Breve história de São Mateus
O bairro de São Mateus às vésperas de completar 59 anos de fundação ainda tem muita luta pela frente para alcançar a plenitude de seu desenvolvimento e, aparentemente, se considerarmos os avanços recentes e os planos previstos principalmente para as alterações urbanísticas previstas o tal do desenvolvimento poderá acontecer. Assim esperam as lideranças e a comunidade local.
Para se chegar até aqui, essa história toda começou lá pelos idos de 1840 quando toda a região era de fazendas de propriedade de João Francisco da Rocha que posteriormente foi vendida para Antônio Cardoso de Siqueira que posteriormente dividiu-a em cinco glebas já indicando as severas transformações porque vinha passando a economia que já não comportava grandes fazendas.
Até a década de 40 ainda era a Fazenda Rio das Pedras até que em 1946 uma gleba de 50 alqueires foi vendida à família Bei (Mateo e Salvador Bei) que vieram da Itália em pleno período da II Guerra Mundial e quando o Brasil definitivamente era o destino de muita migração européia dando origem a que foi chamado de fazenda São Mateus.
Os imigrantes aparentemente não tinham a intenção de tocar fazendas na periferia da cidade de Santo André e de São Paulo de então e em 1948, o seu patriarca Mateo Bei decide lotear a área vendendo os primeiro lotes já de olho no que se iniciava como área de desenvolvimento industrial do ABC nos anos seguintes. O patriarca provavelmente percebeu que São Paulo e o ABC durante o período já era o destino de milhares de migrantes que vinha para a região para tentar trabalhar na nascente indústria.
Entretanto as dificuldades para fazer o loteamento intenso do local em função das distâncias dos locais mais desenvolvidos como, por exemplo, a Penha e São Miguel Paulista que já na época eram locais mais consolidados fez com que a empreitada fosse feita na base de promoções. Os loteadores então para incentivar os possíveis compradores ofereciam material de construção: telhas e tijolos das mais diversas olarias próximas que eram puxadas através dos caminhos por carros de bois. Funcionou e as casas, em geral, eram feitas em sistema de mutirão.
O patriarca da família Mateo Bei que tinha interesse no crescimento do local também foi um incansável batalhador pela formação cultural e sócio-econômica de São Mateus e fez escola. Os seus descendentes filhos e genros adquiriram mais de um milhão de metros quadrados do que era conhecido à época como Fazenda do Oratório e também a lotearam aumentando ainda mais a região que tinha dimensões de cidade; por isso chamar-se inicialmente Cidade de São Mateus.
Coube a Nildo Gregório da Silva a missão de coordenar os primeiros trabalhos de abertura de ruas no final de 1946, como funcionário da empresa responsável pela terraplanagem da avenida que posteriormente ficou conhecida como Mateo Bei, em homenagem ao homem que iniciou o loteamento exatamente em seu ponto zero na Avenida Caguaçú, mais tarde conhecida como Avenida Rio das Pedras. A tração para sulcar a terra e estabelecer ruas era feita por burros.
Nildo residia na época em São Miguel e tinha que sair de casa por volta das 3 horas da manhã para chegar a São Mateus as 8h00. Tomava três conduções e ainda andava a pé por cerca de três quilômetros até o Largo do Carrão para pegar outro ônibus. Essa via sacra levou três anos quando então apareceu na pré-história das lotações o pau-de-arara, muito comum na época. A abertura das ruas levou anos para ser realizada e Nildo além de se mudar posteriormente para São Mateus assumiu o papel de defensor do bairro sendo uma de suas primeiras lideranças.
À exemplo de como foi o crescimento na periferia desordenada de São Paulo injusto e concentrador, o desenvolvimento ficava reservada para onde estavam as fortunas paulistanas de então; os ex-barões do café e agora capitães da incipiente indústria e do comércio estavam concentrados no eixo que hoje é compreendido como centro expandido Praça da Sé até a Mooca; até a Avenida Paulista; até as bandas da Barra Funda e Sumaré e outros lugares para onde o poder público reservava seus melhoramentos como iluminação pública, saneamento, serviços de saúde pública, boas escolas e todo o aparato público que pudesse ser instalado.
