Agrupamento que ajuda dependentes de álcool e drogas realiza atividade
Convidada, a reportagem da Gazeta São Mateus visitou a Agrupação de Recuperação Antialcoólica e Drogas, entidade sem fins lucrativos fundada em 06/08/1995 que vem desenvolvendo importante serviço de acolhida e apoio semi terapêutico às pessoas com problemas de alcoolismo e drogadição, durante uma manhã de domingo, dia 03, quando frequentadores da casa, familiares e colaboradores fazem um almoço comunitário que acontecem a cada dois meses para aprimorar o processo de ressocialização de ex e atuais dependentes.
Sem qualquer apoio governamental nem de empresas ou particulares, a entidade subsiste pelo esforço de Hamilton Clemente, mentor do projeto e principal gestor da casa e de alguns outros abnegados e com apoios pontuais entre os que podemos chamar aqui de clientela.
Hamilton sustenta que o trabalho de recuperação feito na casa é baseado totalmente em terapia de grupo feito pelos próprios protagonistas de suas situações. O próprio Hamilton revela, sem nenhum constrangimento, que durante um período da sua vida usou e abusou do álcool e a exemplo de tantos outros colocou sua vida e de familiares próximos em risco e palco de inúmeros constrangimentos e aborrecimentos.
“Nosso foco é no cidadão doente e naquele que por conta própria quer tentar sair de uma situação de dependência de álcool ou drogas para uma vida melhor. O nosso principal apoio é o acolhimento e a compreensão do que seja a situação pelas quais o doente está passando. Afinal, quase todos nós, envolvidos nesse esforço, tivemos no mesmo lugar que ele; a procura de ajuda”.
Em termos de números, a despeito de não discutirmos com a estatística ou com a matemática, consideramos o resultado bom e promissor. O entendimento da redação é que qualquer pessoa que seja recuperada de uma situação de alcoolismo ou dependência e abuso de drogas é muito importante. Vamos a eles. Hamilton diz que com o álcool a cada 100 dependentes, 10 se recuperam; com as drogas, a cada 100, cerca de 5 se recuperam e com relação ao crack, essa devastadora droga, de cada 100, 2 ou 3 se recuperam definitivamente. Insistimos, parece pouco, mas é muito significativo seja para o próprio doente, seja para a família e sociedade.
Libertos de vícios, frequentados da casa dão depoimentos
Pouco antes do almoço comunitário com as pessoas trazendo, cada uma delas, um prato, sobremesa, doces ou frutas que seriam servida a todos, alguns frequentadores da entidade fizeram questão de registrar seus depoimentos que foram resumidos pela reportagem.
Alguns deles, com mais de 19 anos livres dos problemas são queles que iniciaram seu esforços de recuperação em outros locais, tais como a Associação Antialcoólica do Estado de São Paulo, ARA (Associação dos Alcoólatras de São André, Grupo de Recuperação Antialcoólica e Drogas, Fraternidade de Recuperação Antialcoólica e Drogas, Curados Para Amar Antialcoólica e Drogas entre outras. Continuam agora prestando sua colaboração na entidade. Outros, entretanto foram recuperados já na atual entidade.
Ex-funcionário do Banespa durante 10 anos, Pedro Aguiar foi demitido quando esse passou para as mãos de outros donos. Pedro já registrava pelo menos três internações em clínicas e sanatórios por conta de seus vícios em álcool e drogas. Entre 94 e 96 foi uma a cada ano e a última, nessa modalidade, em 1997. Auto suficiente, pelo menos enquanto trabalhava, não tinha na família o amparo necessário. Dai para ser morador em situação de rua foi apenas questão de tempo. Pedro resume que no período mais grave de sua situação, segundo ele durante uma gestão da ex-prefeita Marta Suplicy na cidade de São Paulo, havia um esforço para acolher e tentar reverter à situação de degradação dos moradores. Ele participou disso.
Mas foi através do conhecimento com Hamilton Clemente e do apoio que recebeu que ele conseguiu iniciar o seu processo de recuperação em 2001 e hoje plena. “Procurei o apoio com chinelos de dedo gastos, roupa e corpo sujo de muitos dias sem tomar banho e através do contato com o Hamilton fui, mesmo naquelas condições deploráveis, tratado com respeito e como gente e isso foi muito impactante para mim”, comenta. “Assim que ele me encaminhou a entidade e vendo aqueles depoimentos fraternos, feitos por pessoas que tinham problemas muito semelhantes aquilo me ajudou a recuperar a minha vida”. Muito provavelmente é por isso que agora ele ajuda a entidade.
