Archive for junho 2014
Escritores se reúnem em Itaquera e discutem dificuldades e possibilidades
Sem uma pauta definida escritores residentes ou com alguma relação de ativismo, interlocução ou obras com a região de Itaquera reuniram-se no Centro Cultural Casa da Memória na noite do dia 25 para uma mesa redonda sobre literatura que acabou resultando muito mais focada no aspecto da produção, distribuição e abrangência do que no conteúdo das crias desses autores.
O encontro que reuniu ainda vinte e tantas outras pessoas na plateia, entre estes, alguns outros autores, deu sequência a um encontro anterior que perpassou pela mesma temática uma semana antes promovida por ativistas culturais com fortes vínculos com a região e foi aberta pelo diretor regional de Ensino de Itaquera da Prefeitura de São Paulo, professor Valter de Almeida Costa, ele mesmo, autor de livro recentemente lançado.
A mesa foi composta pelos escritores Zé Carlos Batalhafam, Erorci Santana, Marcio Costa, Ronaldo José, Allan Regis e o jornalista José de Mendonça Neto, entre estes, apenas dois não residentes, mas que já residiram ou ainda com interseção com o bairro de Itaquera. Sem pauta prévia buscaram afinar a viola ao vivo com o respaldo dos presentes.
Para Zé Carlos Batalhafam, com longo histórico de ativismo cultural e de imprensa na região do ponto de produção de literatura as dificuldades que são muitas não devem esmorecer os esforços do escritor. Ele explicou que produzir livros atualmente é estar muito refém dos humores e interesses das editoras que abrem pouco ou quase nenhum espaço para novos autores ou autores ainda não consagrados pela mídia ou optar pelo investimento pessoal de recursos para custeio da obra impressa.
Consenso absoluto. O livro produzido e impresso, porém é apenas parte do processo que se torna ainda mais difícil de distribuição de forma remunerada. Batalhafam ainda destacou fortemente que no seu entendimento os produtores culturais que moram ou produzem a partir das periferias como é o caso tem que assumir o protagonismo rejeitando os rótulos de resistentes ou da resistência. “Somos participes da produção, somos protagonistas das nossas centralidades”, indicou.
Para Erorci Santana que é membro da diretoria da União Brasileira dos Escritores, tendo sido durante um bom período o editor do jornal da UBE e com diversas obras publicadas é isso mesmo. Cidadão do mundo, contemporâneo não lhe pesa o fato de morar e residir na periferia. Em nenhum momento isso foi restrição para determinar inclusive a sua temática que flerta entre a poesia e prosa. Autor visceral brindou os presentes mais a frente com um longo e envolvente poema de cores sombrias, mas muito bem articulado.
Já o jornalista José de Mendonça cuidou de se afastar da redundância dos apontamentos feito pelo Batalhafam sobre as dificuldades da produção editorial e da distribuição dos livros, optou por observar a natureza intrínseca do autor que é escrever para ser lido, nem sempre para ser comprado. “Toda essa dificuldade é de enorme pertinência. É legítimo ser remunerado pelo valor de mercado da sua obra, mas entendo que o eixo principal é ser lido, mesmo que para isso utilizemos todos os novos mecanismos que se reciclam constantemente e que criam possibilidades de difusão, como é o caso da internet”.
O escritor entende que existem possibilidades de se pensar positivamente e criativamente para superar os bloqueios, mesmo que minimamente, que a indústria cultural impõe aos novos e não tão consagrados autores. Defende o foco do autor naquilo que quer e deseja escrever desviando dos humores e exigências do mercado. No que diz respeito a um dos produtos de sua lavra explicou que produziu um livro recente com peças de realismo urbano totalmente focado no que viu, viveu e friccionou dentro do território de Itaquera e da periferia.
Registrou ainda a sua resistência pessoal em produzir literatura. “Trabalho também como assessoria jornalística para novos autores e novos livros. Sei como se dá essa relação quase que de pai para filho e o entusiasmo que a criação gera no criador. Essa realidade me vacinou quanto às expectativas, da mesma forma que me faz reconhecer o meu lugar nessa encantadora seara. Com tantos bons autores, tão bons livros acho um atrevimento quase indevido escrever livros, mas modestamente tenho um espaço na segunda classe”, brincou.
Novo autor saboreia o parto
Marcio Costa, um dos promotores do encontro acabou de lançar um livro de causos; próprios em sua maioria e alguns que podem ser ficção, o autor não revela. Registrou no encontro que as dificuldades são as mesmas já relatadas, mas que o prazer pela escrita e pela produção do seu primeiro livro o levará a outros.
Já para o professor Ronaldo José que, antes de tudo continua demonstrando entusiasmo com a sala de aula escrever dois livros foi apenas consequência de seus nove anos como editor do Jornal do Estudante que focado no segmento informava, esclarecia, noticiava, mas buscava leitor. Seu primeiro livro foi dirigido a esse público entre pré-adolescentes e adolescentes e, segundo testemunhou, teve ótima aceitação.
