Mais um aspecto ruim dessas eleições
Para votar para a Presidência da República em 2014, aparentemente o eleitor não se interessou em conhecer a vida pregressa de fortes candidatos. Serviu apenas olhar quem estava no governo no período
Olhando com um rigor mediano para o resultado das eleições para presidente no primeiro turno desconfio que a rede social e a velocidade com que as informações circulam de segundo em segundo contribuíram para fazer com que a memória dos brasileiros não fosse muito para trás para lembrar como e o que era sequer esse nosso passado recente. Acho até que esse fenômeno resultante dessa velocidade e descarte de informações possa estar se repetindo em toda parte mundo afora.
Há fortes indicativos de que adultos relativamente jovens, na casa de seus 30, 40 anos não se interessaram em construir cenários comparativos entre a situação atual e as situações e conjunturas em que se encontrava o país no período da redemocratização. Aqui tão perto em termos de tempo, nem tão longe. Coisa da década de 80. Poucos, eventualmente os mais idosos e experimentados, trouxeram esses subsídios do tempo e da história recente para fazer avaliações, comparações e decidir seus votos. Mesmo assim, registre-se, uma minoria.
Se essa maioria de trintões ou quarentões não se atentou para essa necessidade, a ação cidadã de votar acabou se dando, então, basicamente a partir da constatação e da necessidade quase generalizada de que era preciso mudanças, embora não se saiba ainda para onde. Sem ter com o que comparar, ou seja, objetivamente não levando em conta esse passado recente, era óbvio que a resultante seria votar por uma mudança, mesmo que seja para endereço antigo. Até ai compreensível, mas que mudança era essa quando não se compara situações?
Vou exemplificar simplificando. Quando tomamos uma xícara de café, visto que existem disponíveis várias marcas, não podemos afirmar com segurança se ele é muito ou pouco saboroso, uma vez que não temos outra xícara de café, de outra marca, para comparar. Foi mais ou menos isso que aconteceu.
O cidadão brasileiro informado mesmo que medianamente e principalmente pelos grandes meios de comunicação disponível vê, ouve se espanta e fica indignado, com toda razão, com uma série de desacertos e descalabros na República, notadamente nos casos de corrupção nas barbas do governo central. E fica indignado, principalmente, porque é mais fácil e recorrente divulgar notícias ruins do que as boas. Muita notícia ruim e a tendência é querermos dar o troco nas urnas.
Esse troco ou essa vingança, entretanto, registre-se, é feita difusamente uma vez que também é fato que a maioria dos eleitores seja conivente e tolerante com pequenas e médias lambanças, principalmente se estiverem participando com alguma vantagem. Apesar de fazerem das suas, um pouco de inveja também os fazem ficar contrariados com a destreza e desfaçatez dos grandes larápios. No intimo, com algum grau de entendimento, percebem que quando se lesa o patrimônio e os recursos públicos é um pouco do seu que está sendo tomado. Eles têm razão, de novo.
Acontece que esses grandes meios de comunicação, no sentido de manter o status que desfrutam estão quase em sua totalidade acordados numa prática sutil de esclarecer, mas não muito, de informar sem contextualizar, e o que é mais grave simplificar questões complexas.
Fazem do senso comum de que políticos são todos bandidos uma espécie de chavão que funciona, mas que não passa de uma espécie econômica de xingamento. Preguiçosos e de rabo muito bem presos não vão ao fundo das questões; não usam da necessária comparação entre situações que poderiam no mínimo elevar a qualidade desse senso comum dando a cada um, xingamentos em doses diferentes. Misturar tudo no mesmo balaio não resolve, apenas joga para a plateia.
O resultado dessa conjuntura contribuiu para o que se viu no primeiro turno. Clamor de mudança nas eleições. Com isso, os eleitores querem e estão em vias de conseguir em segundo turno trocar o comando do governo central por outro; aquele que disputará com a atual presidente sem ao menos conhecer o ficha pregressa do que o oponente da presidenta Dilma, o seu partido e os aliados de sempre representaram nesse passado recente. Os eleitores deixam de pesquisar e se aprofundar porque ainda não acham importante esse aspecto da equação.
Seguindo esse raciocínio a troca de governo é iminente e como o passado não interessa, parece que não interessará também para qual direção e endereço essa mudança está sendo feita. Dias sinistros virão, mas que não se responsabilize apenas a falta de interesse dos eleitores em ver o assunto de maneira inteira e de forma comparativa.
Erros aos borbotões foram cometidos também pela quilométrica coligação que vem atuando no governo federal no último período. Se não fossem tantos erros e se os acertos fossem mais evidentes e compensatórios do ponto de vista do interesse maior da nação, nem tantos eleitores quereriam abrir a outra porta do desconhecido. (JMN)
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