A reunião promovida pela Gazeta de São Mateus para discutir a implantação do Expresso Leste pela região indicou, depois de horas de debate franco e aberto, à necessidade de mais debates. Da próxima vez com representantes da empresa Sptrans com que está a responsabilidade pela implantação do que é conhecido como “metro sobre rodas” que vai do Parque Dom Pedro, no centro da cidade de São Paulo até a Cidade Tiradentes passando por São Mateus.
Para debater o tema no dia 10/02 representando a subprefeitura de São Mateus, o engenheiro Nilson tentou esclarecer pontos do projeto. Fez o que pode, deu informações, respondeu a perguntas, polemizou quando foi necessário e concordou com algumas críticas feitas pelos presentes.
Coordenada pelo professor Antonio Carlos, do CDL Clube de Diretores Lojistas de São Mateus, o engenheiro Nilson avisou que não estava respondendo pelo Sptrans, mesmo assim iniciou sua exposição falando sobre os benefícios que projeto trará do ponto de vista urbanístico, de qualidade de vida e de facilidade de Transportes. “Esse projeto que vem pela Sapopemba, passa pela Praça Felisberto Feliz da Silva em direção a Cidade Tiradentes já existia desde a gestão do prefeito Pitta e era conhecido como fura-filas. Na administração passada houve um estudo para que tivesse uma variante em direção à zona leste”, lembra.
O chamado fura filas quase foi implodido no centro mesmo perdendo todo dinheiro investido. Depois de muito debate, a prefeitura resolver terminar o que havia começado, estendendo a linha não tão somente a São Mateus, mas também a Cidade Tiradentes, bairro bastante adensado no extremo leste da cidade.
Nilson continuou dizendo que a subprefeitura de São Mateus foi convidada a opinar sobre o eixo que trata da extensão que envolve São Mateus e como poderia ser transposta a Praça Felisberto Feliz da Silva em direção a Cidade Tiradentes. Inicialmente a Sptrans aventou a possibilidade de se fazer o traçado pelas laterais da praça com o que não concordaram os técnicos da subprefeitura, incluindo ele. “Era apenas uma divergência técnica”, explica o representante da subprefeitura que apresentou como alternativa a construção de túneis que passassem por baixo da praça. “Como obra poderia ser relativamente mais cara, mas teria menos impacto no entorno da praça”, defende Nilton. Hoje é esse o plano que está sendo considerado pela PMSP.
“Estamos estudando as melhores técnicas para essa intervenção. Foi criado um grupo de trabalho composto pela Siurb, coordenado pela diretoria de paisagem urbana da Emurb que está colocando a praça no centro das discussões da administração central da prefeitura”, indica.
Para o representante da subprefeitura algumas intervenções menores que as desapropriações serão feitas de forma complementar. Por exemplo, a mudança de local dos pontos de trólebus para uma praça menor próxima; a manutenção das galerias de águas pluviais; o plantio de árvores e a restauração de calçadas originais e apropriadas ao comércio mais próximo. Pretendem-se também estimular uma pequena verticalização no local para abrir novas possibilidades de estimular empresas de serviços.
Sobre a compensação ambiental de tal intervenção o engenheiro entende que esse assunto diz respeito a São Mateus e que só para ali devem vir os recursos necessários para investir na região. Como exemplo citou o Parque da Sabesp que poderia além de estendê-lo até a praça, contempla-la como um todo e que ainda possa agregar a sua área alguns imóveis que pode à médio prazo ser utilizado como área cultural.
Outra idéia possível é a Sptrans utilizar parte do dinheiro para investir ao lado dos piscinões com o plantio de árvores e recomposição da paisagem, sustenta Nilson: “Haverá empenho em utilizar os recursos para melhorar a vida da população do bairro”.
Entre os presentes inúmeras dúvidas
Logo após a exposição inicial os presentes formularam várias perguntas ou considerações que foram respondidas pelo representante da subprefeitura de São Mateus.
Pedro Paulo, do Jardim Mariluce Benedito, também presidente da sociedade amigos de bairro local queria saber sobre o rodoanel.
Já o engenheiro civil e morador da Cidade Tiradentes, Roque Fernandes disse conhecer um pouco da proposta apresentada pelo expositor e lembrou que foi em reuniões anteriores que ocorreu o pedido para que o projeto contemplasse a criação de ciclovias. Sem encaminhar perguntas desaprovou a ausência da Sptrans em uma reunião onde muito poderia ser esclarecido.