Ronaldo não precisou repetir as mesmas dificuldades que já haviam sido expostas, optou por deixar o clima mais otimista. Comprometido com a educação mostrou seu segundo livro ainda em fase de tirar as fraldas, foi lançado ainda este ano com a temática da escola pública, aparentemente indicando ser um estudo e ensaio sobre o assunto.
Último da mesa a se apresentar o jovem Allan Regis mora hoje na divisa entre Itaquera e Guaianazes é autor de diversos livros entre eles um registro da história do bairro onde mora do ponto de vista do morador não da elite local, como forma de exercício da cidadania e da boa produção literária. Em sua fala e autorizado pelos presentes leu um de seus ensaios que resumem pictoricamente a história de um escritor na pele de um agricultor com todas as dificuldades e a falta de incentivo para produzir o que mais gosta. Entendido o recado foi aplaudido.
Na plateia ainda foi possível ouvir explicações pontuais sobre as obras e histórico de vida e ação cidadã de dois autores na mesma direção do conjunto dos consensos criados.
Próximos passos
Reconhecendo seus iguais, as propostas de trabalho conjunto de fortalecimento da produção e da circulação literária alguns indicadores foram rascunhados para um futuro encontro. A ideia é discutir e viabilizar formas alternativas de diminuir as dificuldades tendo em vista que do ponto de vista da indústria cultural livros para serem custeados e promovidos pela editora só mesmo dentro de parâmetros já definidos com temáticas que tenham apelo mercadológico mesmo que de gosto discutível. Não é nada disso que querem aqueles autores e leitores reunidos no encontro. (JMN)
Ser contra a copa e assistir aos jogos
Dia desses a arquiteta e urbanista Raquel Rolnik se reuniu com jovens no auditório lotado da Fundação Rosa de Luxemburgo em São Paulo para falar e palestrar sobre o livro Resistências no país do futebol, que estava sendo lançado, quando uma das intervenções de um dos jovens presentes tirou risadas da plateia. A pergunta “Eu sou contra essa copa, eu vou para a rua nas manifestações, como posso então justificar assistir os jogos pela TV apesar desse posicionamento?”. Risos na plateia.
A pergunta, entretanto é muito pertinente ao que Raquel respondeu que a questão não é, e talvez nunca tenha sido, impedir a copa e sim mudar o país o que é muito mais importante e complexo. Acordo pleno deste escriba.
A urbanista tem muita bagagem para tocar no assunto sobre a suposta contradição. De 2008 a 2014 ela foi relatora especial do Conselho de Direitos Humanos da ONU para o Direito à Moradia Adequada, e foi referência internacional no tema da violação de populações afetadas por megaprojetos esportivos. Já havia produzido estudos para os casos da Copa na África do Sul, das Olimpíadas na China e os jogos da comunidade Britânica na Índia.
Coerente com o que estudou e produziu ela é mais uma crítica da apropriação corporativa dos espaços urbanos, aqueles mesmo usados para a instalação das arenas e que para tal graves violações de direitos e leis em nome da Copa do Brasil 2014 foram cometidos. “Quando apresentei o relatório [da ONU], descobri a perversa relação entre as políticas neoliberais urbanas e a organização de megaeventos esportivos, e a ligação entre estes dois elementos e a massiva espoliação dos direitos dos setores mais vulneráveis na cidade. Não por acaso os jogos, ao longo de sua história, foram, a partir de Los Angeles, tomados por operações de marketing, organizadas não pelos Estados, mas por patrocinadores privados. Tem a ver com a globalização dos mercados imobiliários e financeiros, e a financeirização da produção nas cidades e o quanto essas plataformas dos megaeventos são uma vitrine de tudo e da própria cidade, como objeto de venda”, resume a urbanista.
Ainda como consequência é plausível que a organização da copa no Brasil permitiu violações, que em ocasiões normais, não seriam ousadas se cometer. Só foi e é possível em função do nacionalismo estar sendo usado para justificar o que os mais atentos estão chamando de Estado de Exceção. O fato é que o gerenciamento geral dessa copa há muito deixou de estar nas mãos dos Estados e do poder público. São os grandes grupos que definem a macroeconomia que comandam as operações sob a fachada e responsabilidade da Fifa.
Se provas são necessárias podemos exibir o caso da Cidade da Copa no Recife, que foi viabilizada por Parcerias Público-Privadas. A tal cidade foi construída em área do governo do Estado e as tais parcerias decidiram que um consórcio de empreiteiras liderado pela Odebrechet, a mesma que é sócia proprietária da Arena Corinthians, a pegar recursos do BNDES para construir um estádio na tal cidade junto com uma contrapartida generosa de outro enorme terreno para construir imóveis privados tais como moradias de alto padrão, shopping, escritórios. Ou seja, uma série de produtos nada acessíveis ao grosso da população com o beneplácito do estado que ainda ajudou e ajudará financiar o empreendimento. Detalhe: dinheiro público.
