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Tia Cida: a Mãe do Samba de São Mateus

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Conheça um pouco da trajetória de Maria Aparecida da Silva Tarjan, a “Mãe do Samba de São Mateus” que foi homenageada em show aberto no SESC Itaquera dia 16/09 no lançamento do CD São Mateus: o Berço do Samba com a presença da cantora e compositora Bete Carvalho.

 

Com 59 anos de residência em São Mateus, a assistente social aposentada Maria Aparecida da Silva Tarjan é conhecida no mundo do Samba como Tia Cida ou Cida Preta e essa história começou lá trás numa vida que é um exemplo de persistência e crescimento pessoal em vários aspectos, entre eles a relação com o samba que parece vem desde berço. Não foi sem motivo que ela foi a homenageada durante o lançamento do CD São Mateus: berço do samba no Sesc Itaquera, no dia 16, onde além de um enorme público teve a presença significativa da cantora e compositora Bete Carvalho.

Cida mora em São Mateus desde 1949, quando veio com a família da Vila Matilde ainda criança. São Mateus dava seus primeiros e incipientes passos e ela acompanhou como criança as lutas que as lideranças adultas tinham então. Eram tempos de muita dificuldade, mas de muita solidariedade e de confiança entre vizinhos registra buscando pela memória. Era tempo de olarias e os mais abastados moravam perto do Aricanduva. “Lembro bem de Waldemar do Santos; que para nós era considerado rico, mas que se relacionava com todos apertando e lembrando o nome das pessoas. Era um tempo de muita dignidade”, enfatiza. Tia Cida participou da primeira escola do bairro, então um galpão de madeira muito comum na época na Escola Estadual Pedro Machado Pedrosa e ainda se recorda das chamadas orais da tabuada. Aprendeu a ler e escrever no final da década de 40 parou de estudar para trabalhar e reencontrou os estudos anos depois.

Como a mãe era doméstica, Cida desde pequena foi se ocupar da mesma coisa. Iniciou com 13 em casa de família na Zona Norte de São Paulo; depois foi levada por uma tia para trabalhar em casa de família na vila Madalena e ainda em outras casas até se casar em 1963, ainda jovem e frustrada por não continuar os estudos. Com o marido do qual se separou não muito tempo depois teve três filhos e precisava voltar a trabalhar para sustentar as crianças até que certo dia, diz ela, bateu a sua parte dois padres recém chegados da Itália que a procuraram por recomendação. Um deles era o Padre Franco Torresi que muito ligado na política muitos anos depois largou o sacerdócio, casou-se e, inclusive foi o administrador regional durante a gestão da prefeita Luiza Erundina, então no PT.

Tia Cida registra que a pedido foi trabalhar na paróquia em trabalhos sociais e esse período mudou sua vida e sua compreensão do mundo. Foram anos de lutas e movimentos populares. “Período das comunidades de base e da visão progressista da Igreja a partir do encontro de Medellín, na Colômbia com a Teologia da Libertação”, explica. “O Franco era ativista e reviramos São Mateus de cabo a rabo, organizando as reivindicações que desembocaram em várias ações e que também deram origem ao movimento de saúde”, lembra. “Com todos esses trabalhos e com que aprendia, posso dizer que renasci”, conclui.

Para Tia Cida o seu envolvimento era tão intenso que ela desconfia até que os próprios movimentos não queriam o que poderia ser considerado a sua radical idade, reflete com humor. “Tinha muita gente que queria minha cabeça”, ri. Certo dia, o médico Zé Augusto que era do movimento de saúde e posteriormente foi inclusive prefeito da Cidade de Diadema sugeriu que ela se preparasse para um concurso na Prefeitura para ser uma visitadora sanitária. Tia Cida num primeiro momento não dava muita bola, trabalhava com a paróquia e com os movimentos enquanto criava seus filhos. O doutor Augusto não só insistiu como deu um curso preparatório da qual ela participou. Quando foi o concurso, ela se surpreendeu porque na classe estaria disputando vagas com farmacêuticos, biólogos, estudantes de medicina etc. “Aquilo de certa forma me tranqüilizou, fiquei relaxada pensando que não poderia competir e fiz a prova já com a certeza do fracasso. O resultado: fui informada que passei em primeiro lugar”, exclama. Mesmo assim não deu muita bola e até perdeu o prazo para assumir o cargo. Segundo Tia Cida, passado cinco dias do prazo ter terminado “Fui contatada pela supervisora de Saúde da Penha para eu assumir o cargo. Acho que foi o empenho do pessoal de Itaquera e São Mateus que não me queriam como radical por ali”, ri, novamente.

