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Plano de fuga, mas de quem?

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A notícia de que a polícia descobriu um plano do Primeiro Comando da Capital PCC para resgatar a sua liderança inconteste, o preso Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola e, utilizando para tal façanha, um aparato digno de fita de ação no cinema pode ter mais de ficção do que possa imaginar nossa vã compreensão.

A revelação está em relatório sigiloso da inteligência das Polícias Civil e Militar e ainda Ministério Público Estadual. Diz, entre outras coisas, que três integrantes da facção tiveram aulas de voo em 2013 no Campo de Marte e o professor foi Alexandre José de Oliveira Junior preso em novembro do ano passado no Espirito Santo pela Policia Federal quando descarregava 450 quilos de cocaína da aeronave de um deputado. A investigação revela que a facção montou uma base no Paraná.

Um plano mais ou menos assim: aeronaves compradas ou sequestradas em São Paulo pousariam em Loanda, na região de Maringá, onde carregariam a tropa de assalto do PCC. Seriam dois helicópteros – o Esquilo é o modelo usado pela PM. A intenção dos bandidos era camuflá-lo para que policiais que guardam a muralha da Penitenciária-2 de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo, o confundissem com um helicóptero Águia.

Ocorre que não parece muito plausível um plano que envolveria um avião Cessna 510, um helicóptero Bell e um Esquilo blindado e equipado com uma metralhadora, calibre ponto 30 e um assalto a penitenciaria possa dar certo. É preciso lembrar que o preso citado e outros três líderes que também aparece nas investigações estão cumprindo penas em condições e em presídios especiais com bom nível de segurança e onde uma ação espetacular dessa teria grandes chances de dar errado.

Diante dessa expectativa de risco muito evidente, pode-se intuir algumas possiblidades e entendimentos. Uma delas pode ser que a decisão de tentar a fuga, apesar do risco seria ainda melhor do que cumprir a pena em regime de privação da liberdade. Naqueles termos mesmo de quando não se tem nada a perder que se arrisque tudo. Se essa primeira situação é real, não há muito que se espantar diante da audácia mesmo dos envolvidos que aparentemente não parecem ter a ideia exata do tamanho do risco.

Aparentemente foi feito um roteiro onde o fator surpresa da presença dos sequestradores nos presídios fosse o suficiente para resolver as inúmeras pequenas providências que teriam que ser tomadas para que um plano dessa natureza dê certo.

Comecemos pela sincronia das ações, ou seja, sequestradores e sequestrados teriam que estar plenamente afinados para estar cada qual fazendo a sua parte em tempos fielmente iguais. Continuemos então pela dificuldade que se apresentaria uma das providências listadas. Os próprios detentos teriam que estar em locais e em posições que permitisse o resgate, o que não seria tão simples assim de ocorrer em pátios, mesmo que desprovidos de cobertura com rede eletrificada ou blindadas.

A simples hipótese de eles terem que se posicionar em locais diferentes e de mais fácil acesso a um cesto de helicóptero, por exemplo, estaria bem fora da rotina diária deste tipo de preso, em tese com monitoramento permanente do equipamento prisional.

Algum desavisado pode especular com o alto poder de persuasão em termos financeiros mesmo para comprar esse tipo de facilitação por parte dos carcereiros. É de se duvidar que isso seja possível, tendo em vista que uma postura dessas por parte dos carcereiros é praticamente impossível de passar despercebida e uma eventual condenação por facilitação não deve estar no desejo de qualquer um. Existe outra hipótese que especula que um desses carcereiros facilitadores possa estar sendo coagido de alguma forma em termos de violência contra familiares e isso é mais plausível que a situação anterior.

Apesar disso, o que se percebe é que esse plano está mais para delírio e blefe do que outra coisa. Delírio, caso essa armação tenha algum sentido de realidade e um blefe, caso o PCC queira demonstrar que tem planos, que não precisa necessariamente ser esse e que ainda é um importante peão nesse jogo da segurança em São Paulo.

O problema é que existe também a hipótese levantada por alguns de que a revelação de um possível plano possa ser uma invencionice da própria Secretaria de Segurança ou do próprio governo para jogar para a plateia, ou seja, para a sociedade demonstrando que tem competência; que está atenta e que, apesar de tudo estão sempre passos à frente dos criminosos.

Uma demonstração de competência investigativa como essa também traria um pouco de reforço na moral da segurança pública que de certa forma tem sido questionada e criticada ao longo de todo o período recente.

Essa hipótese, entretanto, também tem a consistência de um sorvete fora da geladeira. Algumas fontes indicam que o plano mirabolante existia de fato, entretanto era apenas uma sugestão surgida e construída em alguns momentos, mas que ainda não estava aprovada pelos principais interessados na fuga.

Diante dessa possibilidade e pelo sim pelo não, a segurança entendeu por bem divulgar a existência desse possível delírio, no mínimo almejando abortar eventuais tentativas nesse sentido. (JMN)

Written by Página Leste

1 de abril de 2014 at 15:02

Publicado em Sem categoria