Mas para não deixar sem resposta – A urbanista lembrou que as manifestações nas ruas têm alterado muito pouco esse quadro, mas que os efeitos vão transcender a esses aparentes poucos resultados. “Estamos vivendo um novo ciclo que se iniciou com as lutas pela democratização nos anos 80, passou pelos movimentos sindicais e sociais que foram gerando novas institucionalidades, novos partidos e proposições a atual conjuntura”, teria dito. Tem razão, apesar do fato de ainda não se conseguir responder melhor e mais a todas as demandas que apareceram a partir das manifestações de junho de 2013 a situação tende a mudar.
A contrapartida dessa nova situação, que ainda não se acentuou minimamente, por causa mesmo da falta de canais representativos e institucionais no campo democrático são os arroubos de totalitarismo, de militarização e das proposições simplistas e descompromissadas que vira e mexe se ouve das bocas mais dispersas quando, por exemplo, as pessoas dão com as portas na cara quando procuram a saúde pública ou quando tem dificuldades de transporte público. O mais corriqueiro e se queixarem e dizerem que acham “um absurdo esse governo, gastando monte de dinheiro com estádio, devia gastar em hospital. É tudo por causa da corrupção, etc”.
Não dá apenas para dar vazão a esses argumentos falhos e fracos. Eles não ajudam, não esclarecem e não explicam tudo. No mais das vezes repetem as cantilenas simplistas de grande animadores televisivos que se fazem passar por âncoras de notícias. O fato com o qual temos que nos subsidiar para elevar o patamar da crítica é que o que se gastou com a copa não é nada perto dos juros pagos aos banqueiros; do que a gente transfere todo dia pras empreiteiras, pros grandes grupos privados na área de saúde. Isso é muito mais grave. Corrupção de 10% do contrato é grava, mas de menos nessa situação. “Os descontentamentos acabam se misturando”, pondera a urbanista. Muita concordância, de novo. (JMN)
Futuro candidato do PT ao governo visita zona leste
Alexandre Padilha passa por diretório petista de São Mateus em dia de visita a Zona Leste
O pré-candidato a governador do Estado de São Paulo que aparece com 3% ou 4% de intenção de votos a depender do cenário em recente pesquisa do Datafolha passou um dia todo na zona leste da cidade de São Paulo e, ainda pela manhã, compareceu ao Diretório Zonal do Partido dos Trabalhadores de São Mateus onde foi recepcionado por filiados e simpatizantes. Teve ainda extensa agenda até finalizar em plenária nas Obras Sociais Dom Bosco, em Itaquera na noite da mesma sexta-feira, dia 06.
Deverá crescer nas pesquisas e a sua imagem pública de médico e homem moderado, como o atual governador Geraldo Alckmin (PSDB), também candidato, deverá deixar ambos, e as campanhas, em tons ligeiramente parecidos.
Antes de falar aos presentes que incluíam parlamentares como Adriano Diogo, deputado estadual e Juliana Cardoso e Paulo Fiorillo, vereadores petistas, além de pré-candidatos a Câmara como Andrés Sanches, tido e havido como bom puxador de votos para a legenda, Padilha ouviu diversas considerações sobre as necessidades da região, notadamente para suprir as carências da área da cultura.
Os militantes do partido ou da área cultural buscaram evidenciar essas carências desfilando reclamações e demonstrando o quanto essa área tem sido preterida através dos tempos. Coube a Claudete representando o presidente do DZ que não estava presente no inicio do encontro e ao vereador Fiorillo a abertura da reunião. Um dos primeiros a falar, o deputado estadual Adriano Diogo, satirizou o fato do acesso da caravana a São Mateus não poder ter sido feito pelo Monotrilho, do qual duvida sobre a sua implementação e extensão até a periferia.
Padilha pode ouvir dos presentes que nos três imensos distritos de São Mateus, mal funciona e existe casa de cultura. Apenas uma, até então instalada em uma casa que era de educação infantil. Existe a previsão de um novo espaço de mais de 1300 m2 no distrito São Rafael, mas que depende de iniciativas da Prefeitura lembrou um dos ativistas. Outros ainda lembraram que a periferia de São Mateus tem certa efervescência cultural com distintas produções que vão de música a teatro e que outro programa que poderia ser adotado pelo governo do Estado aos moldes do programa VAI de valorização das iniciativas culturais da Secretária Municipal da Cultura seria interessante. Outros lembraram ainda da importância de ampliação dos pontos de cultura, programa do Ministério da Cultura.
