Acidente em Congonhas: A caixa preta nem foi aberta; é cedo para concluir
Todas as revistas semanais, os jornais diários e os principais programas televisivos, vêm dando destaque ao acidente com o Airbus A-320 da TAM que ultrapassou os limites do aeroporto de Congonhas indo se chocar com um posto de carga da própria empresa onde trabalhavam mais de uma centena de pessoas. Não tinha como ser diferente.
Um acidente de tamanha proporção vitimou todos os passageiros e tripulantes da aeronave e quase todos os que estavam no prédio. O que se viu a seguir foram imagens que deixou atônito qualquer um que estivesse prestando atenção. Impossível imaginar o que sentiram as vítimas no instante do choque e o incêndio que se seguiu. Pêsames as famílias de todas as vítimas.
Na cobertura sobre o acidente, os meios de comunicação cumpriram a risca o seu papel dando publicidade ao fato, entretanto, não tem como não se incomodar com o papel que alguns destes e seus respectivos colunistas estão fazendo. Uma primeira observação é a precipitação com que, colunistas adversários declarados e outros nem tanto do atual governo federal, estão tendo e, portanto, fazendo muito malabarismo para carimbar o acidente em função da negligência das autoridades.
Faz parte da boa prática do jornalismo trabalhar com especulações. Por exemplo, se a falta de ranhuras na pista de Congonhas poderia causar o acidente; se as condições climáticas daquele instante permitiriam um pouso seguro. Claro que vale especular; o que não se pode é concluir com a precipitação e velocidade igual a da aeronave em questão. A cada hora está mais difícil sustentar as conclusões atabalhoadas sob meras suposições de alguns veículos que já apontaram, de antemão, como sendo responsabilidade apenas do governo federal. Isso só o tempo, as investigações e a serenidade poderão apontar. O que não fica bem é num momento de tanta dor e pesar, jornais, revistas e TV´s tentarem fazer “guerrinha” política de aprofundamento da crise contra seu adversário.
Diversos políticos também se comportam com a mesma afobação. Um exemplo é o deputado federal Raul Jungmann (PPS), para ficar só neste nome, que protocolou um pedido de esclarecimentos do governo federal, como se isso fosse necessário e a investigação sobre o acidente não fosse ocorrer. Outro que não dá para deixar de citar é o governador de São Paulo, José Serra, que uma hora após o acidente estava no local insinuando responsabilidades do governo federal. Interessante notar que o governador simplesmente desapareceu e deu muito poucas declarações durante o acidente que ocorreu meses atrás nas obras de construção de uma estação de metrô que desabou e fez diversas vítimas. Nesse o Governo do Estado tem responsabilidade também, pois, foi por sua decisão que a responsabilidade das obras foram passadas para as empreiteiras.
Vamos supor que fazemos coro aos descontentes e parte da grande mídia e responsabilizemos o governo. Fica resolvido o assunto? Onde ficam as responsabilidades das empresas aéreas vendendo mais passagem do quem tem disponível fazendo com que os intervalos entre os vôos vão se reduzindo indefinidamente até o esgotamento completo dos controladores de vôos e dos operadores da infra-estrutura aeroportuária? Qual administração de um aeroporto vai conseguir produzir bons resultados e com segurança fazendo baixar e levantar aviões com milhares de seres humanos como se fosse uma fila de táxi com enorme demanda ou ônibus e metrôs em horários de picos? Mais ainda e de novo, porque as empresas colocavam em suas escalas passar por Congonhas agregando mais valor de uso porque disponível para maior lotação de suas naves e em muitas dessas viagens sem necessidade. Que “fresta” na legislação municipal, estadual e federal permitiu a construção de um prédio de altura irregular pertencente ao ramo de “diversões noturnas” de uma marca muito conhecida pela visita de lazer de políticos e executivos? Houve ou não problemas que só a caixa-preta pode revelar, mas que de forma afobada parte da mídia e leitores superficiais já sabe num estranho exercício de adivinhação?
Os leitores ainda vão argumentar; tudo bem, mas o governo deveria ter feito alguma coisa. Deveria mesmo: na esfera federal, estadual e municipal. Vamos fazer agora outro exercício. Se eles que, insisto, não podiam prever o acidente em si tivessem feito intervenções, que agora forçados pela desgraça parece terão que fazer, a mesma parte da grande mídia estaria batendo e forte contra os governos alegando que eles estariam interferindo nos lucros da iniciativa privada; que estariam inibindo a população poder viajar de avião e não resolvendo o caos aéreo que de fato existe, mas que temos de reconhecer que tem diversas razões se formos pessoas sérias.
Acidentes como aquele não podem e nem devem mais ocorrer. É disso que se trata, talvez agora dormindo com a lembrança da tragédia todos os atores dessa questão: empresas, governo e usuários possam dar a sua contribuição para evitar novas ocorrências.
O proveito político que as oposições ao atual governo buscam obter e, infelizmente esses movimentos, como de um jogo de xadrez, faz parte da cultura política no mundo todo e, no caso em questão, ainda não diminuíram. Aumenta a temperatura das críticas ao governo Lula em função da crise no setor aéreo. Editoriais e colunistas já sugerem um colapso do que chamam “corriola” de incapazes de governar o país. Até um ministro do Superior Tribunal Militar sugere que “pessoas do bem vão se pronunciar como já fizeram em um passado não muito distante”, insinuando que começam aparecer discursos de caráter golpista. É só rastrear para constatar.
Da mídia e dos seus movimentos, pouca novidade, faz parte do jogo político e de interesses nem sempre leal. Entretanto, qual é mesmo o papel da Justiça Militar no Brasil? Segundo o site do próprio STM, é julgar “apenas e tão somente os crimes militares definidos em lei”. O que estará acontecendo, então?
De volta a questão: com alguns fatos que conhecemos e outros que esperamos conhecer, culpar apenas o governo federal, do qual não temos procuração e para o qual também temos críticas, pelo acidente aéreo é concluir de forma leviana sobre tudo que está ocorrendo. (JMN)
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