Archive for janeiro 2011
Movimento discute e sugere cursos de extensão para a universidade federal na zona leste
Convocados pelo Movimento Nossa Zona Leste que luta pela instalação da universidade federal naquela adensada região de São Paulo, mais de trezentas pessoas se reuniram na noite do dia 27/01 no Salão da Igreja São Francisco de Assis, em Ermelino Matarazzo para organizar as sugestões das linhas de atuação e de cursos de extensão. Como explicou o Pe Ticão, durante a abertura dos trabalhos, faz parte da atividade intrínseca de uma universidade o ensino, a pesquisa e a extensão que, grosso modo, significa levar as comunidades de fora da escola os saberes desta.
Como é característica do movimento; fazer acontecer a cidadania com a efetiva participação da população, a reunião propunha tirar encaminhamentos para um encontro que ocorreria no dia seguinte pela manhã com a Pró-reitora de Extensão, profa Dra Eleónora no mesmo local e que a reportagem não conseguiu acompanhar.
O plenário reuniu-se inicialmente para referendar e estabelecer prioridades entre 13 propostas distintas as quais foram agregadas mais outras sete sugestões que após serem apresentadas foram discutidas mais especificamente pelos grupos de interessados.
A instalação de cursinhos pré-vestibulares foi o destaque entre as sugestões. Trabalho em escolas e entidades em saúde preventiva com ênfase na questão dos dependentes químicos; trabalhos com a população idosa; cursos preparatórios para jovens aspirantes ao primeiro emprego; cursos de fomento da produção em arte e cultura; esportes, mulheres, trabalhos com deficientes, bem como a instalação de unidades de controle e monitoramento permanente da qualidade dos alimentos consumidos foram citados junto com ações e cursos que qualifiquem o trabalho do conselho tutelar. A instalação de observatório de políticas públicas, proposta do GT de Educação do Fórum para o Desenvolvimento da Zona Leste e ainda outras com enfoque na educação e gestão ambiental foram citadas e defendidas por lideranças.
A idéia é estabelecer o diálogo com a Unifesp para definir e viabilizar o que já pode ser feito em 2011 antes mesmo da instalação e funcionamento da unidade prevista para ser instalada na Avenida Jacu Pêssego em antigo terreno de uma empresa metalúrgica, conforme definido pela mobilização do movimento que conseguiu o comprometimento do governo federal na empreitada e do prefeito Gilberto Kassab para a compra do terreno.
São duas ações paralelas e concomitantes. Manter contato com a Unifesp mostrando a importância da instalação de um campus local em função da enorme demanda e concentração populacional e pressionar a Prefeitura para que honre seu compromisso, assumidos publicamente pelo prefeito em assembléia local para regularização da posse do terreno.
Para tanto está previsto nova reunião no dia 26 de fevereiro no mesmo local onde se espera a presença do prefeito. Nessa direção não faltou incentivo para que as pessoas busquem formas de pressionar o prefeito a comparecer. Se por parte da população é possível ligar, enviar e-mails, fax diretamente ao prefeito, foi sugerido aos assessores de deputados federais, estadual e vereadores presentes empenho redobrado.
Presente ao local, o deputado federal Carlos Zarattini (PT/SP) foi convocado pelas lideranças a agendar reunião preliminar com o prefeito. Assumindo compromisso com a tarefa, Zarattini também destacou durante a sua participação a necessidade do movimento pressionar para que a nova unidade da universidade federal na região disponibilize cursos como o de Medicina, Engenharia e outros cursos de ponta no que foi apoiado pelos participantes.
Além do deputado esteve presente na reunião o Comandante do 39º BP/PM região leste, Capitão Cruz, morador da região e que comentando sobre as dificuldades para a continuidade dos estudos e terceiro grau e o evidente benefício que pode ser contar uma universidade de ponta na zona leste se considera mais um cidadão empenhado nessa luta. (JMN)
Oportunismo: novos eleitos tentam se cacifar em lutas das quais ainda não fazem parte
É isso. Alguns entre os novos eleitos ao parlamento por São Paulo em Brasília e na Assembléia Legislativa por obra e graça dos votos obtidos com apoio na zona leste de São Paulo já começam a mostrar a má prática sugerindo que permanece tudo com dantes no quartel de Abrantes.