Para o médico Carlos Soler, mesmo sem menosprezar a utilidade que possa ter o Expresso Tiradentes, sustenta que a região de São Mateus e Cidade Tiradentes com seus quase 900 mil habitantes precisa é de metro. Mostrou-se preocupado com a possibilidade de uma ocupação habitacional desorganizada do bairro, mas voltou ao assunto do Expresso questionando sobre a intervenção ambiental que pode ocorrer a partir do funcionamento do Expresso Tiradentes. “Que tipo de combustível vai ser utilizado nos ônibus que circularão ininterruptamente pelo traçado: diesel ou gás”, indaga. Para Soler o bairro não pode continuar sendo o depósito de lixo de São Paulo, parecendo fazer uma alusão à ampliação do aterro São João. Antes de encerrar insistindo na necessidade de metro, sugeriu que parte da verba possa ser utilizada na saúde e em projetos que possam ser desenvolvidos nas comunidades feitos em convênio universidade e prefeitura.
Já outro participante lembrou aos presentes que a Prefeitura é praticamente uma sócia no negócio do Bio Gás que será produzido pelo aterro de São Mateus. Usou a situação para reivindicar que os recursos que forem obtidos na região sejam revertidos em políticas públicas na própria região. Durante sua intervenção informou ainda que a discussão sobre o Expresso Leste vem desde a gestão Marta Suplicy e, demonstrando dúvida, disse que havia sido informado em outra ocasião por técnicos da Sabesp sobre a impossibilidade de passar um túnel sob a praça por causa da adutora.
Jerônimo Barreto do Jardim São Francisco apresentou duas perguntas: o por que das linhas de ônibus que passavam pelo bairro terem sido canceladas e porque as compensações para São Mateus não chegam as vilas esquecidas do bairro.
E as respostas….
O engenheiro Nilson fez o possível para responder as questões levantadas pelas lideranças e de início disse que a obra do rodoanel, apesar da importância que ele tem para a região é de responsabilidade do governo do Estado.
Comentou que para a área livre de São Mateus o Plano Regional Estratégico de São Mateus, feito por ocasião do Plano Diretor encara a situação fundiária. Disse que entre outras iniciativas o desconto de IPTU para essas áreas pode ser oferecido em troca da preservação e não degradação. Mesmo não sendo assunto da pauta, Nilson informou aos presentes que atualmente a cidade de São Paulo faz um monitoramente de suas áreas verdes via satélite o que facilita o monitoramente que evita a depredação. Disse ainda que o PRE local indicou a criação de áreas de vulnerabilidade ambiental e que as áreas de nascentes de córregos e rios sejam desocupadas e protegidas; inclusive com a instalação de bases da polícia ambiental.
Ainda segundo o expositor, a prefeitura pode recolher gratuitamente os entulhos gerados pelas reformas das casas. “Sai mais barato do que tentar limpar os vários cantos por onde os entulhos são jogados pelos moradores que não se dispõe a contratar as caçambas regulares”, registrou.
Ainda fora do tema principal, o expositor disse que a principal ação da atual gestão nos loteamentos populares é a sua regularização, o que complementa até mesmo a ação feita pelo Ministério das Cidades no Jardim São Francisco com o programa São Francisco Global. Segundo ele, falta apenas a construção de equipamentos de lazer para crianças no São Francisco. Pessoalmente o expositor acredita que a instalação de pequenos varejões e galpões onde possam ser alocados pequenos boxes pode melhorar a qualidade de vida localmente.
Para resolver o problema do transporte público que reconhece precária, disse que tem proposta no PRE de criação de uma linha de integração que percorra essas áreas a um preço menor.
A intervenção nesses locais com a regularização também não são ações de baixo custo. Como exemplo informou que ficaria em 23 milhões de reais a intervenção planejada para o Carrãozinho o que, neste momento da Prefeitura é inviável.
Quanto às compensações, informou que devem ser feitas em toda a extensão e não apenas em alguns lugares. “Estamos propondo alguma coisa na avenida Ragueb Chohfi, com calçamentos e estimulo aos pequenos serviços. Esperamos que a prefeitura esteja atento a tudo que possa ser feito com os recursos. Levaremos tudo em conta”, assegurou.
A intervenção de um dos presentes, respondeu que trabalha na gestão Serra / Kassab e que até onde sabe o projeto anterior terminava na estação de transferência de São Mateus. “ Tanto é que foram feitos estudos técnicos na praça e foram estes que serviram de base para a tomada de posição sobre o projeto. É isso que eu sei. A decisão sobre a travessia da praça foi dessa gestão. Sem querer polemizar” destacou.
Sobre a adutora; dizer que era impossível o túnel por baixo da praça foi falta de conhecimento de quem perguntou e de quem respondeu. “Eu pessoalmente levantei informações de como foi construído a adutora e os documentos indicam que a adutora passa a 18 metros de profundidade na parte mais alta e a 14 metros de profundidade da parte mais baixa da praça. Como engenheiro, tenho que saber desses dados para afirmar qualquer coisa. Quando digo que o túnel irá ocupar apenas 6 metros ainda fica um grande espaço de segurança e de distância entre o túnel e a adutora. E mais ainda, ele alivia a carga sobre adutora na medida que tira milhões de quilos de terra de cima dela. A confecção do túnel alivia carga e não sobrecarrega. Isso é o real, baseado em documentos oficiais da Sabesp”, encerra.
