É Vila Bela, mas poderia ser Vila Calamidade
Quem chegar à Vila Bela, no distrito de São Mateus, entrando pelo acesso principal a Avenida Pedro de Medeiros durante as chuvas torrenciais ou logo após ela cair vai se deparar com todas as dificuldades possíveis para transitar. De carro, nem pensar. É ter a certeza d encalhar mais a frente. Pode até se manter na avenida, mas não consegue acesso em uma de suas transversais.
A Rua Edmilson de Oliveira, onde a moradora Patrícia Araújo já mora há três anos é um exemplo. Só mesmo à pé e com cuidado redobrado para não torce-lo diante de tantos buracos. Os moradores até que colocam cascalhos neles, mas a força das águas de chuva os faz escorrerem até os córregos próximos que vivem assoreados por outros tantos dejetos lançados pelos próprios moradores.
Na Rua Clara Nunes, Rua Oscarito, Rua Francisco Alves, Ataulfo Alves a situação em que se encontram deve estar fazendo esses artistas se revirarem em sua tumba tamanha à precariedade em que se encontram. Na Rua Oscarito, por exemplo, o acesso de carro já não é possível porque o assoreamento verificado no córrego que atravessa a rua estreitou a largura da rua, deixando a mostra uma tubulação inoperante.
Na Rua Clara Nunes, por exemplo, os moradores inadvertidamente dão sua conta de contribuição para as dificuldades do lugar. A beira do córrego que passa logo no início, paralela a avenida está se formando um ponto viciado de entulhos, ou seja, um local onde estão jogando entulho que certamente escorrerá para dentro do córrego durante as próximas chuvas.
Durante essa pequena inspeção, a reportagem constatou que o rigor das chuvas que tem caído em São Paulo já mudou a rotina de muitos moradores. Ruas por onde transitavam carros dos moradores, hoje mal servem aos pedestres.
Mas não é somente o resultado das chuvas que assustam os moradores. A falta de saneamento básico e o fornecimento de água para as casas que circulam por quilômetros de estreitas e improvisadas mangueiras tem propiciado o aparecimento de um número crescente de pessoas com doenças e infecções próprias da insalubridade do local.
Em diversos pontos as mangueiras por aonde a água chega às casas estão no mesmo local por onde correm os esgotos à céu aberto. A água não tratada e que já tem origem duvidosa vindo de diversas fontes que ainda existem na região ainda pode ser contaminada através das várias emendas e furos no encanamento.
A persistência de ratos que convivem com famílias com várias crianças também dá uma dimensão do problema. Como as diversas ruas ou ruelas não podem ser alcançadas pelos caminhões que recolhem o lixo, várias caçambas estão espalhadas por pontos estratégicos, entretanto, a periodicidade com que é esvaziada, uma vez por semana, sendo que às vezes demora ainda mais e o uso inapropriado pelos próprios moradores faz desses pontos os lugares preferidos das centenas de ratazanas que circulam pela Vila Bela aterrorizando a todos.
Vila Bela: sem solução aparente à vista
A Vila Bela ou Calamidade fica no distrito de São Mateus, zona leste da cidade de São Paulo e é uma área de 1 milhão e 125 mil metros quadrados ocupada pelos atuais moradores nos últimos 14 anos. De lá para cá as várias pendências indicaram que o local tem como proprietário Antonio Mikail que em diversas ocasiões, segundo lideranças locais se predispôs a negociar.
Para William José da Silva, que está na área desde o início o desinteresse é do governo municipal e do governo do Estado. “Já travamos várias lutas para manter nossas casas e tentar a regularização. Até no palácio do Governo do Estado estivemos em passeata e até agora nada se resolveu”, reclama.
O mais próximo que o local esteve de uma possível saída que contemplasse todas as partes envolvidas foi em 2005, quando da gestão do deputado Adriano Diogo (PT), na Secretaria do Verde e Meio Ambiente. Segundo ele, na ocasião surgiu uma proposta interessante, mas que, entretanto, não foi aceita pela prefeitura. Antonio Mikail que representa suas tias, as reais proprietárias queria ceder a área da Vila Bela a custo zero desde que a prefeitura comprasse à preço de mercado uma outra área de mata nativa de tamanho considerável e passível de conservação. “Na época, a prefeitura não aceitou, embora a Secretaria do Verde e Meio Ambiente tivesse interesse”, esclareceu o atual deputado.
Segundo William José durante todo esse tempo algumas ordens de despejo foram barradas e a última tentativa de despejo está em suspenso, por enquanto. “A prefeitura alega que não pode entrar em área particular; o governo do Estado também, enquanto isso vamos enfrentando todos esses problemas que parecem nunca acabar”, indica.
Para a liderança os governos devem tomar alguma providência, até mesmo acertar a situação com os proprietários caso haja mais de um, através de algum tipo de programa de interesse social. “Vai chegar uma hora que os governos vão ter que assumir alguma responsabilidade com essas quase 100 mil pessoas que moram por aqui. Da nossa parte vamos continuar na luta pela regularização e seria bom contar com a ajuda da comunidade que, às vezes está desanimada ou acomodada”, indica. (JMN)
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