Iguatemi: 107 anos para comemorar e lamentar
De acordo com prognósticos do IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em 2010 o distrito de Iguatemi, em São Mateus deverá ter algo próximo de 173 Mil habitantes, um acréscimo sensível visto que em 1996, portanto apenas dezesseis anos antes da data prevista o distrito tinha 89.835 habitantes. Coisa do dobro de gente. Entre os distritos de São Mateus que engloba São Mateus, São Rafael e Iguatemi é o que mais cresce.
Algumas marcas específicas recentes identificam o bairro. No caso do Iguatemi o funcionamento de um depósito de material de construção em área aberta com suas montanhas de areia e pedra de construção é uma delas. Outra: o traçado da Avenida Ragueb Chohfi, no coração do distrito, toda sinuosa e com o leito carroçável bastante irregular para comprovar o intenso tráfego de todos os tipos de veículos a qualquer dia e horário.
Nem poderia ser diferente é mais um distrito que cresceu acompanhando a dinâmica da periferia da cidade de São Paulo. Apesar de seus mais de 100 anos de existência formal não se pode dizer que seja um distrito planejado, pelo contrário, em comparação com outras regiões de São Mateus torna-se o patinho feio, mas como não é o último da lista em comparação com outras vilas também de São Mateus já não é um patinho tão feio.
Se a conformação arquitetônica é típica de uma periferia sem planejamento o mesmo não se pode dizer da sua inquietação econômica. O distrito de Iguatemi com suas centenas de lojas, comércios, prestadores de serviços regulares e irregulares apresentam uma pujança permanente.
Qualquer observador mais atento poderá constatar que são as suas ruas principais e avenidas que acorrem parte desses milhares de moradores atrás de satisfazer suas necessidades em termos de compras, educação, convívio religioso e social.
Das origens
De acordo com matéria neste mesmo veículo em maio de 2002 a idade real do distrito ou do bairro é assunto a ser apurado. Concretamente nenhum bairro e vila têm um dia de inauguração de fundação. Essa data sempre será algo aleatório se referindo a um determinado período histórico de uma determinada localidade. O que se sabe e qualquer um podem testemunhar é que a ocupação de alguma localidade é sempre algo feito dia-a-dia, ano-a-ano numa expansão quase que permanente até que toda a localidade seja ocupada com residências e construções. Assim foi também com Iguatemi
Na matéria referida uma senhora identificada apenas como Dona Rosinha afirmava que morava no Palanque, uma das vilas do distrito há pelo menos 63 anos. Na ocasião ela afirmava que o bairro teria mais de 100 anos. Dona Rosinha lembrava com algum grau de alegria e outro tanto de melancolia do que passou de dificuldades; ela e seus contemporâneos. Saudosa indicava que o progresso que o bairro verificou tirou a tranqüilidade outrora existente. Outra manifestação muito comum entre os moradores mais antigos das periferias de São Paulo.
“Era só mata virgem. A gente ia a pé daqui para Santo André. Eram apenas carros de boi transportando madeira”, lembra. A atual Ragueb Chohfi com seu intenso e insano trânsito foi lembrada pela personagem com suas cercas de arame que demarcava as propriedades e os buracos nas laterais ocupados pelo gado. As cercas eram usadas para cercar esse gado, muito abundante nas pequenas e grandes fazendas da época.
Dona Rosinha, na ocasião, continuava seu relato citando conhecidos como o “seu Nicolau”, “seu Cipriano”, “seu Ernesto e seu Vitório”, são alguns entre os lembrados de morarem e trabalharem no bairro, conhecido à época como bairro da Estiva. Dona Rosinha lembra de trabalhar quando mocinha entregando leite de casa em casa. Para irem à feira os moradores se locomoviam até Guaianases. Para irem ao cartório de registro civil tinham que ir para o bairro de São Miguel ou para as cidades vizinhas, Rio Grande da Serra, Santo André e Diadema.
Todas essas indicações feitas pela personagem da matéria faziam referência aos anos 30 e 40 o que testemunha a favor da possível antiguidade do bairro.
Uma fazenda transformada em bairro
“Do Palanque até o Jardim Colônia, dois pontos cardeais do distrito do Iguatemi pertenciam a uma única fazenda chamada Iguatemi de propriedade de Saturnino Pereira, personagem que hoje da nome a uma importante rua da zona leste". “O Inácio Monteiro, Cidade Tiradentes, Vila Iolanda era tudo do Saturnino”, diz dona Rosinha indicando a imensidão que era a fazenda. Na Cidade Tiradentes ainda fazia divisa com a Fazenda Santa Etelvina onde à personagem desta história carpir e colheu muito feijão. Com o tempo as duas fazendas foram dando lugar a loteamentos que em constantes transformações chegaram a ponto que hoje se encontram.
Igrejinha e tomar licor eram os passatempos
Dona Rosinha conta que entre seus afazeres estava trabalhar com o carregamento do carro de boi e a entrega de lenha nas vilas e nos bairros vizinhos como Sapopemba, por exemplo. Seu pai Guilherme Márquez trabalhava com lenha e era um dos grandes animadores das festas juninas. Naquela época, segue a antiga moradora o divertimento da nossa juventude era se reunir em torno das igrejinhas, trocar idéias e tomar o “rosa só” que era um licor preparado com a combinação de uma erva do mesmo nome, água, canela e cravo. “Enchíamos os garrafões e meus irmãos levavam até a igrejinha. A cada mês uma família diferente fazia o licor. Não havia briga”, rememora.
