Educação social transformadora é tema de palestra no CEU São Mateus
O Céu São Mateus reuniu na manhã do dia 10/11, centenas de participantes na palestra feita pelo professor Demerval Correa de Andrade do Instituto Argumentos Ciência e Cultura numa iniciativa consorciada com a EcoUrbis envolvendo a temática da educação ambiental.
O evento, entretanto tomou um rumo mais geral diante da bem humorada e consiste palestra. Logo de início o palestrante lembrava que a existência de equipamentos culturais por si só não é suficiente para que a cultura se propague. É preciso bem mais ter animação cultural, formação e atitude para se criar algo novo e melhor. Aprender a aprender foi o toque da caixa da palestra.
Segundo diagnóstico do palestrante, vivemos numa era de consumismo exacerbado. “As crianças desde sendo vão sendo preparadas para serem consumidores e pressionam os pais para isso. A mídia envolve as crianças e jovens fazendo-as consumidoras em potencial”, esclarece. Diferente do consumo necessário para a subsistência de cada um, o consumismo é uma coisa diferente levando ao desejo por coisas que, de fato, nem precisamos. A isso o professor chama de consumismo. “As crianças parecem que foram mordidas pelo grande vampiro da ideologia do consumismo e o valor das pessoas passam a ser aquilo que tem e não aquilo que são”, considera.
De acordo com a palestra até as pessoas boas não valem tanto quanto a outras que ostentam posses. Esse seria um outro desdobramento do atual estado das coisas.
Até mesmo na educação a ideologia dominante opera na mesma direção. Cria necessidades de formações muito específicas, utilitárias em detrimento do conhecimento mais acadêmico e humanista. Tanto é assim que, segundo o professor, basta constatar como as matérias de exatas e biomédicas se destacam com grandes saltos tecnológicos em detrimento das ciências humanas.
O professor comenta que quase o mundo inteiro é assim. É a supremacia do neoliberalismo. O Brasil se envolve em tudo isso até mesmo porque é um mercado desejado por todos os interesses nacionais. “Se eles podem vender um carro de luxo para algum comprador brasileiro eles podem vender quatro celulares para quem não tem grandes posses”, explica como o capital se aproveita das frestas, inclusive da divisão acentuada entre as classes no Brasil. “É uma coisa séria jogamos lixos nas ruas, nas atmosferas, interferem na educação, na cultura e os pais e mães que se virem”, alerta. Para o professor é preciso mudanças radicais de atitudes e hábitos arraigados há muito tempo, mas essas mudanças não se operam da noite para o dia. “É um processo permanente. Precisamos mudar a nos mesmos, antes de colocarmos em prática a educação social transformadora no seio da sociedade onde atuamos”, parece apontar o palestrante.
O palestrante também disse não concordar com o autoritarismo nem com o neoliberalismo da maneira atual. “Queremos que as pessoas sejam mais verdadeiras ao se expressarem”. Do jeito que as coisas estão delineadas no Brasil determinadas pessoas, apesar de terem muito dinheiro ainda são pessoas pobres e como tal ficam mais vulneráveis ao bussines. “Quanto mais vazio o ser humano, mais vulnerável ele está às drogas; sejam as drogas mesmo, sejam os produtos culturais e a educação empobrecida e parcial que recebem”, considera. Para o palestrante o descuido de pais e responsáveis nessa disputa pelos filhos para o consumismo pode ser fatal. “Precisamos estar atentos à qualidade da educação ampla, humanitária, cidadã. E cobrar qualidade nos serviços que nos são devolvidos pelos impostos que pagamos”, emenda.
Palestrante responde as perguntas da platéia
Aberta a participação da platéia o professor Demerval lembrou que no processo da educação social transformadora não basta apenas à teoria e reiterou que as mudanças são lentas. Citou o exemplo de uma casa comum onde se chama o marido e provedor de chefe e se reserva às filhas a obrigação com a casa enquanto o filho pode sair para jogar bola. “Reparem que, em geral, a família entra em polvorosa quando a mãe fica adoentada uma semana”, arrancando gargalhada da platéia. “Essa é uma relação equivocada, que precisa ser mudada e é a que está mais próxima da gente”, reflete. “Como fazer então para mudar a partir daí”, indagou. Lembrou também que têm que ser ensinada as crianças pequenas o amor e que as manifestações iniciais das crianças são em busca de prover suas necessidades.
Como alternativa a uma vida fadada à inércia e a morte, o professor diz que precisamos colocar alternativas agradáveis, prazerosas, mas também objetivas e humanitárias.
O palestrante ainda indicou que não basta uma boa formação técnica ou universitária sem uma formação afetiva, emocional e moral. A sociedade hoje aponta que se não falarmos inglês fluentemente, não estivermos conectados ao mundo não somos nada. “Como não somos”, retruca o palestrante. Trata-se da inversão de valores que ele cita no transcorrer da palestra. O ter em detrimento do ser. “A sociedade vive nos insinuando que devemos ser campeões nisso e aquilo. Besteira! Na verdade precisamos ter o melhor desenvolvimento possível, uma auto-estima boa e responsabilidade social”, argumenta.
A falta de políticas públicas mais profundas principalmente para o meio ambiente e a burocracia e a lentidão dos gestores públicos foram criticadas. “A arrecadação de impostos é estrondosa, mas a volta é ineficiente e não há canais que altere o andar letárgico da coisa pública”, assinala. Criticou também os formados que não voltam para a ponta da comunidade para dar sua contribuição e mudar a realidade. “Além da ideologia na sociedade são estimulados nas universidades, não todas, a cuidar de si, de seus empregos e salários em detrimento da função social que poderiam ter”, acrescenta. “As instituições e ai acrescento a mídia, TV estão drogando a subjetividade das pessoas; algumas outras estão se mexendo para mudar o mundo”, evidenciando que o conflito existe e é permanente.
Falou ainda da existência do racismo, que é um posicionamento ideológico, de interesses visto que a ciência já comprovou através de estudos de genoma e do DNA que as diferenças entre negros e brancos ou outras colorações são insignificantes. Lembrou ainda do desperdício de alimentos no Brasil, por causa de uma questão cultural. “No Japão, ninguém se envergonha de ir ao açougue compra 300 gramas de carne. Aqui no Brasil, temos vergonha de ir ao açougue para comprar essa mesma quantidade”, fazendo alusão às diferenças culturais.
Comentou ainda sobre os vícios do álcool e tabaco lembrando que nesses aspectos a questão mais relevante são os excessos e polemizou a dizer, mas sem entrar no mérito que a sexualidade das crianças já está dada desde a mais tenra infância e que, por conta dos costumes com o passar do tempo e o crescimentos das mesmas se iniciam uma série de restrições ao desenvolvimento delas como forma de preservar a família e a sociedade tal como está formatada. Falou ainda da onipotência, principalmente de quem tem algum poder ou dinheiro em detrimento da competência e da programação empobrecida da TV aberta que contribui para deseducar mais ainda.
Levada ao seu final com um ótimo rendimento e humor pelo palestrante e participantes ficou claro o fio condutor de toda a proposta apresentada: a de que é necessário repensar formas, hábitos de vida e promover a educação social e ambiental transformadora para resgatar o respeito, o valor e o sentido da vida da pessoa humana. O seu valor pelo que faz para si e em benefício da coletividade e da natureza, ao invés de quanto dinheiro ou poder tem.
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