O risco de esquecer o holocausto em tempos de crise
Para que não se perca na lembrança, o holocausto, cuja palavra de origem grega significa queimado e que desde o século XIX passou a designar grandes catástrofes e massacres tem como marca recente o extermínio de judeus e outros grupos indesejados pelo regime nazista de Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial. Pois bem, não faz muito tempo, o Reino Unido suprimiu dos seus currículos escolares o assunto porque ofendia a população muçulmana, visto que, parte dela, afirma que ele nunca teria ocorrido. Medo? Política de boa vizinhança com o regime do Irã que, entre outros, vem sustentando que o holocausto não teria ocorrido? Quais outros países podem, também pelos mesmos motivos, tentar mandar para o limbo do esquecimento esse assunto?
Tinha razão o general Dwight D. Einsenhower quando, ao final da guerra. ordenou que fossem feitos filmes e fotos. Na ocasião ele previa: “Que se tenha o máximo de documentação – façam filmes – gravem testemunhos – porque há-de vir um dia em que algum idiota se vai erguer e dizer que isto nunca aconteceu” Ao encontrar algumas centenas de vítimas dos campos de concentração, como vencedor da guerra, o general ordenou que fosse feito as fotos e filmes. Ao mesmo tempo os alemães da cidades vizinhas foram guiadas até os campos e até mesmo ajudaram a enterrar os mortos para comprovar o que hoje alguns tentam esquecer e outros negar.
E não se trata aqui de uma posição religiosa ou racial. De fato a maior parte dos exterminados era judia, mas também havia militantes comunistas, homossexuais, ciganos, eslavos, deficientes motores, deficientes mentais, prisioneiros de guerra soviéticos, membros da elite intelectual polaca, russa e de outros países do Leste Europeu, além de ativistas políticos, Testemunhas de Jeová, alguns sacerdotes católicos e sindicalistas, pacientes psiquiátricos e criminosos de delito comum.
Ocorre que fanatismos e xenofobias sempre prosperam quando em conjunturas de crises sócio-econômicas quando, com maior ou menor intensidade, surgem grupos organizados interessados na destruição da ordem ou desordem existente na perspectiva de substituí-la por outra. Quando de sua existência, o nazismo queria resolver os problemas sócio-econômicos da Alemanha de então, mas queriam também mudar o curso da história. Foi no centro desse pensamento que aflorou a teoria da conspiração judia. Mesmo em contradições flagrantes, eles entendiam a humanidade como uma guerra de raças em contraposição aos marxistas que alegavam que os problemas diziam respeito a luta de classes.
Para os nazistas, os judeus, ao ocuparem importantes funções dentro da economia, artes, meios de comunicação e literatura, atrapalhavam o seu objetivo de conquista de poder através do liberalismo e da democracia em alguns países e, em outros, sob a máscara do socialismo e do comunismo. Para o historiador Erich Goldhagen, do Russiam Research Center, da Universidade de Harvard, "esses apelos contraditórios serviriam para atrair as várias classes ao movimento nazista, mesmo não podendo resolver os antagonismos que as dividiam”. O problema da luta de classes, como corretamente lembrada pelos marxistas, era em parte resolvida pela imaginária ameaça judia. Em face do perigo judeu o trabalhador alemão resolveu suas diferenças com os inimigos de classe, chegando a um consenso que contemplava os interesses comunitários. Também a idéia da inferioridade judia, e conseqüentemente superioridade alemã, teve implicações pseudo-igualitárias que representaram outro fator para a coesão nacional.
Goldhagen destaca que desta maneira, o anti-semitismo serviu aos nazistas "não somente como uma bandeira de união em sua ascensão ao poder, mas exercendo funções essenciais ao regime". "Ao contrário dos comunistas, que se dirigiam apenas ao proletariado, Hitler apelava para toda sociedade alemã. Para os trabalhadores, os nazistas se apresentavam com a máscara socialista e se declaravam inimigos da ‘plutocracia capitalista’. Para os industriais, prometiam reprimir os poderosos sindicatos alemães e a esquerda. A classe média, mais duramente atingida pela crise econômica, era assediada com promessas de segurança econômica, proteção contra o avanço comunista e restauração do status perdido".
Na atualidade é prudente lembrar que deixando de lado a obsoleta tese da inferioridade judia e demais segmentos minoritários, a luta de classes, embora colocada em termos muito mais sofisticados ainda persiste e um aprofundamento da crise com o aumento da presença muçulmana que prega a inexistência do holocausto pode prosperar no caldo de cultura a idéia de que a luta de classes não existe e sim raças e religiões que estão acima das outras.
Publicado no Jornal Primeiro Lance edição de 31/10/08
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