Mal se investiram dos mandatos, ainda em fase de dar conta dos acordos com “apoiadores” que devam ser representados guindando pessoas a cargos dentro da assessoria, estes deputados já se consideram como automáticas e autorizadas as suas presenças junto às lutas do movimento social. Não é bem assim que a orquestra toca.
Não basta ter sido apoiado por ativistas sociais dos mais diferentes matizes que tem os pés fincados nas lutas locais para imaginarem-se participes. Existe um ritual de passagem, se é que podemos definir assim ou uma lista de chegada.
As lutas populares, notadamente na zona leste da capital, tem sido palco da entrada, saída, presença ou ausência de mandatos sendo que apenas alguns poucos podem ser reconhecidos como participantes ativos e autorizados. Lideranças locais estão calejadas com esse comportamento.
Apenas para ficar num exemplo de maior visibilidade, alguns dos novos eleitos já se imaginam inseridos na luta pela universidade federal na zona leste apenas pelo fato de que algumas pessoas do movimento terem o ajudado em suas respectivas campanhas. São duas coisas distintas. Num momento o ativista empresta ou vende seu apoio a determinada candidatura e noutro, passado as eleições, volta para seu ativismo corriqueiro dá mesma forma que o parlamentar vai cumprir suas obrigações, quando o faz. O fato de ter o apoio de determinada liderança não é autorização suficiente ou bilhete de passagem para que o eventual eleito faça automaticamente parte das lutas já em curso.
A lembrança de forma insinuada dessa diferença, neste instante que se inicia uma nova legislatura, se faz oportuna na tentativa de evitar que ações destrambelhadas e aparelhistas de mandatos se façam sentir nas lutas em curso.
A presença de mandatos pode ser bem vinda sim, mas, antes devem ser provadas e aprovadas fora do período eleitoral e mais: com mandato na mão é preciso ir além e demonstrar seu compromisso contínuo com as causas o que não é uma ação que a maioria dos parlamentares percam tempo.
Vale o aviso, uma vez que, pelo menos no aguerrido movimento social da zona leste a recepção a esses oportunismos, com certeza não será das melhores. Se chegar pode, mas não querer a “janelinha” já nas primeiras viagens.
Curso Gratuito de Horticultura Urbana na Zona Leste de São Paulo
Projeto de educação ambiental da Ong INRI promove o desenvolvimento das práticas de cultivo em pequenos espaços.
Terá início dia 31 de Janeiro o curso gratuito de Horticultura Urbana e Orgânica, que tem como objetivo capacitar a comunidade local para o cultivo e manejo orgânico de hortaliças em pequenas dimensões de terreno, utilizando garrafas PET, vasos e etc.
As oficinas serão compostas de aulas práticas e teóricas, na qual os participantes aprenderão a preparar o substrato (solo), drenagem, selecionar e preparar as mudas, semear e produzir compostos orgânicos através dos resíduos sólidos produzidos em casa, que habitualmente é destinado ao lixo, diminuindo assim, a quantidade de resíduos
produzidos nos lares, beneficiando o meio ambiente.
O curso de Horticultura Urbana e Orgânica é uma etapa do projeto “Trilha Plena dos Sentidos”, desenvolvido pela OnG INRI – Instituto Nacional de Renovação Integrado, tendo como financiador o FEMA SP – Fundo Especial do Meio Ambiente e a Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente de São Paulo, e tem como objetivo sensibilizar e mobilizar a comunidade e entorno da Vila Guilhermina através da educação ambiental para agirem de forma sustentável, respeitando qualquer forma de vida e deixando o ambiente melhor para as futuras gerações.
As oficinas serão desenvolvidas no Viveiro Ramá, que fica na Rua Dourados, n° 7, Vila Guilhermina, próx. Ao Metrô. As inscrições são gratuitas, com vagas limitadas e podem ser feitas na sede do INRI, que fica na Rua Dr. Campos Moura, 408, Artur Alvim ou através do telefone (11) 2743-8152.
O curso será nos dias: 31/01, 02/02, 07/02 e 09/02/2011. Períodos de manhã ou tarde. Carga horária: 16h.
