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Além da tristeza, sepultar alguém exige paciência

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No início de abril notícias davam conta que em São Paulo a remoção de um determinado corpo pelo serviço funerário do município para o Instituto Médico-Legal onde precisaria passar por uma necropsia demorou mais de 24 horas. Depois, tantas outras horas no Instituto Médico-Legal e velório. A coisa foi longe.

Tanta demora só não incomoda mesmo é o morto. De resto na cidade de São Paulo, os preparativos para o transporte do morto, a liberação do corpo, o início de velório e até o sepultamento quando se depende de serviços municipais e estaduais podem se transformar em muita canseira além de aumentar o drama da cena entre os parentes nessa situação.

Se morrer alguém, além dos eventuais problemas que a perda em si poderá acarretar, os procedimentos que se seguirão são difíceis. Se fica a tristeza entre os entes queridos, nessas ocasiões os encaminhamentos ficam dependendo dos carros funerários que levam os corpos para cemitérios ou antes, ainda, para os poucos locais onde é possível se fazer os serviços de verificação de óbito de responsabilidade do governo do estado. Essas viaturas quando tem muitos pedidos fazem malabarismos extras para se locomover pela cidade grande com o trânsito caótico de todo dia.

Quando é preciso então fazer verificação de óbito nos institutos médico-legal, duas unidades mais conhecidas aqui dos moradores da zona leste ficam nas Clínicas em Pinheiros e em Artur Alvim. A entrada e liberação do corpo de um morto para sepultamento de forma rápida pode demorar, no mínimo, 8 horas. A razão disso nem sempre é pelo excesso de cadáveres a ser investigado, mas também pelo quadro mínimo de profissionais qualificados e habilitados para os procedimentos que se utilizam de protocolos de saúde cada vez mais eficientes.

Quando a morte envolve situações que precisam ser investigadas a demora é previsível, entretanto muitas das queixas sobre a demora se referem aos casos de remoções por morte natural. O velório da mãe de uma estudante, uma senhora de 54 anos na zona norte de São Paulo só aconteceu dois dias depois de sua morte. Na mesma região em fevereiro deste ano o corpo de outra mulher, de 79 anos, ficou mais de um dia à espera de remoção em um hospital da zona norte, para onde foi levada após passar mal.

No primeiro caso, apesar da mãe ter morrido em casa aparentemente de causas naturais, o procedimento foi comunicar o ocorrido no Distrito Policial e solicitar a remoção do corpo. No dia seguinte, os familiares ainda estavam esperando o corpo ser transportado ao Serviço de Verificação de Óbito da Capital (SVOC), órgão estadual.

Foi um caso típico que revela a baixa eficiência do serviço que envolveu delegacia de polícia, do estado e serviço funerário, um órgão municipal. No caso específico o serviço funerário alegou ter sido avisado apenas após a segunda vez em que a família foi a delegacia. A Polícia Civil diz que avisou desde o começo. Eles não se entendem e quem paga é a família.

Outro caso que vale ser lembrado é o da professora Maria Sílvia Meireles, de 61 anos, que relatou a demora no atendimento da agência funerária do Araçá, vinculada à Prefeitura. Seu pai, o neurologista José Lamartine de Assis, de 99 anos, morreu no dia 19 de fevereiro e a família optou por esperar até o dia seguinte para contratar o funeral. Terminado o atendimento às 9h50, avisaram amigos e parentes que o velório começaria ao meio-dia. O corpo chegou às 14h30. “O velório começou sem o meu pai estar lá”, contou Maria Sílvia. Segundo ela, funcionários alegaram falta de carros no serviço.

O que a situação revela é que morrer, fazer velório e sepultamento na cidade de São Paulo pode exigir dos envolvidos um esforço extra além da tristeza. Aparentemente a situação deve permanecer assim, uma vez que funcionários do serviço funerário revelaram que apenas três carros com capacidade para um corpo atuam nas remoções, sendo que os veículos de maior capacidade vivem nas oficinas. Nessas condições nenhum espanto quando dois corpos ocupam a mesma gaveta, embora a prática seja proibida.

Já a direção do Serviço Funerário diz que a espera média é de 3 horas e que a frota disponível é composta por três “rabecões”, com capacidade para quatro corpos, e quatro saveiros, para um. Durante as reportagens do começo do ano havia a previsão da chegada de seis veículos, para três corpos cada. Cerca de 200 pessoas morrem por dia na capital, entre mortes por causas naturais e violentas. Para os demais serviços, como traslado para cemitério, são 60 carros.

Resumo do rosário: em caso de falecimento junto muita paciência a sua tristeza pois você vai precisar até que a situação deixe de ser tão desastrada. (JMN)

Written by Página Leste

28 de maio de 2014 às 12:21

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