Centro da cidade: pancadas e orações
O prejuízo com os gastos para reembolsar os comerciantes que tiveram as dependências de seus estabelecimentos danificados na manhã do dia 6, durante os conflitos entre a Polícia Militar e parte do público presente a Praça da Sé no show de rap do grupo Racionais MC vai sair dos nossos bolsos.
Se não diretamente, indiretamente com certeza, visto que a Prefeitura, segundo declarações do atual prefeito, Gilberto Kassab, vai arcar com os gastos eventualmente apurados. São bancas de jornal, lojas, lanchonetes, restaurantes que foram alvo da ação de vândalos em debandada durante os conflitos na praça e em seu entorno.
As cenas passadas nas TV´s não deixam dúvida de onde começou a confusão. Animados com o rap combativo e de protesto dos Racionais MC´s e, eventualmente embalados pelo estado de ânimo típico de adolescentes e jovens em grupo, estes se colocaram desafiadoramente diante de uma guarnição da PM que, até o momento em que foi obrigada a intervir, postou-se adequadamente zelando pela segurança da população que participava da iniciativa da prefeitura durante os shows da Virada Cultural.
Para alguns comentaristas de rádio e de televisão, o tipo de música incentivou a rebeldia. Para estes os ânimos se agravaram diante da possibilidade bastante palpável do abuso de álcool e drogas antes e durante o evento.
O fato é que até onde se pode verificar o confronto começou diante da insistência de alguns jovens subirem em cima de bancas de jornal e invadirem sacadas da praça no intuito de ver melhor o que acontecia no palco. Invasão de propriedade, nos dois casos. Diante do pedido dos policiais militares, não atendidos por esse grupo, o que se viu foi à polícia tentar tira-los gerando a confusão e agressões de parte a parte a ponto de inviabilizar a continuidade do show. As escaramuças disseminaram a violência para o restante da praça.
Como uma onda a sucessão de violência foi chegando até àqueles que comportadamente prestigiavam o show e contribuíam para abrilhantar o evento que diante desse incidente mais grave não pode ser condenado como um todo.
O que se viu nas cenas reprisadas à exaustão pelos canais de televisão foi um bando de vândalos e deseducados pela própria vida, eventualmente alcoolizados e drogados e em êxtase com as letras ácidas e ferinas dos Racionais MC´s depredando bens públicos e particulares, saqueando lojas e lanchonetes e infringindo o terror nas pessoas por onde passavam; pessoas essas que atenderam ao apelo da Virada Cultural e participaram das várias iniciativas que ocorriam na cidade.
Uma semana depois foi à vez do papa entre nós que reuniu pessoas aos milhares sem que se registrem grandes incidentes como a da praça da Sé. O que muda? Não são milhares aglomerados no mesmo local? Muda a índole das multidões. A primeira da Sé em euforia, com muita gente embebedada e drogada, soltando as frustrações no vizinho e no patrimônio regados a uma mensagem musical que evidencia a posição de subalternidade que o grosso do povo ocupa.
Na segunda atividade outra multidão, a que acompanhau as andanças do papa, numa outra sintonia. Talvez em transe, talvez eufórica, na mesma posição de subalternidade, mas envolvidas numa religiosidade, numa busca de outras ondas que não permitem a disseminação da violência.
Mas não nos enganemos. Enquanto o papa abençoava, os deputados aumentaram seus vencimentos, os cambistas vendiam entradas que eram gratuitas, os batedores de carteira surrupiavam míseras economias, enquanto os fiéis buscavam a redenção. Não tem por ai, também alguma dose de violência, mesmo que sutil? (JMN)
Publicado na Gazeta de São Mateus, 242, maio de 2007
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