Sustentabilidade e negócios
Um dos maiores problemas da atualidade bateu recorde na cidade de São Paulo no dia 13/03. Trata-se do congestionamento nas ruas e avenidas da metrópole com incríveis 221 quilômetros de vias paradas, depois de uma semana infernal. Logo depois, naturalmente, as opiniões de especialistas propondo soluções começaram a aparecer nos meios de comunicação. Pedágios urbanos, melhoria da rede de transporte público e até mesmo a ampliação do rodízio foram algumas das idéias mais palatáveis.
Claro está que são soluções paliativas, apesar de necessárias em curto prazo, mas basta observar que onde as propostas acima foram adotadas, nas cidades européias, continuou o crescimento do número de carros em circulação apenas tornando mais lenta o engarrafamento tempos depois.
Uma análise realística de longo prazo mostra que o problema está basicamente no excesso de carros em circulação; somente na capital paulista, a cada dia são emplacados quase mil novos carros, não dá para disfarçar o aumento de carros em circulação é o problema apesar do que pode depreender da mais recente edição da revista Exame que se propunha a fazer uma “edição verde”. Prometendo ir ao cerne da questão as dez matérias da revista desvia do tema nevrálgico que é a questão ambiental.
Só para se ter uma idéia de como se desviou da questão uma das matérias priorizava a iniciativa governamental que estuda incentivar a população de baixa renda a descartar dez milhões de geladeiras antigas, comprando novas com subsídios governamentais. É isso mesmo! Dez milhões no lixo e dez milhões de novas geladeiras consumindo os recursos naturais que são precisos para fabricá-las. Naturalmente, essas novas geladeiras serão "mais eficientes energeticamente". Com isso reforça-se a tese de que podemos ajudar a resolver o problema ambiental consumindo "mais e melhor" e não reduzindo o consumo.
Voltemos ao engarrafamento do trânsito. Nesse quesito a conclusão da revista é que a culpa não é do crescimento nem das montadoras e sim uma amostra da ineficiência do país que não se preparou para o progresso.
“Vale lembrar que a tal da revista Exame é a que melhor representa no país o pensamento da turma dos suicidas inveterados, aqueles capaz de defender o atual sistema e ritmo de produção e consumos mesmo se estiverem naufragando num mar de saquinhos plásticos”, observa astutamente o jornalista especializado em meio ambiente Danilo Pretti Di Giorgi que investigou detalhadamente a edição a que nos referimos. Vão mais longe: todo o texto da matéria dedica-se a desconstruir com ferocidade qualquer possibilidade de raciocínio que, ainda que remotamente, considere a venda recorde de veículos na metrópole como uma das culpadas pelos problemas no trânsito.
Este tipo de preocupação em uma publicação como a Exame é na verdade um sinal de avanço na discussão ambiental, que vem ganhando espaço de forma crescente desde a segunda década do século passado e que tem multiplicado sua força nos primeiros anos deste milênio. Apesar do viés absolutamente equivocado da "edição verde", que traz como foco apenas as formas pelas quais as empresas podem obter maiores lucros com a "onda ambientalista", o fato é que a revista está se dedicando cada vez mais ao tema meio ambiente considera o jornalista.
Em condições normais de temperatura e pressão, os editores desta publicação não dariam a mínima bola para um tipo de raciocínio "tão retrógrado", com "ranço socialista", como a hipótese de que a produção e venda de carros podem ser as culpadas pelo caos do trânsito. A preocupação explícita e até mesmo desesperada – como se pode perceber em termos fortes como "abraçar o fracasso" – contra este tipo de pensamento pode mostrar que está crescendo entre as pessoas mais conscientes ambientalmente a percepção de que o nó está exatamente na produção e consumo sem limites e na perigosa idéia de crescimento econômico infinito. Tanto que, para quem aposta na continuidade do funcionamento da máquina da morte que se tornou o sistema no qual vivemos, essa consciência precisa ser atacada, uma vez que começaria a tomar forma e representar real perigo.
Não há outro caminho para a civilização a não ser uma drástica redução da produção e do consumo. Essa verdade pode ser verificada em um sem-número de problemas que enfrentamos nos dias de hoje: as milhões de toneladas de sacos plásticos emporcalhando os oceanos e matando animais aquáticos por sufocamento, a poluição do ar e dos rios, a falta de saída para o drama da superlotação dos aterros sanitários, a crise da água potável e o aumento da temperatura da Terra são apenas alguns exemplos. Para não falar do crescimento da devastação da Amazônia para atividades comerciais, nossa grande vergonha nacional. Todos estes problemas têm na sua raiz a impulsividade humana pela produção e pelo consumo ilimitado, o que vai contra a incontestável limitação de recursos naturais disponíveis no planeta Terra.
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