O completo abandono dos telecentros, espaços para iniciação digital e em informática foi registrado, bem como os espaços ociosos dos centros desportivos municipais, os CDMs, de responsabilidade da prefeitura. Não faltou também quem registrasse a insustentável situação da saúde pública e gratuita na região, assunto que tem sido exaustivamente tratado por este jornal.
Programas para jovens e prevenção contra os abusos de álcool e drogas
Lideranças presentes como Jerônimo, do Jardim São Francisco cobrou a necessidade de se criar áreas de lazer naquela localidade. Já Hamilton Clemente lembrou ao pré-candidato sobre a necessidade de se olhar mais atentamente para a questão do abuso de álcool e drogas e a necessidade de programas para as regiões periféricas. Clemente recomendou que os governos levassem em conta a contribuição que certas entidades podem dar. Para ele os governos deveriam estabelecer convênios com algumas destas para somar esforços nessa importante batalha.
Padilha convoca militância a ir aquecendo os motores
Ciente de que a legislação eleitoral restringe a mobilidade e a exposição dos pré-candidatos, o ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha tem participado de caravanas pelo interior do estado e na capital sempre em locais fechados e dirigidas especialmente a filiados ao próprio partido e simpatizantes diversos. Demonstrou, também, estar bastante animado e feliz com as acolhidas, conforme resumiu ao final do dia, de novo, em Itaquera.
Enquanto em São Mateus, entretanto, registrou que esse momento é de ouvir, debater e eventualmente agregar proposições que possam compor seu plano de governo que deverá começar a ser definido após as convenções oficiais logo após a Copa do Mundo. A ideia dele é entre julho e agosto já correr trecho, nas ruas, condomínios, no comércio e nas comunidades debatendo e tentando melhorar as expectativas de voto. Não deixou de convocar a militância para essa árdua tarefa. Apesar de considerar que nunca estiveram tão boas as chances do PT vir a disputar o governo do Estado, alertou para as dificuldades e a necessidade do empenho de todos. “Vamos nos reunir e conversar. Estaremos preparados para essa campanha, mas com certeza ela será muito dura, em função da enorme preocupação de nossos adversários que temem tanto pela nossa chegada como pela reeleição da presidenta Dilma”.
“Teremos que ter capacidade para mostrar como de fato a vida mudou e esse debate terá que ser feito de modo especial com os mais jovens, alguns deles muito distante de todas as lutas e até mesmo da primeira eleição do PT ao governo federal. Devermos valorizar nossas conquistas e mantê-los temerosos sim da reeleição da Dilma, das boas condições de saúde do Lula e das nossas reais chances de governar o estado”.
Padilha fez também considerações gerais sobre a forma com que o atual governo atua no transporte coletivo, priorizando com melhores “produtos” as áreas centrais e mais ricas da cidade. Para tanto comparou a qualidade do metrô entre esse centro da cidade e as periferias.
Falou ainda do programa Mais Médico, ressalvando que a proposta não era uma solução definitiva e completa para a precariedade da saúde pública, mas, sim, uma iniciativa importante que já produz frutos reconhecidos pela população Brasil afora. “Essa é outra das diferenças. Conseguimos fazer em três anos o que eles não fizeram em 20”. Padilha voltou a se referir ao temor dos adversários de que essas proposições sejam implementadas no Estado de São Paulo.
Falou ainda sobre ações possíveis e tratamentos diferentes nas áreas da educação e cultura. ”O PT governa apoiado na força do povo. Damos apoio a quem faz e for criativo. Faremos questão de que essas coisas apareçam. Vamos apostar na força da cultura. Vamos valorizar os jovens e transformar a escola em espaço vivo de cultura, esporte e inclusão”. “A periferia de São Paulo vive um momento rico de cultura com saraus literários, músicas artesanato, teatro e etc. Vamos valorizar tudo isso. Eles (os adversários) temem tudo isso; nosso vigor. Vamos dar chances para os jovens irem para as universidades, cotas para negros, cotas para estudantes da escola pública, escolas técnicas”.
Não faltou ainda crítica ao governo do Estado com relação ao abastecimento de água na cidade. “Os técnicos vem nos últimos dez anos apontando a necessidade de obras para reduzir a dependência da capital do sistema Cantareira. Nada dessas recomendações saíram do papel por responsabilidade do governo. Agora estamos nessa situação”.
Padilha ainda seguiu para um almoço onde cada um pagou sua despesa
Saindo de São Mateus, Padilha partiu animado para o restante da agenda do dia que incluiu um almoço com correligionários, conversas no mesmo tom em outros bairros e no começo da noite com o mesmo tom nas Obras Sociais Dom Bosco, onde reuniu centenas de simpatizantes, parlamentares e lideranças locais. Saiu entusiasmado da maratona. (JMN)