Com 63 anos de idade, Antônio Ferreira é outro que chegou a entidades de recuperação cerca de anos atrás onde, com o mesmo tipo de apoio, pode se safar dos vícios em drogas e álcool. O ex-sargento do Exército, antes de achar o caminho de volta, passou sem sucesso por cinco internações em sanatórios. Agora o pouco que pode, ajuda a outros na caminhada pelo abandono dos vícios.
O jovem adulto Adeilson José, de 38 anos disse que começou a beber adolescente, quando, também já trabalhava. Pouca ou nenhuma orientação havia em casa. Das bebidas para as drogas foi um longo percurso rumo ao inferno, mas foi através da acolhida, das reuniões e das terapias de grupo na entidade que ele está limpo há alguns anos.
Natalino Oliveira de 68 anos considera ter renascido em 1985 quando conheceu a Associação Antialcoólica de São Paulo, o famoso AA. Era então um bêbado clássico e levado ao encontro ficou admirado com os testemunhos que ouviu e ouvia nas reuniões seguintes. Fervoroso credita também a Deus a sua recuperação e desde há muito entende que o álcool o estava matando progressivamente. Ficou quinze anos bebendo muito; ainda quando trabalhava em uma montadora de veículos. Ganhava, no período, dez salários mínimos em média. Até espancar a esposa espancou. Durante esse período de recuperação adquiriu a exata compreensão de que ninguém vive feliz com um bêbado na família. Hoje, completamente recuperado tem certeza que nasceu de novo.
Outro jovem adulto que preferiu não se identificar já está limpo, agora aos 39 anos, após usar crack durante 14 anos seguidos. Pai de duas filhas esteve em situações muito delicadas quando aos 33 anos conheceu e começou a frequentar as reuniões e as atividades da entidade. Com as orientações e o apoio percebeu que seria possível se recuperar. Abstêmio já há oito anos, recuperou a si e a sua família.
Outros depoimentos
Com 76 anos, Gilberto começou a beber com 10 anos. Queria fugir quando alguns parentes queriam trazê-lo para conhecer a entidade. “Foi a melhor coisa que me aconteceu. Faz 23 anos que parei com o álcool e minha vida ficou muito melhor agora, após alguns casamentos que eu mesmo estraguei”. Já Djalma bebia e fumava desde os seis anos de idade. O exemplo vinha da casa com o pai alcoólatra. Durante a reportagem registrou que estava parado há 10 anos, 9 meses e 20 dias.
Por fim, com o almoço quase começando Newton César diz que chegou a São Paulo com 38 anos vindo do Maranhão e já bebia. Brigava em casa, faltava dinheiro que ficava no bar e também lembra que parou de beber dia 21 de outubro há oito anos. “Foi um colega que me trouxe aqui e também fui impactado pelo que ouvia de gente muito parecida comigo que estava ou tinha se recuperado. Hoje, vivo bem com minha família e comigo mesmo”, finalizou.
Hamilton convida a visitarem a casa
O almoço teve início e Hamilton ainda teve tempo de explicar a reportagem que a atividade, como a de excursões, bailes e outras fazem parte do que ele entende ser um processo terapêutico com as próprias pessoas se apoiando e ajudando. “Fica claro para eles e suas famílias que não são necessárias o uso de bebidas alcoólicas e drogas para se divertir. A vida deles e de suas famílias melhoram a cada dia”.
A Agrupação de Recuperação Antialcoólica e Drogas realiza duas reuniões semanais com os dependentes e familiares. As quartas-feiras das 20 às 22 horas e aos domingos das 19 às 21 horas em sua sede na Avenida Rodolfo Pirani, 616. “Qualquer pessoa pode participar Essas reuniões são boas não só para as pessoas que estão diretas com os problemas, mas também para familiares que aprendem outras formas de lidar com os envolvidos. Em nossos encontros ajudamos a se estruturarem e se reerguerem”, finaliza.


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