O Movimento Popular de Saúde – São Mateus
O Movimento Popular de Saúde da Região de São Mateus teve início em 1979 e o mesmo ocorria em várias outras regiões da Zona Leste e a estratégia era a mesma. Em geral, iniciava-se com o estímulo dos padres progressistas da Igreja Católica, embalados pela Teologia da Libertação, que foi fruto de uma profunda reflexão da Igreja nos Encontros de Puebla, México e Medellín, Colômbia, diante das iniqüidades e injustiças sociais que perpassavam todo o continente americano e, em geral os paises do Terceiro Mundo.
No final dos anos 70 a ditadura militar agonizava e um novo alento era dado aos movimentos sociais populares. Forças de esquerda até então engessadas por tanta perseguição, tortura e mortes se reagrupava. Desta vez com menos vanguardismo queriam construir e emancipar a população mobilizando-as para que travassem suas próprias lutas. Era mais ou menos esse o pano de fundo onde atuaram valorosos militantes, principalmente médicos sanitaristas na Zona Leste.
A comunidade em geral era convidada pelos padres atuantes a participar em reuniões com os médicos sanitaristas onde se falava da saúde da mulher, de vacinação, nutrição, epidemias e naturalmente das péssimas condições do serviço de saúde do bairro e das desigualdades sociais. Em São Mateus, um dos médicos que fez esse percurso é o atual secretário do Verde e Meio Ambiente da Prefeitura de São Paulo, Eduardo Jorge que antes havia sido deputado federal por diversos mandatos pelo PT. Na época as mulheres de São Mateus tinham que recorrer ao Centro de Saúde de Itaquera, o Centro de Saúde de São Miguel Paulista, Vila Prudente e da Penha. Também havia alguns serviços de saúde em casas alugadas no Jardim Colonial.
O grupo que ser formou em São Mateus, a exemplo dos outros foi reivindicar junto a Secretaria Estadual de Saúde mais postos de saúde. O preparativo para a ida até a Secretaria demandava muita organização, arrecadação de recursos para as despesas com faixas e cartazes e aluguel de ônibus. Na época o secretário era o Adib Jatene que diante da força do movimento foi posteriormente até o bairro onde foi recebido por uma multidão aglomerada em frente à Capela de São Mateus. Uma carroceria de caminhão serviu de palco para a encenação do que era a vida dos moradores da Zona Leste quando precisavam de serviços de saúde. O mesmo expediente era utilizado em outros focos do movimento na Zona Leste. Para São Mateus ficou de a população localizar casas que pudessem ser alugadas para receber os postos de saúde. NO início da década de 80, enquanto não se construíam postos próprios algumas unidades foram alugadas.
Depois de conquistados os postos parcialmente o movimento em geral refluía um pouco, mas os que ficaram criaram os primeiros conselhos populares, em São Mateus, por exemplo, um deles era do Jardim Iguatemi. Os militantes iam de porta em porta pedindo para que a população exercesse seu direito de voto. Com a persistência muitos aprenderam a exercer um pouco de sua cidadania. As principais conquistas do movimento foram os cerca de 18 postos conseguidos no período. O intercâmbio com os outros movimentos de saúde espalhados pela zona leste resultou em um fortalecimento do movimento que hoje está mais envolvido em melhorar e manter a qualidade do atendimento dos postos de saúde e na criação de alguns movimentos e espaços mais amplos de organização popular.
O Conselho Popular de Saúde continua tanto quanto possível organizando a participação popular e promovendo o diálogo com as autoridades. Hoje são aproximadamente 100 militantes na Zona Leste, compondo 10 regiões. Desse grupo 80% se compõem de mulheres, que têm uma dedicação quase que diária ao MPS. “É difícil. Já houve dia de querer largar tudo, mas a Teologia da Libertação me ensinou que, quando se trata de igualdade e justiça, de grão em grão a galinha enche o papo. Tem valido a pena. Vai valer sempre”, testemunha uma das conselheiras de nome Luzinette.
“Eu topo”
Num fim de tarde do início de 1980, Luzinete dava os últimos retoques na casa para que o marido encontrasse tudo a seu gosto no retorno do trabalho — não lhe rendendo nenhuma reclamação ou suspeita sobre suas atividades clandestinas — quando aquele médico sanitarista que participava das reuniões das mulheres sobre saúde bateu no seu portão com um convite simultaneamente incompreensível e atraente. “Naquela época a gente não sabia de ditadura, democracia, eleição, partido. Era tudo meio nebuloso, mas, ao mesmo tempo, interessante. Então ele me contou que tinha um pessoal montando um partido com o nome de Partido dos Trabalhadores. Era gente interessada na luta, e para abrir o PT eles precisavam de filiados e explicou que, como eu estava envolvida com Movimento Popular de Saúde talvez, eu quisesse participar. E me fez o convite. Eu topei na hora e fui uma das primeiras filiadas do PT”, diz Luzinette. O médico sanitarista era o atual secretário da Saúde do Município de São Paulo, Eduardo Jorge. – Publicado na Gazeta de São Mateus, ed251
Deixe um comentário