Nossa São Paulo apresenta indicadores de Bem-Estar na cidade
A Rede Nossa São Paulo apresentou na manhã do dia 20/01no SESC Anchieta os resultados da pesquisa feita juntamente com o Ibope que compõe os Indicadores de Referência do Bem-Estar no Município – IRBEM relativo ao ano de 2010.
O objetivo do Irbem através dos seus indicadores forma uma série de dados que permitem conhecer as condições e modos de vida dos cidadãos paulistanos. A partir deles sociedade civil, instituições, empresas e governos podem propor ações privadas e públicas que possam melhorar o bem-estar das pessoas. A pesquisa de campo no início de dezembro de 2010 realizou detalhadamente 1512 entrevistas com a população maior de 16 anos. As questões versaram sobre o grau de satisfação com a qualidade de vida na cidade.
Os dados, amplos por sinal, tiveram pequenas variações quando contrastados com o levantamento anterior e quase sem exceção ficaram em níveis razoáveis numa escala de muito ruim, razoável, bom e muito bom o que indicou baixa expectativa dos moradores quanto às possibilidades que uma cidade saudável possa oferecer. Destaque para a área do atendimento público de saúde cuja sensação de bom atendimento declinou quando comparado as outras áreas como educação, transporte, cultura etc. que apesar de apresentar um atendimento às demandas muito aquém das possibilidades pouco variaram.
Na área da saúde detectou-se um ligeiro acrescimento na procura por serviços públicos. No sentido contrário se verificou uma queda da procura no segmento de Educação de Adultos que pode indicar leituras diversas, por um lado um evidente desestímulo e por outro uma eventual desistência em função da expansão de ofertas de trabalho, essa, mesmo que pequena pode indicar que a volta ao mercado de trabalho faça com que, novamente, dispense-se a escolaridade.
Outro indicador em destaque é o que agrupa as relações humanas e intra-familiar como mais satisfatório que anos anteriores quando comparado as relações sociais e comunitárias. Uma possível leitura é que com o aumento da população, aumenta a exposição na rua e as pessoas podem se recolher com maior freqüência.
Enfim, são dados muito úteis para a compreensão do sentimento que perpassa a sociedade com relação a sua própria cidade e que vale ser lidos com atenção. O destaque negativo, como previsível no exercício de intuição é a avaliação do poder público municipal: prefeitura, subprefeitura das regiões e da Câmara Municipal que com dificuldade ficaram na faixa de razoável.
A guisa de conclusão a média geral em todos os aspectos subiu de 4,8 para 5,0. Mesmo com essa sutil melhora ainda está muito longe do “10” que significa total satisfação. Os dados está disponíveis para download no site http://www.nossasaopaulo.org.br (JMN)
Tratamento de efluente imitando a natureza pode ser a solução para despoluição das águas
Uma tese de mestrado defendida em dezembro de 2010, no Centro Universitário do Leste de Minas Gerais (UnilesteMG) demonstrou experimentalmente que imitar os processos ecológicos naturais pode ser a melhor solução para resolver grandes problemas do planeta.
O autor é o geógrafo Sebastião Tomas Carvalho, empregado da CENIBRA, onde atua como especialista no Departamento de Meio Ambiente. Tomas, que é professor na área de gestão ambiental, tem experiência em tratamentos de resíduos e é especialista em educação ambiental. Como o autor explica, “se não fosse a famigerada exploração do homem no planeta, a natureza teria soluções para todos os seus problemas. Partindo deste princípio, entender os processos que a natureza tem para se manter em equilíbrio pode ser o caminho para solucionar vários de nossos problemas”, declara.
Considerando que atualmente um dos maiores problemas enfrentados pela humanidade é a falta de água de boa qualidade, sobretudo para irrigação e usos domésticos, Tomas priorizou este assunto em seu estudo. Como premissa, partiu do princípio que as áreas alagadas são verdadeiros filtros naturais, onde a água que sai é sempre mais limpa que a que chega. “Nestas áreas alagadas, há vários seres vivos que contribuem para esta filtragem, sobretudo plantas aquáticas, também conhecidas como macrófitas”, afirma.
