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Altvater e o folk da terra roxa que amadureceu e foi viajar

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Lá para as bandas do norte pioneiro do Paraná, em 2005, Antônio Altvater foi convidado para se fazer de vocalista em uma banda, supostamente considerada de rock, por seus integrantes. O ambiente, uma escola comum de ensino médio. A escolha foi por eliminação e optou-se pelo mais competente entre eles. Foi desde essa época que a música o pegou de jeito. ”Senti-me na obrigação de servi-la”, diz o cantor, compositor e instrumentista que vem dando passos largos e rápidos na carreira.

Altvater nasceu em 1988 na cidade de Santo Antônio da Platina, no norte pioneiro do Paraná, nacionalmente conhecido como o “Ramal da Fome” e durante a sua infância e pré-adolescência a música apenas passava pelos seus ouvidos e o cérebro, como tudo mais. Eclético pelas circunstâncias escutava diferentes gêneros e estilos musicais por conta da preferência de familiares. “Especialmente meu avô que era fascinado por rádio em bom e alto volume”. Por parte do pai as obras de artistas como Almir Sater e Renato Teixeira, pelos quais ainda nutre admiração e respeito deitou influências.

Como todo pré-adolescente que se preza as primeiras opções e tentativas artísticas, digamos assim, passaram pelo desenho que segundo ele ”era a forma de desligar do ambiente escola que em certos momentos me parecia um tanto hostil”.

Após a experiência com a banda do colégio, vários outros projetos contaram com a participação do músico. É dessa época que; escrever, compor e cantar suas próprias experiências afloraram. Duas emergências e estradas a partir daí. Primeiro achar os seus pares entre outros músicos, o que não foi nada fácil no estreito universo de uma cidade de 40 mil habitantes isolada de qualquer circuito cultural e, segundo, atentar os ouvidos para artistas ditos alternativos; lado b, fora do circuito das grandes mídias.

Passo perigoso, mas necessário. A alma sensível revelada no artista em construção andou por caminhos que ajudaram a dar substância ao que é hoje, entretanto, na época, entre o afloramento da primeira emergência: encontrar os seus pares e a segunda um hiato. Trabalhou durante a manhã e tarde em um clube de campo na cidade enquanto cursava o primeiro ano de História na cidade de Jacarezinho.

Foi picado mesmo pela mosca nessa época, quando um colega de serviço apresentou via computador o disco Harvest Moon de Neil Young. Lembra como se fosse hoje do convite à audição, “Cara, você que toca gaita de boca e violão, vai se amarrar nesse som”. Atrás, ao lado ou a frente do HM vieram recomendações primordiais. “Foram manhãs e tardes, durante o expediente, ouvindo a discografia do Bob Dylan”, sentencia. Caminho aberto veio o Automatic  for the People do REM, Alceu Valença e alguns outros que fizeram aflorar lenta e gradualmente a vontade de voltar a tocar e compor.

Era, entretanto, apenas vontade interna e exercícios para si mesmo até que em 2009, uma namorada, à época, o apresentou a uma banda da cidade de Wenceslau Braz, Pátria Fúria, que além de executar material próprio em seus shows, fazia covers de Stones, Beatles, Led Zeppellin, Zappa, Cream, e outros do chamado rock clássico. “A primeira vez que assisti a banda tocando, fiquei muito impressionado, porque nunca tinha escutado uma banda tocar um repertório que destoasse tanto das bandas convencionais de Pop/Rock existentes na minha região, que tocavam o top 10 das rádios na época e a Pátria fúria fazia isso com uma propriedade invejável”.

Na trilha certa e no caminho

Não haveria de ser impunemente tanta influência. Formou um power trio com Bruno Cardoso no contrabaixo e Luis Guilherme Pereira na bateria. O Plues ia seguindo na fórmula que é muito comum no blues tradicional norte americano, chupando e executando, dentro da limitação do trio, o repertório da banda que tanto o havia impressionado ao mesmo tempo em que adicionava novos sons que, agora, o seu ouvido muito atento ouvia. Queen of the Stone Age e Supergrass e algum material próprio fez a banda extrapolar sua condição de copiadores participando de festivais na região do norte do Paraná, em rádios e uma entrevista para uma televisão de Curitiba.

Fim do Plues e upgrade do Altvater

Altvater explica que divergências entre os dois outros participantes inviabilizou a continuidade da banda, mas a alavancada conseguida com o trio, o fez ter certeza e a vontade de fazer seus trabalhos na proposta folk. Violão e harmônicas foram usadas então para dar leito às composições que compunha. Produtivo, começou a mostrar suas composições em blog próprio. “Juntei todas as influências de blues e folk que tinha assimilado durante os anos de curiosidade musical e fui misturando com as minhas novas e velhas referências de música”. Era o caminho.

A partir daí novos horizontes foram abertos, primeiro em sua região, mas com certeza isso não vai ficar assim. A internet simplesmente mandou aos novos ares e para novos locais o seu som muito característico. Nas proximidades foram surgindo inúmeros convites para show além dos limites do seu amplo quintal, o norte pioneiro do Paraná. A capacidade produtiva, talento e presença de palco já haviam sido testados e aprovados em 2011 durante uma breve passagem como integrante da Pátria Fúria.

Em 2012 novas portas e novos horizontes para onde o seu talento vai levando o fez fixar residência em Curitiba e a começar a trabalhar exclusivamente com música. Conforme ele mesmo diz “O desafio não é dos mais fáceis, tanto que nos últimos meses tenho vivido uma espécie de rotina nômade, me deslocando de Curitiba para o norte pioneiro com certa frequência, fazendo apresentações aonde consigo”.

São demais os perigos dessa vida para quem tem paixão

A frase catapultada de uma música do poeta Vinicius de Moraes pode indicar que tantos e tão grandes são os riscos, mas o juízo sobre a obra do Altvater desse repórter e de muitas outras pessoas dá um contraponto e um reconforto para a difícil caminhada. “O caminho é esse e você tem pernas e fôlego para percorrê-lo”.

Não é ingênuo, nem cultiva ilusões. Altvater conhece a conjuntura e explica “Se viver de música já é uma tarefa muito difícil, mais ainda quando você resolve abraçar uma proposta artística um tanto quanto diferente do que está em alta no mercado, essas dificuldades triplicam de tamanho. Considero a minha carreira folk muito recente. São apenas três anos e quatro discos autorais lançados no sessaosonora.blogspot.com (Sessão Sonora I, Sessão Sonora II, Medo da cidade, Sobras). Sendo assim, tenho muito ainda que amadurecer e desenvolver como artista”.

Concordamos em gênero e grau. (JMN)

 

“Certa vez, recebi algumas críticas sobre o meu trabalho. Diziam que eu não era um “Folker” genuíno, por em certas composições estar flertando com outros gêneros musicais. Pra mim, a concepção de folk não é somente a gaita de boca e o violão. O folk foi feito pra contar histórias, e é isso que eu faço. Seja em canções que destoam mais do padrão como Bossa Nova Blues, Dulce Mañana, eu estou contando histórias. Nesse ponto, a música se aproxima muito da fase de desenhos na escola, uso ela pra escapar, pra falar das coisas que me marcaram. Ponte ao passado, Bússola das horas, Central, em todas as canções desse meu trabalho, eu me torno um pouco autobiográfico. Se elas acabam servindo para alguém que as escuta, ai é uma outra questão. Primeiramente eu faço a minha música pra mim”. Antônio Altvater

 

Written by Página Leste

1 de dezembro de 2012 at 11:02

Publicado em Sem categoria

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