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Enquanto resgata memória local, autor entrega poesias

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“Não dá pra dizer que a gatinha de Ipanema ou a patricinha dos Jardins, em São Paulo, leiam mais que as dos subúrbios. A dificuldade da literatura, e da cultura, de modo geral, além do alto preço dos produtos”, Batalhafam

Enquanto projeta para 2011 o lançamento de um livro de memórias com a história do bairro onde cresceu, na Vila Nhocuné, zona leste da cidade de São Paulo enfocando sua ocupação e desenvolvimento entre 1872 e 2000, Zé Carlos Batalhafam vai poetando.

Segundo Batalhafam, o autor acha que escolhe o gênero, mas, em geral, é o gênero que escolhe e define o autor. Argumenta que, no seu caso, a natureza definiu a poesia como meio. “Escrever, ser poeta, contista, romancista não é uma ciência exata. É mais visceral que racional. Era ser poeta ou não ser”, afirma, enquanto se esforça em busca da variedade em contos e romances como forma de superar o visceral. O autor atendeu ao chamado de ser poeta a partir de quando a definição mais orgânica do belo se elaborou. “A consciência brota das formas mais inusitadas. Não é algo racional como parece e foi na adolescência; na descoberta do mundo, da ideologia e daquilo que imaginei melhor para o mundo, para mim e para o outro”, esclarece.

Sem temáticas específicas, as questões existencialistas afloram mais, apesar de entender que as pessoas são responsáveis pelos seus destinos, acha que as questões transcendentais estão presentes. “Há mais coisas entre o céu e a terra; que vogais e consoantes”, adapta, sorrateiramente, a frase. Amor, política, desejos, solidariedade, natureza, o tudo ou nada, os anjos e demônios que nos tocam são tratados na lavra do poeta.

Na periferia, na maior parte de sua longa e profícua vida, Batalhafam considera uma grande injustiça na sociedade, tal qual está organizada, é a escolha que fazem os que dominam os meios de comunicação. “Os periféricos inéditos, só o são, por que os ‘donos da mídia’ assim o querem. São os dominadores que definem o alcance do dominados”, enfatiza, mas indicando saídas, acrescenta “Nós, poetas periféricos, cada vez mais vamos descobrindo e inventando meios para superar este estado de coisa. A internet é um desses meios. Chegamos a um número maior de leitores e vamos quebrando a ditadura neste setor também. E, não tivéssemos outros meios, ainda teríamos nossas vozes, nosso corpo, nosso olhar e nós mesmos enquanto expressão de vida”, finaliza.

Indagado sobre quais frestas poderiam ser essas de superar o “estado das coisas”, Batalhafam explica que o autofinanciamento é um princípio onde o autor não se permite ser explorado, como ainda é no mercado editorial. “Quando lancei meu primeiro livro individual depois de muitos fanzines, optei por editar por conta própria e vendê-lo pessoalmente aos leitores. Trás limitações, mas é imensamente saudável”, explica.

Primeiras leituras e influências
Depois das didáticas estórias em quadrinhos, suas leituras não foram só poesias. Foram os russos que chegaram primeiro. Escritores que sequer foram poetas, como Máximo Gorki e Leon Tolstói. Na poesia, vieram juntos: Mayakóvski, Iessiênin e Bóris Pasternak, autores trágicos, realistas que em maior ou menor grau foram comunistas e, da mesma forma, devorados pelo regime.

Batalhafam explica que só mais tarde, década de 70, leu os ingleses: Lord Byron, Percy B. Shelley, William Wordsworth e alguns escritores anarco-socialistas, como Willian Godwin; mais leves, espirituais, românticos, até finalmente ser tragado pela lusofonia em Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Mário Quintana, Carlos Drummond. Apesar disso, registra que a influencia mais presente na sua escrita é de Moacyr Felix, poeta carioca, Drummond, Bandeira e, poetas concretos como Haroldo e Augusto de Campos e mais contemporaneamente Paulo Leminski. “Na verdade não há muita escolha e, a razão é simples: somos produto do nosso tempo; buscamos a originalidade, mas a referência fica impregnada. É preciso muito sabão cultural para alisar a pele e criar as próprias rugas, a expressão própria. É isso que busco no ato de escrever”, sentencia.

Poesia é coisa da elite?
Diante de premissa proposta pelo repórter de que os leitores preferências de poesia têm um maior acumulo em termos de informação e formação literária, Batalhafam concorda, mas vai além. “Entre um quilo de contrafilé, carne moída, ovos, qualquer bom livro fica para depois; essa é uma questão basal, assim como qualquer bom jeans, blusinha ou produto de marca, também vem antes e isto é uma questão de mercado”, acrescenta. No entanto para ele, a incapacidade de leitura não é algo que se localiza apenas nas populações dos subúrbios urbanos ou favelas.

“Há ótimos leitores e escritores nos subúrbios; com muito boa formação e informação literária. Não dá pra dizer que a gatinha de Ipanema ou a patricinha dos Jardins, em São Paulo, leiam mais que as dos subúrbios. A dificuldade da literatura, e da cultura, de modo geral, além do alto preço dos produtos, da má distribuição e até mesmo da má qualidade do que se produz que fica mais agudo, sobretudo, pelo fato de que não há o hábito da leitura. No Brasil, consome-se pouca cultura; lê-se muito pouco. A cultura, e a literatura de modo particular, são tidas como artigos supérfluos.  Daí a importância de insistirmos; buscarmos meios, brechas e formas novas e mais atraentes. É preciso disputar corações e mentes; pois, ninguém escreve, exclusivamente, para si mesmo. O público, o outro, é o alvo.

Por fim, estão disponíveis do autor: o: Trilogia das Palavras e O Conto Brasileiro Hoje; ambos pela RG Editores. Interessados podem fazer contato pelo e-mail batalhafam@ig.com.br. Para simples leitura, alguns poemas disponíveis no: www.luso-poemas.net; www.recantodasletras.uol.com.br/autore/batalhafam; e www.poetasdelmondo.com. (JMN)

Written by Página Leste

4 de janeiro de 2011 às 16:33

Publicado em Sem categoria

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