Assim, imitar esse processo para tratar águas poluídas ou efluentes poderia ser uma excelente ideia, sobretudo no clima tropical, onde as reações acontecem com maior rapidez e também onde concentram os maiores problemas mundiais relacionados à poluição das águas. O estudo, que contou com o apoio da CENIBRA, contemplou também um experimento implantado em uma área de compostagem de cascas de madeira, processo que gera uma porção líquida conhecida como chorume e que não pode ser lançada no ambiente. Para tanto, foram construídas áreas alagadas artificiais por onde o chorume passaria e encontraria pelo caminho um sistema ecológico parecido com um brejo: alagado e cheio de plantas aquáticas. A planta utilizada no experimento foi a Typha sp., popularmente conhecida como taboa e muito utilizada para confecção de artesanato no meio rural.
Estas áreas alagadas receberam chorume e foram monitoradas por nove meses, tanto do líquido que entrava na área alagada como daquele que sai, objetivando assim, medir a eficiência do tratamento. Os resultados demonstraram que o sistema é eficiente como despoluidor de águas, pois removeu matéria orgânica em taxas de até 28,4% de DQO (demanda química de oxigênio) e 45,7% de DBO5 (demanda bioquímica de oxigênio). Os sólidos suspensos totais foram removidos em até 82,6%, o nitrogênio total foi removido em até 45,2%, o fósforo total foi removido em até 61,5% e a turbidez foi reduzida em 73,9%.
Ressalta-se que a eficiência deste sistema pode melhorar muito, dependendo do dimensionamento das áreas alagadas. Importante considerar que a maioria dos sistemas de tratamento de efluentes líquidos implantados no Brasil remove apenas matéria orgânica e não nitrogênio, nem fósforo, que são os maiores poluidores das águas dos rios.
Segundo Tomas, por este sistema remover nitrogênio e fósforo, “a sua implantação conjugada com estações de tratamento de efluentes e de esgotos é uma forma de aumentar significativamente a qualidade do tratamento”. Tomas conclui que este sistema é muito adequado para o tratamento de chorume de aterros sanitários. Considera ainda que exista um enorme espaço para aplicação desta tecnologia no Brasil, pois milhares de municípios ainda não implantaram estações para tratamento de esgotos nem sequer aterros sanitários para destinação adequada do lixo.
Há de se destacar também que, diferentemente dos sistemas de tratamento convencionais, este não requer uso de energia elétrica, pois não utiliza bombas nem aeradores e, ao contrário, pode ser produtor de energia, por meio da queima de biomassa das plantas. O total de biomassa produzida foi de 280 kg nos 36,2 m2 nas duas áreas alagadas do experimento, correspondendo a uma produtividade de 77 toneladas por hectare.
A matéria orgânica produzida nestes sistemas pode também ser compostada, ou seja, transformada em adubo orgânico para culturas agrícolas. Estas plantas podem ser utilizadas também como fibras para diversos fins, desde o artesanato, a produção de papéis, dentre outras aplicações. A biomassa produzida refere-se em grande parte a CO2 retirado da atmosfera, o que significa que este sistema é também despoluidor do ar e contribui para a redução do aquecimento global.
Outra vantagem relacionada ao baixo custo deste sistema é a sua aplicação para o tratamento de esgotos em comunidades situadas em regiões onde não há energia elétrica e poucos recursos financeiros para aplicar. Há estudos que afirmam que os investimentos em saneamento podem reduzir proporcionalmente até quatro vezes os gastos com doenças relacionadas à contaminação da água.
Estes sistemas são utilizados em países da Europa e Estados Unidos. Todavia, em nossas condições climáticas eles são muito mais eficientes. O estudo apresentado trata-se de uma das mais adequadas tecnologias para despoluir as águas dos rios brasileiros, o que significa mais saúde para a população e para os ecossistemas.
Atenciosamente
Rudson Vieira
Assistente Técnico de Comunicação
Coordenação de Comunicação Corporativa [ ASCOM-C ]
Celulose Nipo-Brasileira S.A. – CENIBRA
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Tel.: +55 (31) 3829-5582 | Cel.: +55 (31) 9968-5552 | Fax: +55 (31) 3829-5260
Enquanto resgata memória local, autor entrega poesias
“Não dá pra dizer que a gatinha de Ipanema ou a patricinha dos Jardins, em São Paulo, leiam mais que as dos subúrbios. A dificuldade da literatura, e da cultura, de modo geral, além do alto preço dos produtos”, Batalhafam
Enquanto projeta para 2011 o lançamento de um livro de memórias com a história do bairro onde cresceu, na Vila Nhocuné, zona leste da cidade de São Paulo enfocando sua ocupação e desenvolvimento entre 1872 e 2000, Zé Carlos Batalhafam vai poetando.
