São Gonçalo e do Riacho dos Machados se mostrava apreensivo com a demora nas obras de contenção de enchentes no córrego que passa por essas comunidades questão em que o mandato da vereadora está inserido. “Durante a nossa gestão, referia-se a gestão do prefeito Fernando Haddad (PT), fazíamos as intervenções no córrego sem precisar promover remoções. Íamos acertando aqui e ali, coisa que a atual gestão não faz”, disse, parecendo insinuar que a atual gestão não tem esse cuidado e tanto quanto possível promove a remoção das famílias que após período de apoio da municipalidade não tem onde se fixar.
Encerrado o encontro formal, a vereadora e os presentes ficaram em conversas informais, muitas delas no sentido de sinalizar apoio a candidatura da vereadora. (JMN)
Na rua, as pessoas dão depoimentos sobre a situação
Após o encontro a reportagem ouviu algumas pessoas sobre os efeitos da situação. Um deles o Padre Luiz Fernando, do Jardim da Conquista registrou que as diversas comunidades na região suportam os efeitos da poluição sem qualquer contrapartida e que a despeito de alguns esforços é visível que o meio ambiente vem sendo agredido e sobre a necessidade de se manter a resistência contra esse tipo de situação. “O que se percebe é que não há planejamento adequado, mesmo em condomínios. Atualmente vemos ocupações diferentes das que antes eram organizadas por cadastros. Estamos vivendo uma situação de descaso”, dizia, enquanto uma obra de expansão de uma indústria no polo; uma instalação de dutos da Transepto ia revirando o solo e ia ter como consequência a retirada de poste de energia elétrica que ia deixar sem energia as casas do entorno.
Ezequiel Bonato, que mora há 13 anos no local entre os 19 que tem de bairro se diz indignado com as ‘surpresas’ que essas empresas pregam nas pessoas, se referindo ao caso dos dutos da Transpetro que estavam causando transtornos aos moradores, para além do que já sofrem com os efeitos deletérios da poluição gerada pelo Polo. Resignado, dizia sentir-se acuado até mesmo do ponto de vista jurídico, caso fosse levar a justiça esse assunto contra as empresas. “Infelizmente estamos chegando nesse ponto, com nossa qualidade de vida diminuindo cada vez mais com as empresas desse tipo degradando o solo sem recompô-lo e sem compensação. Só tira, só destrói por conta de um futuro, que dizem, vai melhorar para as pessoas. A gente só perde”, concluiu. “Se em alguma coisa ainda estamos podendo nos agarrar, é no apoio do mandato da vereadora Juliana Cardoso que tem lutado conosco para evitar maiores problemas e tentar manter alguma qualidade de vida neste local”, finalizou.
Já Adriano Diogo reforçou a tristeza com a devastação ambiental ao lado do Polo. “Esse é o Brasil com seu rio de nafta e a instalação desses dutos que visam aumentar a produção do polo e que vai cortando para todo o lado. Estamos em cima do Ministério Público atrás de estabelecer um Termo de Ajustamento de Conduta que mesmo que se não resolva por completo o problema, tente diminuir e remediar os impactos negativos das atividades das indústrias na região”.
Também no local, Juliana Cardoso considera que o embate com as indústrias é muito difícil em função dos recursos que elas têm em qualquer disputa. “A forma como estão fazendo as intervenções; a colocação dos dutos, sem diálogo com as comunidades é condenável. Eles vão remover postes, inclusive de áreas da prefeitura e sem contrapartida, sem compensação ambiental. Estamos enquanto mandato tentando fazer uma audiência pública com todas as partes para tentar o diálogo”. “Estamos doentes há 48 anos. É interessante para as empresas que não tenhamos informação. Precisamos de organização e conhecimento dessas informações”. Como membro da comissão de saúde da Câmara Municipal de São Paulo, a vereadora tentará marcar uma audiência para poder dialogar sobre essa situação. (JMN)
Pesquisadora fala sobre doenças causadas pela poluição do polo
A professora de endocrinologia da Faculdade de Medicina do ABC, Dra. Maria Ângela Zaccarelli Marino esteve na região de São Mateus nos dia 23 de agosto e 05 de setembro onde deu explicações sobre o grave problema de saúde pública que vem afetando o distrito de São Mateus e parte das cidades de Santo André e Mauá. A iniciativa de sua vinda ao local com grande de público, agentes de saúde e autoridades foi do candidato a deputado estadual Adriano Diogo (PT).
Doutora Maria Ângela possui doutorado e mestrado em Endocrinologia pela Universidade de São Paulo. Atualmente é professora da Faculdade de Medicina da Fundação ABC, médica neuroendocrinologista – Real e Benemérita Sociedade de Beneficência Portuguesa e endocrinologista e neuroendocrinologista do Instituto Neurológico de São Paulo. Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Endocrinologia e demonstrou profundos conhecimentos sobre o assunto.
Pesquisando desde 1988 os casos de tireoide na região, descobriu que havia grande incidência da Tireoidite de Hashimoto, doença incurável, que se não tratada pode levar ao coma e à morte. Em crianças, pode gerar retardo mental e problemas de crescimento, ou seja, um grave problema de saúde pública causada, segundo estudos feitos por pesquisadores tendo a médica entre eles, pela poluição oriunda da produção das indústrias do Polo.