“Nasceu errado e vai continuar errado”, afirma deputado
Convidado para a audiência aonde chegou com ela já em andamento, o deputado Adriano Diogo (PT/SP) disse que já havia diversos projetos como o prolongamento da Jacu Pêssego, o eixo do rodoanel em várias vertentes e esboços de várias alternativas de passagem por São Mateus. “Naturalmente que, antes da decisão pela extensão do fura fila não tinha projeto de túnel, mesmo”, alfinetou.
“Considero esse projeto um erro, nasceu errado e vai continuar errado. Todo o trânsito vai desembocar naquela obra da avenida do Estado”, exclama. “Quando ela (a pista) vem paralela ao rio Tamanduateí ela até que vem bem, mas quando ela vem para o Sacomã ela é um absurdo e ai abriram esse ramal pela Anhaia Melo, que passa pelo Sapopemba até chegar na Tiradentes” é um projeto equivocado, insiste. Mais grave, o deputado sustenta que a adoção do Expresso Leste esconde a possibilidade de São Mateus ter uma linha de metro. “A discussão da linha 4 do metro era de vir por esse mesmo percurso até o largo de São Mateus”, lembra.
Adriano Diogo considera um absurdo as empreiteiras que constroem o metro agora darem palpites sobre o itinerário que eles devem ter o que responsabilidade do Estado. Para a ampliação das linhas do metro em São Paulo, não atendem mais tão somente a necessidade de transporte dos passageiros e sim ao empreendedorismo que ganhou muita importânica por conta dessa relação mercadológica envolvendo empreiteiras de construção e grandes empreendimentos comerciais. É nessa perspectiva que o deputado sustenta que a idéia desse governo e fazer esquecer o metro com o paliativo do Expresso Tiradentes.
Voltando as dificuldades do percurso já desenhado, o deputado lembrou que, sem vazão, a Avenida Anhaia Melo quando chove torna-se um mar de água. Também na vila Prudente a população usuária está desesperada porque não se anda naquele trecho entre a Avenida do Estado e a avenida Sarah Maluf. “Lógico que precisa corredor, mas é preciso ainda discutir melhor”, brada o deputado. “Sair da Cidade Tiradentes passando pelo centro de São Mateus para pegar Sapopermba, Anhaia Melo para depois pegar a Avenida do Estado para chegar ao Parque Dom Pedro é uma alternativa boa? Será que não existem alternativas para sair da Cidade Tiradentes? Será que não é melhor pegar a extensão da Jacu Pêssego saindo próximo da Radial Leste que está sendo feita em Itaquera e ir pelo Tiquatira”, indaga-se com a concordância de parte dos presentes.
Apesar das objeções ao projeto, Adriano Diogo reconhece que ele pode ser irreversível e destaca que se isso ocorrer a participação popular organizada é fundamental para gerenciar melhor todo essa intervenção. Da sua parte admite que a compensação ambiental possa vir com a feitura de outras obras estruturais, talvez a abertura da Avenida dos Machados, cita como exemplo.
O deputado ainda alertou para as complicações com a abertura prevista da Jacu Pêssego na altura do bairro de Ermelino Matarazzo, dizendo que com isso todo o trânsito de carga vindo do aeroporto de Guarulhos em direção ao ABC e ao porto de Santos deve passar pela região o que pode agravar ainda mais a situação de São Mateus.
Diante das afirmações do deputado…
“Concordo que para a demanda dessas regiões o melhor seria o metro. Até propusemos uma linha barata de metro ao longo da Avenida Jacu Pêssego que fosse até Mauá. Uma linha ferroviária que pudesse durante o dia ser utilizada para transporte de passageiros e a noite transportasse cargas do terminal aéreo de cargas do aeroporto de Guarulhos até a baixada santista”, replica o expositor informando que diversas alternativas de transporte foram sugeridas no PRE de São Mateus.
Antes de finalizar a sua participação informou que segundo o cronograma da Sptrans prevê a finalização das obras do Expresso Leste em 2008 para e que uma intervenção dessa envergadura vai ter impacto local. “Vamos conviver com tapumes, desvios, travessias, vai ser um inferno, mas vai ser a solução. Não existe injeção sem dor”, lembrou.
Em função do adiantado da reunião o professor Antonio Carlos ainda registrou que nos 33 anos em que mora na região não testemunhou nenhuma ação do governo do Estado, “A primeira poderia ser o metro”, ironizou. Como encaminhamento ficou a vontade de se realizar novos encontros com a presença de representantes da Sptrans que possa dar respostas mais consistente.
(Publicado no Gazeta de São Mateus ed-237 fevereiro/2007)