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Alternativa cultural atrás da delegacia de Itaquera

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O ritmista da noite paulistana Rogério Camacho de Andrade oferece todas as tardes e noites a extensão de sua casa no centro de Itaquera para o deleite de músicos, artistas diversos e gente antenada no viés cultural. É o bar do Camachos.

Intercalando períodos de funcionamento intenso e outros de quase ostracismo, incluindo alguns fechamentos esporádicos por força das oscilações desse sujeito abstrato chamado “mercado”, o espaço segue revigorado e aconchegante, desde que foi reaberto pela última vez em outubro último.

Se a arquitetura e a decoração não primam pela originalidade com as acomodações modestas e despretensiosas, o clima pós-hippie da casa agrega parte da fina flor da intelectualidade orgânica local. São poetas, seresteiros, trabalhadores e vagabundos, professores e alunos de faculdades próximas com destaque para artistas plásticos, gente de teatro e músicos de várias vertentes, que se tiverem um estilo afinado com a proposta do local, por vezes, dão canjas no local.

Sendo um bar temático poderia cair no risco que ameaçam todos eles, ou seja a de ter uma abordagem monocórdia, estreita e sectária da cultura, entretanto isso não acontece e essa característica mais eclética e menos radicalizada é que mantém o vigor do local.

Naturalmente que sendo extensão da sua casa, o bar, que se confunde e se mistura propositalmente com um ponto de exposição cultural, carrega muito do modo de ver a vida do seu proprietário. O fato de Camacho ter sido ritmista na noite e de acompanhar a cena cultural, principalmente a musical, carrega determinadas posturas que, mesmo involuntariamente são transferidas ao ambiente. Por essa razão que ele pode ser considerado mais que um músico é também um agitador cultural.

Camacho já promoveu a exibição de mais uma dezena de filmes, notadamente do novo cinema brasileiro; fez alguns saraus poéticos e teatrais e promoveu centenas de apresentações de cantores e compositores locais em seu espaço, a exemplo do cantor e compositor com importante trabalho na região, Sacha Arcanjo, que se apresentava com o Trio Padiola, na noite do dia 10.

Para Sacha Arcanjo que ali se apresenta com alguma regularidade, “O bar do Camacho é um local onde você faz exatamente o que deseja. Você pode apresentar suas próprias composições e aquelas de terceiros com que mais tem afinidade, sem ser importunado por ninguém. Hoje, com certeza, é um dos locais mais agradáveis para se apresentar na zona leste”, sentencia o experiente músico.

Recentemente, consultado por uma arte-educadora sobre o que achava do Dia da Consciência Negra, Camacho traçou um paralelo dizendo que a data lhe parecia com aquele amigo que nunca te liga, apenas se lembra no dia do seu aniversário. Para ele, o racismo está na exclusão. “Afinal; todo dia é dia de índio. Todo dia é dia de todo mundo. As pessoas devem ser bons cidadãos e ter consciência geral de não discriminar, não poluir, não prejudicar os outros em nada. Como dono do bar eu quero que as pessoas venham aqui e sintam-se bem. Não quero que ninguém venha pra cá para ser agredido, independente de raça, credo, situação social, etc.”.

Finalizando Camacho explica que a pior parte da sua atividade é à hora de fechar o bar. “As pessoas não querem ir eu também não quero fechar”, registra . “Aqui também é um espaço para que as cabeças pensantes possam se livrar da mesmice que rola por aí”, citando um amigo seu da região. O espaço em questão, que fica atrás do 32º DP de Itaquera, geralmente, fica aberto todos os dias das 15 às 24h00. Às vezes segue aberto até os últimos freqüentadores.

Written by Página Leste

11 de dezembro de 2006 às 21:20

Publicado em Música

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