Fiquemos com um resumo da fala da médica pesquisadora durante o encontro. “Sou médica e agradeço o convite feito pelo Adriano Diogo para falar com vocês e explicar um pouco sobre o nosso trabalho nesses 28 anos em que estamos na região. Nossa função é cuidar de todos e por vezes esse cuidar tem muito a ver com cuidar também do meio ambiente, como tentarei demonstrar”, iniciou a Dra. Ângela.
Quando iniciamos nosso trabalho aqui na região lá trás, encontramos uma doença que na ocasião nem era muito conhecida, a tireoidite crônica autoimune, que podemos simplificar para uma inflamação. A função da tireoide é produzir uma glândula essencial e a sua inflamação que é quando deixa de produzir não há possibilidade de remissão.
O que acontece com a doença é uma agressão ao nosso organismo que não consegue se defender. Ele até se defende, mas não de forma satisfatória, de maneira errada e faz mal para ele mesmo. Essa é uma definição mais simples do que significa autoimune.
Lá trás quando estudava endocrinologia dizia-se que essa doença era rara em crianças e adolescente e também em homens. Era mais comum em mulheres, mas na região, eu no exercício da medicina, estava diagnosticando a doença exatamente onde seria mais raro o que me levou a pesquisar e estudar por anos o assunto quando já sabíamos que a tireoidite crônica autoimune, não tem tratamento, e não tem como removê-la do corpo. Além de ser agressiva ela pode causar outra doença, o hipotireoidismo.
A tireoide para de funcionar, não dá para prevenir e pode acarretar o hipotireoidismo primário quando para de secretar os hormônios.
Faz 28 anos que estou na região pesquisando e estudei a história da região, como foi sua ocupação e as consequências da interferência no meio ambiente que é um ponto muito importante. Percebi que a maioria dos casos detectados vinha das mesmas regiões onde, entre 1956 e 1989, a instalação das indústrias no país foi intensificada o que me levou como, a outros pesquisadores, a estudar o meio ambiente. ‘O “progresso tem que vir, mas tem que vir sem prejuízo do meio onde vivemos”. Estudamos o que produziam as indústrias, estudamos a respeito do petróleo e das indústrias químicas e os efeitos da poluição na região.
Vale registrar que a implantação dessas atividades na região não foi planejada de modo a manterem-se distantes das ocupações com moradias. Podemos dizer o mesmo da ocupação irregular para uso como moradia; sem planejamento.
Durante todo esse período de estudos é natural que se saiba cada vez mais que a emissão de organoclorados, através da fumaça e fuligem das chaminés das indústrias do polo, levadas pelas correntes de ar vão se depositando por toda parte mais próxima, e são esses organoclorados o causador da doença. São milhares de organoclorados diferentes como resultado da produção, entre estes, muitos causadores de diversos tipos de doenças, entre estas, a que estamos abordando.
A percepção da agressão ao meio ambiente é antiga – Embora se saiba que toda ação antrópica, ou seja, do homem sobre o meio, o transforma e pode gerar resultados em desarmonia com o meio ambiente. O livro “A Primavera Silenciosa”, da escritora americana Raquel Carson pode ser considerado o primeiro trabalho sistemático sobre a agressão ao meio ambiente feito pelos homens e seus modos de produção.
Como curiosidade esse livro tem importante papel no movimento hippie e da contracultura americana que foi se espalhando por diversos países. Também a partir dele formatou-se uma consciência ambiental que tem feito, desde então, diversos esforços, encontros e protocolos para tentar cuidar melhor do meio ambiente em escala mundial.
Uma entre outras metodologias de pesquisa foi feita com a coleta de casca de árvores na região e onde detectamos a presença de materiais pesados, chumbo, enxofre e outros, por exemplo, em concentração acima do suportável quando já sabíamos que essa concentração envolve casos de hipotireoidismo. Estudamos as árvores que tem uma complexidade compatível com a necessidade do estudo e era uma forma até mais barata de estudar. Nesse ponto e outros, temos que agradecer o auxilio precioso de outros pesquisadores, alunos e moradores que foram nos ajudando.
Alguns dos elementos encontrados nesse estudo são mutagênicos, ou seja, tóxicos para o meio ambiente e poderiam causar a multiplicação da célula errada que gera o câncer. Todos esses trabalhos foram comprovados e publicados. Atualmente tem vários trabalhos publicados sobre poluição no Polo Petroquímico de Capuava.
Finalizando a exposição que foi muito mais rica do que conseguimos reproduzir a Dra. Ângela chamou a atenção para a importância imensa que tem os cuidados com o meio ambiente, o estudo dele, a melhoria nos modos de produção de forma sustentável, na mudança de costumes desde as pessoas até as atividades para que haja sustentabilidade planetária e seja possível continuar se produzir sem prejuízo da saúde pessoal e ambiental. Resumo: é preciso reforçar a consciência ambiental em todas as pessoas e setores.
