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Repensar a ocupação para evitar novas Santa Catarinas

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A relação entre as mudanças climáticas no mundo todo e o desastre que deixaram mais de uma centena de mortos e algo próximo de 60 mil desabrigados em Santa Catarina ainda está para ser revelada. Mas a relação entre o desastre e o fracasso das políticas de acesso à moradia e de ocupação do espaço urbano é uma certeza, segundo Wagner da Costa Ribeiro, professor do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP).

Claro, que o professor e qualquer cidadão consciente, não desconhecem que a exploração desenfreada dos recursos naturais da Terra com o homem se aproveitando da abundância de recursos como se eles fossem inesgotáveis contribui para desequilíbrios que se manifestam cada vez mais intensamente.

Para se ter idéia dessa exploração, estudos mostram que o atual padrão de consumo dos recursos naturais pela humanidade supera em 30% a capacidade do planeta de recuperá-los, ou seja, a natureza não dá conta de repor tudo o que o homem tira dela. Como método do estudo a ONG World Wildlife Fund estimou a quantidade de terra, água e ar necessária para produzir os bens e serviços utilizados pelas populações e para absorver o lixo que elas geram durante um ano e chegou-se à conclusão de que cada habitante usa 2,7 hectares do planeta por ano. De acordo com a análise, para usar os recursos sem provocar danos irreversíveis à natureza, seria preciso que cada habitante utilizasse, no máximo, 2,1 hectares. Se o homem continuar a explorar a natureza sem dar tempo para que ela se restabeleça, em 2030 serão necessários recursos equivalentes a dois planetas Terra para atender ao padrão de consumo. Essa perspectiva, conclui o relatório, é uma ameaça à prosperidade futura da humanidade, com impacto no preço dos alimentos e da energia.

Posto essa premissa que conta muito, mas operar no presente é muito bom ouvir o professor Wagner que ressaltou a necessidade de também aperfeiçoar os sistemas de previsão de clima e de inundações. Segundo o professor as mudanças climáticas vão aumentar os riscos de desastres ambientais, entretanto antes de pensar em problemas futuros, será preciso encontrar soluções para os antigos e estes estão no resultado do processo brasileiro de urbanização.

O aumento das temperaturas e a variação das chuvas ainda são incertos e não dá para saber ao certo os impactos todos nas cidades brasileiras, mesmo assim é preciso trabalhar com cenários ruins para pensar em adaptações. Cuidar de áreas de risco hoje, no caso brasileiro, é pagar uma dívida social e não se trata apenas de prever melhor as mudanças de humor no clima, mas reparar um processo de urbanização caótico sempre dirigido pela lógica de mercado e exploração imobiliária agressiva.

Mais incisivo nessa direção Luis Carlos Molion, do Departamento de Meteorologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), entende que as mudanças climáticas não tiveram relação com as chuvas torrenciais que devastaram Santa Catarina. Para ele os impactos desastrosos das chuvas naquele estado foi fruto do péssimo planejamento da ocupação do espaço com muita gente se afastando da região ribeirinha para evitar inundações e se instalando nas encostas que, naturalmente, para serem ocupadas tiveram que ser desmatadas. Molion lembra que chuvas como essas já ocorreram no passado. Em maio de 1983, mas também em desastres naturais semelhantes no Vale do Itajaí nas décadas de 1950 e 1960 com os primeiros registros de ocorrências no século 19.

De acordo com ele, no entanto, os fenômenos não tinham conseqüências tão importantes em décadas passadas, no Brasil, porque a concentração populacional nas cidades era bem menor. “Hoje, 80% da população está nas cidades, que absorveram essa população sem planejamento urbano. Para consertar isso, serão necessários investimentos muito maiores do que os recursos necessários para o planejamento há 30 ou 40 anos”, diz.

Segundo Molion, é preciso que as cidades pequenas e médias comecem a se planejar a partir de agora. Para ele, seria preciso investigar melhor a dinâmica da várzea dos rios e estudar as séries históricas de registros hidrológicos e meteorológicos a fim de entender o tempo de retorno de chuvas fortes, acima de 100 ou 200 milímetros.“Temos cerca de 250 municípios com mais de 100 mil habitantes. A grande maioria dos mais de 5 mil municípios do país está começando a crescer. Seria aconselhável pensar em medidas de planejamento para minimizar problemas do tipo no futuro”, afirmou. (JMN)

Written by Página Leste

27 de abril de 2009 às 10:35

Publicado em Meio Ambiente

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