Segundo Batalhafam, o autor acha que escolhe o gênero, mas, em geral, é o gênero que escolhe e define o autor. Argumenta que, no seu caso, a natureza definiu a poesia como meio. “Escrever, ser poeta, contista, romancista não é uma ciência exata. É mais visceral que racional. Era ser poeta ou não ser”, afirma, enquanto se esforça em busca da variedade em contos e romances como forma de superar o visceral. O autor atendeu ao chamado de ser poeta a partir de quando a definição mais orgânica do belo se elaborou. “A consciência brota das formas mais inusitadas. Não é algo racional como parece e foi na adolescência; na descoberta do mundo, da ideologia e daquilo que imaginei melhor para o mundo, para mim e para o outro”, esclarece.
Sem temáticas específicas, as questões existencialistas afloram mais, apesar de entender que as pessoas são responsáveis pelos seus destinos, acha que as questões transcendentais estão presentes. “Há mais coisas entre o céu e a terra; que vogais e consoantes”, adapta, sorrateiramente, a frase. Amor, política, desejos, solidariedade, natureza, o tudo ou nada, os anjos e demônios que nos tocam são tratados na lavra do poeta.
Na periferia, na maior parte de sua longa e profícua vida, Batalhafam considera uma grande injustiça na sociedade, tal qual está organizada, é a escolha que fazem os que dominam os meios de comunicação. “Os periféricos inéditos, só o são, por que os ‘donos da mídia’ assim o querem. São os dominadores que definem o alcance do dominados”, enfatiza, mas indicando saídas, acrescenta “Nós, poetas periféricos, cada vez mais vamos descobrindo e inventando meios para superar este estado de coisa. A internet é um desses meios. Chegamos a um número maior de leitores e vamos quebrando a ditadura neste setor também. E, não tivéssemos outros meios, ainda teríamos nossas vozes, nosso corpo, nosso olhar e nós mesmos enquanto expressão de vida”, finaliza.
Indagado sobre quais frestas poderiam ser essas de superar o “estado das coisas”, Batalhafam explica que o autofinanciamento é um princípio onde o autor não se permite ser explorado, como ainda é no mercado editorial. “Quando lancei meu primeiro livro individual depois de muitos fanzines, optei por editar por conta própria e vendê-lo pessoalmente aos leitores. Trás limitações, mas é imensamente saudável”, explica.
Primeiras leituras e influências
Depois das didáticas estórias em quadrinhos, suas leituras não foram só poesias. Foram os russos que chegaram primeiro. Escritores que sequer foram poetas, como Máximo Gorki e Leon Tolstói. Na poesia, vieram juntos: Mayakóvski, Iessiênin e Bóris Pasternak, autores trágicos, realistas que em maior ou menor grau foram comunistas e, da mesma forma, devorados pelo regime.
Batalhafam explica que só mais tarde, década de 70, leu os ingleses: Lord Byron, Percy B. Shelley, William Wordsworth e alguns escritores anarco-socialistas, como Willian Godwin; mais leves, espirituais, românticos, até finalmente ser tragado pela lusofonia em Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Mário Quintana, Carlos Drummond. Apesar disso, registra que a influencia mais presente na sua escrita é de Moacyr Felix, poeta carioca, Drummond, Bandeira e, poetas concretos como Haroldo e Augusto de Campos e mais contemporaneamente Paulo Leminski. “Na verdade não há muita escolha e, a razão é simples: somos produto do nosso tempo; buscamos a originalidade, mas a referência fica impregnada. É preciso muito sabão cultural para alisar a pele e criar as próprias rugas, a expressão própria. É isso que busco no ato de escrever”, sentencia.
Poesia é coisa da elite?
Diante de premissa proposta pelo repórter de que os leitores preferências de poesia têm um maior acumulo em termos de informação e formação literária, Batalhafam concorda, mas vai além. “Entre um quilo de contrafilé, carne moída, ovos, qualquer bom livro fica para depois; essa é uma questão basal, assim como qualquer bom jeans, blusinha ou produto de marca, também vem antes e isto é uma questão de mercado”, acrescenta. No entanto para ele, a incapacidade de leitura não é algo que se localiza apenas nas populações dos subúrbios urbanos ou favelas.
