Paginaleste's Blog

Espaço de observação comprometido com a cidadania.

A crise do capital parasita

leave a comment »

Não era apenas uma marolinha, chegou e está batendo em cheio na economia brasileira. Com alarde e observações pontuais setores da sociedade brasileira dão um ritmo e temperaturas diferentes para a situação a depender do seu, nem sempre confesso interesse: mimar ou ninar o governo Lula. Vale lembrar que a sucessão presidencial está batendo as nossas portas e os interessados já estão em marcha.

Saindo do lusco fusco da analise pontual, estas que são feitas diariamente por economistas, não economistas, palpiteiros, videntes, representantes do grande capital, dos empresários ou dos trabalhadores vou me esforçar nesse texto para buscar a origem dos problemas que enfrentamos não nas suas nuances e pontualidades.

Pois bem, essa é uma crise do sistema capitalista, consolidado há pouco mais de 200 anos na Inglaterra. Nele, tanto o trabalho como o produto do trabalho se transformam em mercadorias, em valores de troca, em dinheiro como forma final. É a destruição maciça do dinheiro a convulsão desse sistema.

O capitalismo sofreu grandes transformações e sempre vieram após graves crises e convulsões. A primeira na depressão dos anos 1873-1895 com a quebradeira de pequenas e médias empresas numa disputa frenética de mercado em ambiente de grande concorrência. O que veio a seguir foi um novo sistema dominado principalmente pelo capital financeiro, uma associação intensa entre a grande indústria e os grandes bancos. Estavam envolvidos na época os grandes cartéis dos setores elétricos e químicos surgidos na época, especialmente na Europa.

A disputa por novos mercados ou colônias por esses Estados desembocou na Primeira Guerra Mundial, de 1914 a 1919, que colateralmente permitiu o surgimento de um novo tipo de Estado, o socialista onde a idéia era se construir uma democracia nova: não a dos grandes empresários que se conhecia e criticava, mas a dos trabalhadores.

A segunda grande mudança veio com a depressão nos ano 1929-1939 que desembocou na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Depois dela definiu-se dois campos: o socialista, com base na URSS, seguido pela China, e o capitalista, sob a hegemonia dos EUA.

A crise em curso parece ter indicar uma nova convulsão. Os EUA viveram três décadas de expansão econômica depois da Segunda Guerra e tentaram enfrentar a estagnação econômica e a alta de preços com medidas radicais. Romperam os acordos que regulavam estritamente os fluxos financeiros e as variações das moedas nacionais; elevou suas taxas de juros até as nuvens, enquanto mantinha a guerra fria. Do ponto de vista econômico-financeiro o resultado foi a financeirização da economia centrada nos EUA. Resumidamente o valor agregado ao produto nacional pelo setor financeiro foi entre 10 e 15% entre 1980 e o ano passado, entretanto a participação nos lucros do mesmo setor no mesmo período foi de 10% para mais de 40%. Alguma coisa não combinava.

Como agora até os capitalistas estão lembrando, vou citar aqui o que diz Marx sobre o capital: O “capital dinheiro” assalaria trabalhadores, compra máquinas, equipamentos e matérias-primas e, pela exploração da força humana de trabalho, torna-se “capital produtivo”. Produz, então, o “capital-mercadoria”. As mercadorias são levadas ao mercado e vendidas, transformando-se novamente em “capital-dinheiro”. E, com esse “capital-dinheiro”, compram-se máquinas, força de trabalho, etc. O ciclo, então, recomeça.

Diante do desprezo com a equação acima, o problema foi que com a idéia da financeirização se acreditou que o sistema seria capaz de gerar riquezas sem que o dinheiro desse “essa voltinha no mundo de produção de bens e serviços”, como muito bem equacionado pela economista Leda Paulani, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo.

Depois do fracasso é bom lembrar da China

A China mostra um caminho diferente à financeirização. Diferente do Brasil, não achou que precisaria desarmar e desregulamentar os caminhos das finanças globais como trilha para o desenvolvimento. Ao contrário, estabeleceu um controle cambial rigoroso e forçou o dinheiro aplicado de fora no país a dar a “voltinha” pelo processo produtivo. Com isso,  um enorme crescimento próximo aos 10% nas três últimas décadas.

Uma segunda diferença com relação ao Brasil foi adotar a estratégia de crescimento do país, que era pobre, sobre o sistema produtivo estatal. Apesar de reduzirem o número de suas empresas estatais para algo próximo de 150 mil, introduziram no sistema público a concorrência e o aproveitamento do mercado, ao lado, não acima das empresas de Estado. Mais ainda, manteve o controle público nas áreas de desenvolvimento técnico e científico que elevou o país ao primeiro plano. Hoje, enquanto o Brasil é basicamente e cada vez mais exportador de commodities industriais e agrícolas, a China exporta chips, equipamentos de telecomunicação, informática e outros.

E para concluir

Falei aqui sobre crises e suas saídas belicosas. Não é o caso da China que neste momento de crise não se coloca de forma agressiva, visto que disputa com os EUA a hegemonia mundial. Isso é alguma garantia para evitar saídas, que conforme vimos, nem sempre são resolvidas em conversas e negociações. Claro que as saídas não dependem somente da China, outras poderão vir e até mesmo algumas não muito boas como uma eventual fusão financeira cada vez maior entre China, se relaxar em suas estratégias e os EUA.

Agora quanto aos neoliberais que pregavam o Estado mínimo por conta da crença de que o mercado se auto-regularia estes passaram a defender que o Estado intervenha com quanto for preciso e necessário para a vaca não ir para o brejo.

Tradicionalmente diante das crises do sistema capitalista a solução é cada vez mais concentrar capital socializando os prejuízos nas costas dos trabalhadores. Em curso, a crise, entretanto, não tem desfecho aparente. É possível e necessário até que os trabalhadores busquem outra saída. À esquerda. (JMN) 17/03/09

Written by Página Leste

27 de abril de 2009 às 10:42

Publicado em economia

Deixe um comentário