Ouvintes perguntam e a pesquisadora responde
Assim que concluiu sua exposição, Adriano Diogo coordenou alguns instantes de perguntas, sugestões e dúvidas entre os presentes. A vereadora e atualmente candidata a Câmara Federal pelo PT, Juliana Cardoso que há tempos desenvolve trabalho entre as comunidades, também a esse respeito, lembrou que as empresas envolvidas têm recursos impressionantes e nunca oferecem contrapartidas aos efeitos nocivos de suas atividades. Destacou que as comunidades e regiões envolvidas apresentam muitas carências, inclusive na área da saúde mesmo, por motivos diversos, e que essa situação é injusta e precisa ser alterada.
Dra. Ângela lembrou que existem alguns esforços de promotores de Justiça com inquéritos públicos civis ainda andamento e que se aguarda o desdobramento disso. Sabe que entre as medidas e solicitações nos inquéritos, está a possibilidade de estabelecer que se obtenham recursos para ajudar as populações afetadas.
Outra pergunta era sobre se a médica tinha outras sugestões para melhorar a situação, além dos protocolos já em uso. Doutora Ângela indicou que existe uma sobrecarga de atendimento de pessoas que precisam ser examinadas e que os exames que precisam ser feitos não são corriqueiros e são caros. Outra orientação é para que os profissionais de saúde da região peçam os exames corretos para se antecipar os tratamentos.
A nossa ideia é pensar formas de prevenção, de cuidar para que não tenham a doença e isso, insisto, seria cuidando do ambiente, porém não temos meios sozinhos de modificar a situação. Aguardemos o desdobramento do que está no MP.
Existem outras formas de produzir, se viáveis ou não, são muitos fatores que as indústrias consideram, mas existe a química orgânica, mais complexa. Existem ainda estudos de profissionais da química sugerindo mudanças que podem ser feitas mudança; existem também possibilidades de colocar filtros específicos nas chaminés e etc. Ou seja, precisamos cuidar do meio ambiente e ter como foco principal evitar a doença. (JMN)
Doenças atingem vizinhos do Polo Petroquímico
Os efeitos da poluição proveniente da operação das indústrias do Polo Petroquímico de Capuava, na Região Metropolitana de São Paulo já vêm fazendo vitimas silenciosas ao longo de mais de 50 anos entre os moradores de Capuava, em Santo André, Silvia Maria e Sônia Maria, em Mauá e na capital no distrito do Parque São Rafael, em São Mateus.
Após anos de estudos, principalmente da médica endocrinologista e professora Maria Ângela Zaccarelli Marino, da Faculdade de Medicina do ABC, ficou comprovado a ocorrência de enfermidades diversas, com destaque pra a tireoidite de Hashimoto que é uma disfunção da glândula tireoide que para de funcionar oferecendo as pessoas acometidas sintomas que são sentidos pelo resto de suas vidas, mesmo depois de detectado a doença e com medicações diárias. Entre os mais corriqueiros a depressão, o cansaço, a queda do cabelo, doenças respiratórias e alteração de peso.
O alerta sobre a ocorrência foi em junho de 2002 após 12 anos de levantamentos, pesquisas e estudos feitos por profissionais distintos e a médica endocrinologista Maria Ângela Zaccarelli-Marino.
Conforme ela conta diretamente no encontro que teve com as comunidades na região de São Mateus (veja reportagem nesta edição) o aparecimento de casos atípicos de tireoidite crônica autoimune no consultório dela em Santo André, fez a especialista desconfiar que a incidência da doença era mais alta na região próxima ao Polo Petroquímico de Capuava. Depois de dezenas de anos investigando o tema, a professora concluiu que moradores da área tinham incidência cinco vezes maior da doença.
A origem de todo esse transtorno provou-se estar ligado à fumaça que sai continuamente das chaminés das 14 empresas do polo. Um dos principais levantamentos feitos pela médica, ainda entre 2003 e 2005, quando também se baseou em pesquisas anteriores, reafirmou o aumento da incidência de doenças ligadas à tireoide. A médica realizou exames em moradores das áreas apontadas na região metropolitana confirmando o que já se sabia.
Tempos atrás porta voz das indústrias se manifestou
A então Associação das Indústrias do Polo Petroquímico do Grande ABC – Apolo disse certa época que os exames realizados até então não eram conclusivos e que não havia elementos suficientes para ligar as doenças dos moradores à poluição emitida pelas indústrias e acrescentava que nenhuma indústria produz sem criar resíduo o que é um fato.
Os estudos seguiram e há, conforme expõe o resultado dos estudos feitos pela endocrinologista, elementos comprobatórios de que a poluição é sim responsável pela ocorrência das doenças.
Em mais de uma ocasião o Ministério Público e a própria Secretaria de Estado da Saúde foram chamados a avaliar a situação sem uma posição final sobre o assunto, entretanto em função da inalterada situação e maior e melhores elementos comprobatórios da poluição, o MP está novamente com o assunto para avaliar, se posicionar e eventualmente estabelecer um Termo de Ajustamento de Conduta se é que será capaz disso. (JMN)