Seu Sinésio orgulha-se do Jardim Iguatemi
Por ocasião desta matéria de 2002 que reproduzimos Sinésio Barbosa, tinha 71 e há 48 era casado com Brasília. Nascido na 3ª Divisão orgulha-se pela região onde mora e afirma com veemência que jamais mudaria para outro lugar. “Seu Sinésio” como é conhecido é mais um anônimo que contribuiu com as próprias mãos para o crescimento do Jardim Iguatemi. Viu muita gente chegar ao bairro, viu outras partirem, viu o progresso bem como vê com tristeza que este mesmo progresso traz problemas como a insegurança.
Ele conta que a 3ª Divisão fazia parte de um povoado que se chamava Carvalho de Araújo que mais tarde se tornaria o bairro de Guaianases. Disse que na época de sua infância as pessoas viviam da plantação de milho, feijão e cana e das olarias, aliás, que muito tempo foi uma das referências da 3ª Divisão e do Iguatemi. Disse que na juventude trabalhava em um alambique da região cortando cana. Outra fonte de renda era a venda de lenha para as cidades e bairros vizinhos.
“O pouco que ganhávamos na época eram mais que suficiente, pois não havia onde gastar. Tínhamos tudo que precisávamos em nossas casas, desde legumes e verduras até frangos, porco e boi”, rememora, citando ainda que as festas juninas e assistir as partidas de futebol de várzea eram os grandes divertimentos de sua época da juventude.
“No meu tempo de moço era bom, eu ia a pé até São Mateus, voltava de madrugada e nada acontecia. Hoje quando escurece ficamos com medo e temos que nos trancar em nossas casas”, lamenta.
Testemunha do crescimento da região, “seu Sinésio” lembra que a luz elétrica chegou em 1971 e com exatidão cita a data em que foi asfaltada a Estrada Aurora Joaquim, hoje Bento Vieira: cinco de novembro de 1973.
Dados sócio-econômicos para a reflexão
Uma leitura atenta aos dados estatísticos disponíveis a partir do levantamento da própria subprefeitura de São Mateus baseado em dados oficiais coletados em todo o município e do IBGE mostra sinais preocupantes para o distrito que, embora secular, ainda pode reverter tendências e evitar o agravamento dos problemas já existentes.
Território: O distrito do Iguatemi limita-se ao norte com o Parque do Carmo, José Bonifácio e Cidade Tiradentes; a oeste com São Mateus e São Rafael; ao sul e leste com a cidade de Mauá.
Demografia: O distrito conta com uma população jovem de 0 a 19 anos com destaque para crianças até quatro anos que é superior a população a partir dos 40 anos. Este perfil etário da população traz grande desafios ao poder público no sentido de implementar políticas sociais. Com 107 anos de existência o número de creches, unidades básicas de saúde, escolas são poucas.
Perfil sócio-econômico
Comparando-se com todo o distrito e toda a área de atendimento da subprefeitura de São Mateus, Iguatemi concentra uma faixa de moradores com altíssima vulnerabilidade apresentando os piores índices. Com todas as carências que ainda apresenta só o fato de a presença de crianças e adolescentes no Iguatemi ser muito superior comparativamente a toda área da subprefeitura é um agravante.
Os anos médios de estudo estão por volta de 3,87 contra 5,10 do distrito e 5,82 de toda a subprefeitura indicando tempo médio de estudo mais baixo. A renda média do setor Iguatemi tem uma distância para a renda média do distrito em 1,92 vezes menor e de 4,10 vezes menor para toda a área da subprefeitura.
Os moradores do Jardim Iguatemi se deslocam para outras regiões em busca de serviços básicos como postos de saúde e escolas, ou seja, a carência do distrito Iguatemi é evidente.
O distrito de Iguatemi, segundo levantamento da Supervisão de Assistência Social da Subprefeitura de São Mateus que disponibilizou os números acima ainda apresenta em algumas regiões indústrias que oferecem empregos aos moradores locais, entretanto, de forma estacionária, a exemplo do pequeno comércio de vários setores dispostos no distrito não apresentam perspectivas de expansão. Áreas agrícolas significativas não mais são encontradas, entretanto ainda é um bairro que apresenta algumas unidades de hortas domésticas.
O estudo indicou ainda que os principais problemas são o desemprego e o subemprego; a carência alimentar; a baixa presença dos serviços públicos; a precariedade na infra-estrutura urbana provocando riscos à saúde da população e a ausência de serviços de atendimento as crianças.
Indicam ainda que duas áreas estão em processo de regularização fundiária e por sua localização em áreas de proteção e preservação ambiental apresenta associada à problemática social, uma situação de risco ambiental que exige abordagens específicas por parte do poder público.
O adensamento que algumas áreas vêm sofrendo nestes anos deverá ser estudado, pois está implicando no aumento das áreas de altíssima privação e carência.
Diante desses poucos dados apresentados, percebe-se que se os moradores do Iguatemi podem comemorar o seu crescimento e expansão deve, também, observar a expansão vertiginosa de suas carências e mazelas. Diante disso, só uma população organizada e com clareza de objetivos pode interferir e reverter esse processo que aparentemente aponta para o aumento dos problemas.
Publicado na Gazeta de São Mateus, ed. 242, maio de 2007
Deixe um comentário