A estratégia dos loteadores eram abrir novos loteamentos em lugares distantes desprovidos de benfeitorias públicas que através do seu adensamento acabava constrangendo a prefeitura e o Estado a levar, mesmo que a contragosto alguns serviços públicos até o local. Em geral a primeira demanda era por transportes daí os primeiros ônibus começarem a circular de forma mais intensa no início dos anos 50.
Muito provavelmente Nildo Gregório que havia se estabelecido no local para agregar mais valor de uso ao loteamento que se iniciava e que atendia os interesses envolvidos a época e o interesse dos moradores deram início à luta pelo desenvolvimento regional inaugurando uma longa tradição de São Mateus que perdura praticamente até nossos dias. Em 1952 ele fundou a associação "A Voz da Colina", com um inovador serviço de alto-falantes puxados por carroça por meio do qual a população apresentava suas reivindicações nas áreas de transportes, saúde e educação. O slogan da associação – "Entra no ar a nossa divulgadora A Voz da Colina, uma voz amiga que cruza os céus de Piratininga”, ficou na memória dos são-mateuenses.
Muitas demandas; muitas lutas e foi graças ao empenho dos moradores e de suas lideranças que São Mateus ganhou sua primeira escola, um galpão de madeira improvisado, em 1951 e uma escola estadual em 1953. Para se ter uma idéia o asfaltamento de sua principal via a Avenida Mateo Bei foi feito em 1962 e a rede de água só chegou em 1976.
Eram as lutas populares que impulsionavam o desenvolvimento local para transformar o local ermo em um bairro de fato e era chegada a hora do comércio fazer sua parte. O primeiro ponto comercial que se tem notícia era o Empório do Eustáquio instalado em 1949 seguido no ano seguinte pelo Empório do Maninho. A partir de então, os moradores também tinham onde comprar mercadorias de primeira necessidade.
Enquanto o entorno da Avenida Mateo Bei crescia lentamente e não havia empregos no local os trabalhadores se desdobravam em longas e penosas jornadas. Utilizava-se de jardineiras _espécie de ônibus sem horários fixos_ ou pau-de-arara para chegarem até o Largo do Carrão de onde saiam algumas conduções para os locais mais desenvolvidos até que em 1950 dois ônibus começaram a fazer o itinerário do local até a Avenida João XXIII em percurso com muito buraco e poeira onde tinham que dividir espaços com galinhas, mercadorias que eram transportadas pelos usuários. Nem é preciso lembrar que em épocas de chuvas as coisas se complicavam e era comum ver os passageiros tentando desatolar os veículos.
Foi somente em 1952 que a primeira linha passou a funcionar com alguma regularidade da Empresa Cometa que ia até a Avenida Sapopemba. Muito posteriormente é que se instalou a Empresa de ônibus Vila Carrão.
Na década de 50 e início dos anos 60 tinha tudo por se fazer na região e foi uma época de muita luta dos moradores por implantação de asfalto, redes de água e esgoto, iluminação pública e outros serviços como delegacias e agências dos Correios. Dizem até que uma das principais lutas foi pela construção de escolas, visto que a mais próxima distava sete quilômetros entre a Vila Nova Iorque e Vila Antonieta e para onde a maioria das crianças ia a pé. Entretanto, segundo os historiadores foi diante de uma fatalidade envolvendo o estupro de uma criança de dez anos que a luta se intensificou até que em 1955 a Secretaria da Educação construísse um primeiro galpão de madeira para servir de escola.
Vale registrar que a fundação da primeira paróquia da Igreja Católica data de 1958.Naturalmente as lutas e as reivindicações _que tiveram um longo período de refluxo durante a vigência da ditadura militar até por volta de 1976_ continuaram e no final dos anos 70 e inicio dos anos 80 a região estava envolvida nos movimentos de saúde, contra o custo de vida e nos diversos movimentos populares, principalmente estimulados pela Teologia da Libertação da Igreja Católica no período. – Publicado na Gazeta de São Mateus – ed251
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