Depois de ter assumido o seu posto a pressão dos companheiros continuaram e a incentivaram a voltar a estudar. As crianças já estavam mais crescidas, portanto lá foi ela se formar em Serviço Social na Faculdade Zona Leste, que posteriormente tornou-se a Unicid. Tia Cida conta que a administração da escola se aborreceu com ela porque ela levava os alunos às sextas-feiras a faltarem nas últimas aulas para irem aos sambas. Sinal de que apesar de toda trajetória o vínculo com o samba nunca foi rompido.

Em 1985 depois de formada o seu nome estava sendo indicado para a direção das creches da prefeitura na administração Mário Covas. Ela foi para a creche Bárbara Heliodora e logo depois para uma creche na Cohab Juscelino e destacou-se pelas festas que fazia para arrecadar fundos extras para as despesas da creche. Novamente ligada ao samba, suas festas eram um sucesso com o encontro de gente do samba e da comunidade. A coisa dava tão certa que se repetiam duas vezes por ano envolvendo a comunidade. A própria coordenadora do serviço social na época registrava a autonomia que essas festas permitiam sob a direção da Tia Cida. Tia Cida aposentou-se como diretora da creche Jardim Vila Carrão em 2002, que agora é uma CEI.

E, eu com o samba

A sua ligação com o samba já vinha da parte da mãe e da avó que dançava lundo, da mesma forma que ela ainda hoje dança. Era coisa de família e com seus filhos crescendo e querendo curtir o samba restou a Tia Cida acompanha-los. Ela se preocupava por onde andavam e com quem se relacionavam os filhos, daí restou ir junto o que não era nenhum aborrecimento, pelo contrário, vinda do samba era uma tarefa prazerosa. “Descobríamos, por exemplo, que tinha um bom samba no Brás, lá íamos nós em turma, praticamente uma família. Era comum sairmos juntos”, explica.

Da própria relação que ela desenvolveu no trabalho comunitário e nas creches, as pessoas começaram a se agregar na sua casa para ensaios. “Vinha gente de várias partes, eles ensaiavam e eu já lembrava de determinada festa beneficente das quais eles participavam”, informa. Um de seus filhos, Marcelo, ganhou um cavaquinho preto da mãe, logo após o falecimento do pai para se distrair. Com o tempo tornou-se um exímio instrumentista e, segundo Tia Cida é considerado pela Bete Carvalho um dos melhores cavado do Brasil, o que não é pouca coisa.

Essa relação com a Bete, explica ela, vem do fato de Marcelo tocar em boate desde os 16 anos “ele tinha tamanho e responsabilidade, apesar da idade”, em boates. Em uma dessas ocasiões conheceu a Bete Carvalho em um outro local onde era muito comum o encontro de músicos chamado Boca da Noite. Daí nasceu uma amizade e formou-se com dois sambistas de Santo Amaro e os três de São Mateus o Quinteto Branco e Preto, apadrinhado pela Bete Carvalho que visitou São Mateus e a Tia Cida algumas vezes. Ela mesma estava presente no lançamento do CD, no Sesc, onde se homenageou a Tia Cida, considerada a Mãe do Samba.

“A rotina da minha casa era com gente chegando para ensaios, visitas e intercâmbios com outros grupos de samba e mais água no feijão para alimentar alguns deles”, ri, também lembrando quantas vezes acompanhou os filhos à fábrica de instrumentos situado na Avenida Celso Garcia. “Essas coisas todas foram acontecendo durante os últimos vinte anos. Talvez seja por isso que, essa moçada, gentilmente me considera dessa maneira”, diz humildemente. Apesar da maior divulgação que os bons grupos de samba hoje estão tendo, Tia Cida mantém a reflexão e alerta para o preconceito que ainda se mantém com o samba.“Fiquei feliz por eles me quererem no palco, embora eu goste mesmo é de ficar junto do povão”, explica tia Cida sobre o que ocorreu no Sesc que concretamente foi um belíssimo show com a sua participação logo no início em atendimento a um refrão que faze menção ao seu nome. Tia Cida entrou no palco e sob aplausos cantarolou e dançou o semba ou o lundo como sua vó dançava, mantendo acesa a chama da cultura como só uma verdadeira mãe do samba faria. – Publicado na Gazeta de São Mateus, ed251

Written by Página Leste

2 de outubro de 2007 às 9:40

Publicado em Sem categoria

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