“Há ótimos leitores e escritores nos subúrbios; com muito boa formação e informação literária. Não dá pra dizer que a gatinha de Ipanema ou a patricinha dos Jardins, em São Paulo, leiam mais que as dos subúrbios. A dificuldade da literatura, e da cultura, de modo geral, além do alto preço dos produtos, da má distribuição e até mesmo da má qualidade do que se produz que fica mais agudo, sobretudo, pelo fato de que não há o hábito da leitura. No Brasil, consome-se pouca cultura; lê-se muito pouco. A cultura, e a literatura de modo particular, são tidas como artigos supérfluos. Daí a importância de insistirmos; buscarmos meios, brechas e formas novas e mais atraentes. É preciso disputar corações e mentes; pois, ninguém escreve, exclusivamente, para si mesmo. O público, o outro, é o alvo.
Por fim, estão disponíveis do autor: o: Trilogia das Palavras e O Conto Brasileiro Hoje; ambos pela RG Editores. Interessados podem fazer contato pelo e-mail batalhafam@ig.com.br. Para simples leitura, alguns poemas disponíveis no: www.luso-poemas.net; www.recantodasletras.uol.com.br/autore/batalhafam; e www.poetasdelmondo.com. (JMN)
Não tem nem 17, mas escreve como gente grande
Ávida por leitura e escritora de talento, adolescente pode escrever ensaio com enfoque inédito
Ainda não completou nem 17 anos, mora na periferia e escreve como gente grande. Começou lá pelos 10 com um conto à moda de Edgar Allan Poe, A Queda da Casa Usher, que na lavra da menina virou o conto O Mistério da Casa Wermon com, pelo menos, 12 laudas. As causas de tanta produtividade desde os dez anos de idade podem ser explicadas com uma passada de olhos na estante de sua casa onde mora com um pai jornalista que estudou sociologia e a mãe professora. São algumas centenas de livros, alguns amarelados com o tempo e outros que se espalharam pela cabeceira de sua cama e mesa de quarto onde livros diversos disputam espaço na bagunça adolescente.
Ávida leitora, Bruna Shinohara foi promovida na escola lá pela quinta série quando professores, coordenadores pedagógicos e diretoria solicitaram testes oficiais que a fizeram saltar um ano indo direto para a próxima série. Cursou simultaneamente o ensino médio em uma das escolas do SESI e um curso técnico no Senai, com o qual, confessa, travou pouca intimidade.
Saiu-se com méritos no Enem deste ano tendo pontuado fortemente, o que poderá lhe proporcionar alguma bolsa de estudos em alguma universidade particular no próximo ano. Vai ajudar. A família não tem recursos para patrociná-la em uma universidade, principalmente se for numa USP, uma eternidade de longe de sua residência.
O que vai cursar é apenas uma questão dela escolher qual área e faculdade porque, com 16 anos, ela ainda não tem toda a clareza do que pode, quer e tem habilidade para fazer. Conflitos de adolescente. Sem tempo para se preparar para a Fuvest porque freqüenta dois cursos que a fazem levantar às 5 horas da manhã e encerrar as 19, não estudou tudo que precisava, prestou o vestibular e não deu vexame.
Mas é na lavra literária, uma raridade entre os jovens que a menina se destaca. Grande parte de suas boas notas são obtidas quando as respostas às questões precisam ser dissertativas. Influenciada pelos livros e pelos pais progressistas, a menina tem um olhar e linguajar típico de sociólogo militante que já criou constrangimentos a professores com sua capacidade de inquietação e argumentação.
Como conseqüência desse tipo de influência e apenas seis anos depois de escrever um conto quilométrico, destacar-se em redações de todos os tipos, a menina vem finalizando o seu trabalho de conclusão do curso técnico em grupo com uma proposta sua aceita com entusiasmo pelo restante do grupo, pela banca examinadora e que, a depender do tempo disponível e do incentivo, deverá se transformar em um livro ensaio no próximo período. Criativa, Bruna propôs o que parece ser inédito: um enfoque acadêmico no papel desenvolvido pelo cartaz no aspecto ideológico e comercial em todo mundo.
