O que querem a burguesia e os políticos picaretas
Com um espetáculo dos mais deprimente e forte exemplo de degradação política em que aportamos o país ficou revelou muito de sua indigência. Assistimos uma Câmara de Deputados de deputados com bizarras e patéticas declarações para justificar seus votos. O show, além do fato de estar sobre a presidência de um réu no STF, embora as coisas não andem naquela instância, tornou-o ainda mais bizarro. O tal presidente da sessão, Eduardo Cunha é acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. E a acusação não é nossa. É de denúncias no exterior e entre outros do procurador-geral da República.
O desplante foi ter sido, esse réu, a liderança em um assunto da maior importância que é o processo de impedimento de uma presidente da República. Ele aceitou e deu seguimento a uma representação contra a presidente, partindo do jurista Miguel Reali, lidado historicamente ao PSDB, da professora Dra. Janaina Pascoal e do jurista Hélio Bicudo de quem é sabido ser um desafeto antigo do ex-presidente Lula. Vale lembrar que nenhum dos filhos do jurista de mais de 80 anos concorda com o comportamento do pai.
O Eduardo Cunha acolheu e fez prosperar a aprovação do aceite do impedimento porque atendia ao interesse de muitos parlamentares da oposição e porque estava retaliando e tentando tirar de foco o fato de ele próprio estar envolto em uma comissão de ética que objetivamente não consegue trabalhar por causa da influência dele, o réu.
Ouso agregar o que a principal razão para impedir a Dilma é esvaziar as investigações da Lava Jato ou minimamente deter o seu ritmo. Tenho certeza que o juiz Sérgio Moro, não tem, ele próprio, interesse na ampliação das investigações, mas está na lógica saber que se as investigações seguisse na mesma intensidade do que foi até chegar ao Lula, levaria de roldão muita gente e teria que colocar na cadeia a maioria daqueles parlamentares do sim, incluso a oposição no PSDB e o famigerado Eduardo Cunha.
Na base do tudo ou nada. Os deputados não queriam correr o risco de ser atingidos. Dai que mudar o governo e influir no Judiciário é quase uma questão de sobrevivência. Não nos iludamos também que essa campanha que tenho poucas dúvidas chegará ao afastamento da presidenta tem amplo apoio em entidades empresariais em redes nacionais de televisão e grande mídia.
O próprio PT, o governo Dilma Roussef tiveram seus próprios equívocos, mas não está no eixo desse artigo. Apesar disso é preciso apontar que o modelo padrão de conciliação para a governabilidade, defendido desde 2002, e assumido pelo governo lulista foi um engodo e derrotado. Essa derrota foi coroada recentemente com a tentativa fracassada de fechar um acordo com o bloco PP/PDS/PR, após a oportunista saída do PMDB do governo em franca queda.
Se as linhas gerais preparam algum terreno, é para entendermos quais são, de fato, os interesses da burguesia brasileira, através de suas entidades de classe e algumas organizações empresariais a quererem a deposição do governo Dilma.
Desde a reeleição, este governo tem tentado assumir o receituário liberal mais ortodoxo para enfrentar a crise. Fez um discurso para a eleição e propôs medidas diferentes, logo depois. O país entrou numa recessão e desemprego e tentava aproximar-se de setores econômicos mais fortes, ao mesmo momento em que as investigações o pressionavam.
Ocorre que a receita liberal não tem nada para superar a crise, No máximo se defendem – bancos e multinacionais seguindo mais ou menos da seguinte forma. Controlar parcelas ainda maiores do orçamento público; reduzir o custo do trabalho alternando a legislação trabalhista, restringindo direitos e flexibilizando normas de negociação entre patrões e empregados. Abrindo novas oportunidades de negócios privado mudando regras da previdência pública, estimulando previdência complementar privada. Avançando nas privatizações na Petrobras e no setor elétrico, no setor de infraestrutura, via concessões e abrindo a área do pré-sal com a abolição da atual modalidade da Lei de Partilha. O governo, mesmo assim se rendeu em boa medida a esses programas, mas sem capacidade de ajuntar forças parlamentar suficiente para viabilizar alguma alteração aqui e ali.
Na outra ponta, desde 2003, o governo e a classe dirigente do PT tem operado no sentido de diminuir as pressões dos movimentos sociais o que dá o tom da dificuldade para apoios mais incisivos no atual momento.
Resumidamente, entendo que a maneira neste momento de oferecer alguma resistência a partir dos interesses populares e não dar de bandeja às metas da burguesia é continuar denunciar o golpe parlamentar e questionar sempre a posição do Michel Temer, o vice, que em breve, virará presidente tampão. Ele é acusado por alguns de conspirador, com certeza, e traidor.
Quero me atentar ao segundo adjetivo, traidor e o é. Ele, Temer, praticou os mesmo atos da administração que tentam dar sustentação aos supostos crimes de responsabilidade que poderão afastar a Dilma. Aliás, dezenas de governadores deveriam estar na mesma berlinda. Ele é traidor porque desrespeita os votos na chapa da presidenta, costurando em companhia do Eduardo Cunha e de um bando de picaretas para depô-la do cargo.
Dilma vai cair sim. Isso tá dado, mas que a coisa toda foi absolutamente surreal. O duro é eles conseguirem o que mais querem, qual seja não entrar no caderninho das investigações. (JMN)
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